Vibes e abalos no País das Maravilhas
Mais de 124 milhões assistiram o conto do coelho, a segunda maior audiência da história, superando a de Michael Jackson
Por Lucas Mendes
O coelhinho mal penetrou no mais recôndito ponto do buraco MAGA*, regatonou, salsou e tripudiou nos valores trumpistas. Com vibe provocadora, o porto-riquenho Bad Bunny não disse nem cantou nada em inglês, mas o público entendeu o recado para o imigrante e anti-ICE. Vibrou com o show. Trump e os trumpistas queriam enforcar o coelho.
Mais de 124 milhões assistiram o conto do coelho, a segunda maior audiência da história, superando a de Michael Jackson, segundo a Nielsen Media Research.
A derrota cultural não foi a única da semana. Na justiça, os trumpistas levaram mais pauladas. Um júri popular decidiu que o processo contra seis políticos, todos ex-veteranos, não tinha mérito. Lixo nele. Trump queria que fossem condenados à prisão, porque fizeram um comercial dizendo que os militares não deveriam cumprir ordens criminosas do presidente nem de ninguém.
O coronel Mark Kelly fazia parte do grupo, e Trump pedia castigo maior para ele noutro processo. Além da prisão, queria cortar o cheque da aposentadoria e rebaixá-lo no posto. O juiz não só negou, mas deu ao promotor uma espinafração jurídica.
A imprensa entrou na roda com vários jornalistas presos numa igreja evangélica em Saint Paul-Minneapolis quando foram cobrir o culto evangélico de um pastor do ICE. Entre eles, Don Lemon, ex-CNN, detestado e insultado pelo Trump. O juiz o indiciou, mas soltou sem cobrar fiança. A audiência dele no podcast deu um salto e vai ser absolvido. Outro processo-lixo.
Na política, outras derrotas
A Câmara de Deputados aprovou, com apoio de republicanos, uma resolução para revogar várias tarifas que o presidente impôs ao Canadá.
O Senado, também com republicanos, recusou-se a aumentar a verba do DHS, o ministério que controla o orçamento de várias agências federais, entre elas a do ICE. Estamos no que chamam de shutdown parcial, os deputados e senadores pararam de trabalhar, e os funcionários que trabalham não estão recebendo pagamentos.
São só tropeções ou indicadores de meia-volta política?
Na opinião pública e nas pesquisas, a maior derrota veio das ruas de Minneapolis. Os apitos, fones, vídeos, marchas e bloqueios custaram duas vidas, mas venceram. ICE fora de Minnesota.
Numa das sessões mais explosivas da história do Congresso, a ministra da Justiça insultou e foi insultada numa audiência dos deputados sobre o Arquivo Epstein, agora chamado com frequência e provocação de Arquivos Trump Epstein, porque são os dois nomes mais citados. O resultado do bate-boca foi ruim para Pam Bondi, mas o placar ainda não apareceu nas pesquisas.
Trump revidou na mídia social e nas entrevistas. Chutou o balde do clima, anulando o mais importante instrumento federal para proteger o meio ambiente.
Poluir agora não só é permitido, mas também incentivado. Trump quer o país produzindo e consumindo mais petróleo e carvão.
No mesmo dia, o ministro Marco Rubio foi a Munique e deu outro chute no balde da OTAN, desta vez com botas de pelica e nheco-nheco de briga conjugal. Vamos separar, mas continuar amigos, precisamos um do outro.
Na mídia, os Jogos Olímpicos dominaram o tempo da televisão e a resistência nas ruas e tribunais dominou a imprensa escrita. Não consegui descobrir o número na imensurável mídia social. Incompetência minha.
Entre tribunais, porradas nas ruas e na política, as redes interrompiam a programação para noticiar as investigações no sequestro de uma senhora de 84 anos, mãe de uma das mais conhecidas apresentadoras da TV americana. Várias pistas e decepções. Resistência, neve e crime no buraco do coelho.
No País das Maravilhas, o buraco levava a um mundo absurdo. E o mudo do Trump tem saída? ◼
*Nota do editor: A "imprensa MAGA" nos Estados Unidos refere-se a um ecossistema de veículos de comunicação, jornalistas, comentaristas e influenciadores digitais que apoiam abertamente o movimento político "Make America Great Again", liderado por Donald Trump.

Lucas Mendes é jornalista, fundador e apresentador do programa Manhattan Connection, criado em 1993. Em 2015, foi agraciado com o Prêmio Maria Moors Cabot, o mais antigo prêmio internacional de jornalismo dos Estados Unidos.
Lucas escreveu a coluna “Manhattan” para a revista IMPRENSA de 1991 a 1994.





