A Arte de Ser Bela

A Arte de Ser Bela

Atualizado em 07/02/2011 às 14:02, por Nelson Varón Cadena.

O título acima é o de uma das seções da revista "Eu Sei Tudo", franquia do "J'a Sei Tous" que começou a circular no Brasil em junho de 1917, publicação que então se encontrava com facilidade nas salas de estar das residências e também em estabelecimentos públicos (lojas de moda, escolas de piano e de datilografia, cinematógrafos) e dessa forma multiplicava os seus leitores e o seu prestígio. A revista, de periodicidade mensal, tinha 150 páginas de conteúdo distribuído em dez seções, ilustradas com desenhos e fotografias. Em todas suas edições publicava pelo menos um, ou dois assuntos, relacionados com o Brasil: em geral acontecimentos históricos ou biografias e curiosidades sobre escritores, músicos, artistas plásticos.
" " era uma das seções da revista que despertava maior interesse do público feminino. Pela sua originalidade (não era comum esse tipo de conteúdo nas revistas brasileiras), regularidade (seção cativa em todas as edições) e a sua forma de apresentação em tópicos curtos ilustrados com desenhos e vinhetas de muito bom gosto, renovadas a cada edição em função dos temas abordados. O estilo era professoral do tipo dicas de especialistas o que, imagino eu, lhe conferia um ar de credibilidade. Ensinava como ter belas sobrancelhas, clarear os dentes, remover cravos do rosto e em especial do nariz, técnicas de massagem corporal, como clarear as mãos queimadas pelo sol; ensinava a se vestir, a fazer gargarejos para aliviar as dores de garganta, preparar cremes caseiros para o rosto e cuidar do cabelo com misturas de sabão líquido, carbonato de potássio e água destilada, dentre outras receitas da vovó.
A mulher perfeita
Naquele tempo a propaganda dos chamados produtos de higiene pessoal que nada mais eram do que produtos de beleza já tinha uma certa regularidade na mídia: Tricófero de Barry para os cabelos, Linda Cútis para combater rugas e eliminar sardas, Extrato Violácea para perfumar o corpo, Pasta Russa para os seios e Sabão Aristolino, dentre outros. Podiam ser adquiridos em farmácias, o ponto de venda por excelência para essa linha de produtos. A propaganda usava de argumentos de venda que reforçavam o apelo da higiene pessoal com alusões muito sutis em relação à beleza. Nesse contexto não é de se estranhar o sucesso de uma seção de revista que oferecia receitas caseiras de suposta eficiência e falava diretamente à vaidade das mulheres.
Nesse propósito de ditar regras " " extrapolava. Como na edição em que traçou um perfil de "A mulher perfeita" com isso, imagino eu, desencantando milhares de mulheres que não se enquadravam nesse modelo. Segundo a revista "Uma mulher perfeita deve alcançar uma estatura de 1,57 m a 1,70 m e ter um peso de 56 a 63 kilos. O cotovelo deverá chegar à linha da cintura e a mão até a metade da coxa. A circunferência desta tem que ser igual à do pescoço e da panturrilha igual a do braço por debaixo do ombro. A longitude das pernas deverá ser aproximadamente a da metade de sua estatura e desde a cintura aos tacões deverá medir uns trinta centímetros mais que da cintura à parte superior da cabeça". "Eu Sei Tudo" ensinou a nossos visavôs que o banho sempre deve ser com água fria "mas, a água quente não deve ser de todo banida; aconselha-se até seu emprego uma ou duas vezes por mês. O uso mais freqüente da água quente e do sabonete é permitido somente às pessoas que tem a pele habitualmente gordurosa; esses dois agentes são então indicados e o seu uso pode ser indispensável para livrar a epiderme da grande quantidade de matéria sebácea que a cobre e a impede de respirar". A revista não deixava dúvidas quanto às vantagens do baixo frio como norma: "As mulheres gregas e as romanas que sempre queriam conservar-se formosas encontravam no uso freqüente da água fria o talismã que lhes dava o brilho incomparável da pele."