1968. O recado dos estilhaços
1968. O recado dos estilhaços
Em 20 de abril de 1968 os gorilas da ditadura mostraram as suas garras para a imprensa que até então gozava de uma liberdade relativa. Nos quatro anos de governo militar a repressão ocorrera apenas no pé de ouvido, recadinhos que as autoridades transmitiam aos donos dos jornais, de quando vez recomendações para afastar um repórter "inconveniente". Mas naquela madrugada "uma bomba de alto teor explosivo, colocada no canteiro existente à porta lateral do edifício do Jornal O Estado de S. Paulo , explodiu, abalando o centro da cidade"; assim noticiou o Correio da Manha na sua edição de 21/04/1968. Primeiro creditou-se a autoria do atentado ao hoje economista Diógenes de Oliveira, na época militante da Vanguarda Popular Revolucionária-VPR. Versão que interessava ao Estado Major do II Exército, o verdadeiro responsável, conforme ficou provado anos depois.
Apenas um aviso
O fato é que a partir de abril de 1968 os recadinhos de pé de ouvido foram deixados de lado e a ditadura, que Elio Gaspari chamou de envergonhada, assumiu outro perfil. Em 22 de julho uma outra bomba explodia no 7º andar do prédio da Associação Brasileira de Imprensa-ABI. Em 07 de novembro o ataque atingiu o deposito de papel do Jornal do Brasil e em 07 de dezembro o Comando de Caça aos Comunistas-CCC, órgão a quem foram atribuídas as bombas referidas, explodia a agência de classificados do Correio da Manhã . Estima-se em três toneladas de vidro o lixo provocado pelo artefato na calçada da Av. Rio Branco.
Era apenas um aviso: na semana seguinte policiais de metralhadora invadiam a redação, episódio este assim relatado por Niomar Muniz Sodré, proprietária do jornal, reproduzido por Paolo Marconi no seu livro " A Censura Política Na Imprensa Brasileira": " Uma bomba de alto teor explosivo foi atirada contra nossa agência da Av Rio Branco, recém reformada. A 13 do mesmo mês tivemos a redação invadida por policiais, de metralhadoras e revólveres, para prenderem, não a mim, mas ao nosso diretor-superintendente e redator-chefe Osvaldo Peralva e que só foi posto em liberdade no dia 28. Em 7 de janeiro de 1969, toda a edição do Correio da Manhã foi apreendida, antes mesmo de ser integralmente impressa, e todos nós fomos arrastados ao cárcere, ficando ainda a Casa submetida ao terror".
Responsabilidade do Presidente
Em editorial publicado no dia seguinte à explosão da bomba (transcrito no livro Um Jornal Assassinado de Jéferson de Andrade com colaboração de Joel Silveira), o jornal duvidou do interesse do Governo em apurar os fatos e com todas as letras e muita coragem responsabilizou o Presidente da República:
"Já se sabe o que o governo vai dizer. Dirá que nada tem a ver com o duplo atentado de ontem... Não investigou os atos de terrorismo praticados contra O Estado de S. Paulo , o Jornal do Brasil e O Globo . Considerou a todos atos de rotina, a rotina da anarquia, implantada no país....O governo não é inocente. É cúmplice... Associa-se ao crime... Mas do que indiferença, há, no comportamento do governo, estímulo à violência. Há conivência...O Correio da Manha com a sua longa história de luta contra a prepotência, onde quer que ela se manifeste e como se manifeste, não se preocupa em denunciar ao país os agentes secundários do terror. Aponta à consciência nacional o responsável direto pelo terrorismo: o Presidente da República, marechal Artur da Costa e Silva".
Novos métodos
Os ataques a bombas apenas sinalizaram uma mudança de atitude. A partir de 13 de dezembro quando sancionado o Ato Institucional nº 5, o regime passava a contar com instrumentos "legais" (previstos no documento) para amordaçar a imprensa. A aplicação desses métodos não demorou a aparecer. Além da invasão ao Correio da Manha, militares aprendiam as edições do O Estado de S. Paulo , Jornal da Tarde e Veja , no contexto a prisão de jornalistas. O Brasil revivia os tempos das ditaduras Arthur Bernardes e Getúlio Vargas e encerrava o conturbado ano de 1968 sem um horizonte alvissareiro. Os métodos mudavam. Doravante teríamos menos bombas. Em compensação, teríamos censores nos jornais, bilhetinhos no lugar dos recados do pé de ouvido, instruções oficiais e torturas. Os estilhaços das bombas de 1968 eram apenas um recado.






