A aflição da reportagem, por Silvia Bessa

Gilson é motorista experiente. Os repórteres gostam de produzir pauta com ele: costuma ser ágil, interessado em encontrar soluções e topa pa

Atualizado em 26/08/2015 às 15:08, por Silvia Bessa.

Crédito:Leo Garbin

ssar horas dirigindo até quase o fim do mundo – uma bênção quando se fala de peregrinação pelos grotões do Nordeste. Sim, quase me esqueci. Gilson, de quebra, é bem-humorado.


Há anos ando estrada afora guiada por Gilson. Semana passada saí com ele para uma entrevista simples no Recife. Nos divertimos ao lembrar das viagens que fizemos juntos. Não uma nem duas, as muitas que eu e outros colegas completamos para concluir uma reportagem especial.


Raras vezes íamos a uma cidadezinha do sertão para encontrar um camarada apenas. Passava dias planejando a sequência de cidades e estados a serem visitados. Cansei de dividir o roteiro em três grupos. Ficávamos dez dias, até 15, rodando de carro, entrando e saindo de estradas de barros, dormindo em pequenas pousadas, comendo bode e galinha assada.


Não sei se vocês sabem, mas aqui em Pernambuco, sobretudo de 2004 para cá – quando os especiais ficaram mais frequentes e sistemáticos –, as reportagens tinham essa característica: eram feitas a partir de entrevistas em vários estados do Nordeste e tinham como proposta mostrar a região. Era frequente ver no texto da apresentação das longas reportagens, publicadas em um único dia ou em séries, quantos quilômetros haviam sido percorridos – 7 mil, 10 mil, 15 mil.


Acontecia tanto no Diário de Pernambuco quanto no Jornal do Commercio , dois veículos que acabaram ganhando notoriedade em grandes prêmios nacionais e chamando a atenção de redações de fora do eixo local. Recordo-me que nas comemorações de fim de ano eu encontrava o ex-governador e ex-presidenciável Eduardo Campos (morto em 2014 em acidente de avião) e ele dizia que só via quilômetros na minha testa. O cenário mudou de maneira drástica. A crise econômica provocou ondas de demissões e repercutiu nos orçamentos das redações.


Posso ver isso de perto no Nordeste, que andava mostrando vasta produção. Aqui houve casos em que se percorriam nove estados da região para completar uma programação. Hoje seria impensável. Os recursos para as reportagens passaram a ser raros. Presume-se que falta dinheiro para viagens e para bancar o papel da veiculação.


No quesito condições de trabalho, conheço quem passou até seis meses dedicado exclusivamente a uma pesquisa. O número reduzido de profissionais nas redações faz com que esse quadro não exista mais. Resultado: já não vemos – com a mesma intensidade – a salutar disputa dentro de um mesmo estado de belas matérias em nome de um jornalismo de qualidade cada vez maior.


Isso não significa que a reportagem morreu, mas posso dizer que a produção de matérias de fôlego caiu muito. Atingiu os conteúdos de jornais impressos, portais da web e televisões. É de se lamentar, porque esse impacto gera perdas imensuráveis para o jornalismo do ponto de vista de quem o produz e de quem o consome.