50 anos de Brasília. A mídia chegou antes
50 anos de Brasília. A mídia chegou antes
A mídia chegou em Brasília muito antes da existência da nova capital, ainda no canteiro de obras. Chegou primeiro por iniciativa do Governo que, em 13 de maio de 1958, dois anos antes da inauguração da cidade, transferiu a Imprensa Nacional, então sob a direção de Brito Pereira (mais de 30 anos na direção da estatal) e mais a Rádio Nacional, inaugurada logo em seguida, em 31 de maio de 1958. A mídia chegou comendo poeira, em instalações provisórias.
Alguns meses após a transferência da Imprensa e da Rádio Nacional surgem os primeiros jornais, de pequeno porte, apenas pra a atender a demanda de leitura de um público transitório composto de empreiteiros, engenheiros, arquitetos, funcionários públicos... Circulam a Tribuna de Brasília, de José Emiliano da Silva e Norton Passos, o Brasília Jornal, de Paulo Magalhães, e o Correio de Brasília, dirigido por Moisés Campos. E, no ano seguinte, o DC-Brasílíla, a versão do Diário Carioca, sob a direção de Oliveira Junior.
A grande imprensa chegou mais tarde, ainda assim estruturada para cobrir e noticiar a inauguração da cidade e o cumprimento do plano piloto que se não estava integralmente realizado. Ela, imprensa, anunciava estaria concluído em setembro. Chegou com Adolfo Bloch implantando uma sucursal na cidade, amigo de Juscelino e, portanto comprometido com o sucesso da transferência da nova capital, um fato ainda não assimilado pela opinião pública, em especial ao do Rio de Janeiro RJ), por conta da forte oposição da Tribuna de Imprensa, de Carlos Lacerda, e do Diário de Noticias ao projeto e, em especial, ao Governo.
Chegou também com Assis Chateaubriand que enxergou mais longe. Fundou o Correio Braziliense, apropriou-se da marca e do simbolismo do jornal de Hipólito da Costa. Em 21 de abril de 1960, o Correio Braziliense circulava com a sua primeira edição, certificado de batismo atrelado ao da nova capital. Assis Chateaubriand trouxe também a telinha para os primeiros moradores do planalto, a TV Brasília, afiliada da rede Tupy, que faria a cobertura da solenidade de inauguração, imagens que foram vistas em Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo, ao vivo, e no resto do país através do videotape, equipamento recém adquirido. Há quem diga que a inauguração de Brasília coincide com a estréia do VT, pioneirismo que outros creditam ao programa de Chico Anysio, no mês anterior.
Sistema de telecomunicações
Para que o rádio e a televisão operassem com relativa segurança, o Governo cuidou de montar uma estrutura de telecomunicações instalando sistema de micro-ondas com estações de recepção e retransmissão escalonadas, permitindo operar até 120 canais. Estrutura de grande porte que deveria atender a TV Brasília, TV Alvorada e TV Nacional e as primeiras emissoras de rádio que surgiriam no planalto. Rede de telecomunicações que o crítico Gustavo Corção ironizava em artigo publicado no Diário de Noticias (linha editorial de oposição), comentando matéria do jornalista Pedro Gomes publicada no Diário Carioca (linha editorial governista)
"Pode assim dizer que tudo está muito bem, em matéria de comunicações em Brasília, e no mesmo artigo dizer que, em véspera de inauguração, a futura Capital da República está menos equipada do que o avião presidencial americano... Admiremos na primeira notícia a passagem em que o cronista declara que o avião americano está "poderosamente equipado" para permitir um contato com a Casa Branca, sem admitir que seu leitor desconfie que Brasília devia estar um pouco mais equipada do que um avião. O avião presidencial vem a Brasília como se viesse ao Pólo Sul. Na segunda notícia admiremos a simplicidade com que o jornalista diz que haverá uma limpeza geral em Brasília: mas então quem receberá os americanos? Na terceira notícia admiremos comovidos a candura do jornalista que ao mesmo tempo está entusiasmado com o adiantamento de Brasília e declara que os jornalistas brasileiros só terão notícias dos festejos por intermédio dos aparelhos que os americanos gentilmente emprestarão".
Críticas aparte, a inauguração de Brasília em 21 de abril de 1960 foi uma grande festa que os jornais e revistas registraram para a posteridade. Realizava-se um plano de quase duzentos anos, assumindo o nome de batismo sugerido por José Bonifácio em 1821. Nascia a nova capital que Hipólito da Costa em 1809 considerara estratégica, no terreno demarcado pela expedição de 1892-94, o grupo precursor de cientistas, a destacar o nome de Henrique Morize (pioneiro do rádio junto com Roquete Pinto). A grande imprensa, tradicional, Folha da Manhã, JB, OESP, O Globo, demoraria ainda um tempo para estabelecer sucursais de fato, aguardaria a poeira assentar.






