Traulitadas, talaricadas e croquetadas
Resultado da prévia no Texas pode indicar tendências do eleitorado e antecipar os rumos da disputa pelo Senado e da política americana
Jasmine Crockett e James Talarico disputam no Texas prévia para Senado
Por Lucas Mendes*
A primária desta terça no Texas vai medir o pulso político americano. O segundo estado mais populoso do país — dono de um dos maiores colégios eleitorais — tem três republicanos disputando a vaga no Senado. Um lidera por pouco.
Entre os democratas, Jasmine Crockett aparece forte. Liberal e combativa, ganhou manchetes nacionais após um bate-boca na Câmara em que rebateu um insulto com outro — em rima. Virou destaque nos noticiários da noite. Os republicanos preferem enfrentá-la em novembro: veem nela mais estridência do que ameaça real.
O perigo maior atende por James Talarico. Nome italiano, 35 anos, “the love candidate”, como gosta de se apresentar. Liberal moderado, ex-professor e ex-seminarista presbiteriano, responde provocações com finuras didáticas e lições curtas. Ainda em primeiro mandato na Câmara estadual, já foi tratado como revelação nacional democrata.
Tão “perigoso” que, quando Stephen Colbert anunciou sua presença na CBS, a Federal Communications Commission (FCC) teria alertado a emissora para evitar a “talaricada”. A CBS repassou o aviso. Colbert desobedeceu: encarou a câmera, leu a ameaça e mandou um recado ao diretor da agência — “F-C-C you”. Em vez de exibir a entrevista no programa, publicou no YouTube. Efeito Streisand: mais de 20 milhões de visualizações. Na TV aberta, seriam cerca de 2,5 milhões. Resultado? Talarico virou convidado disputado — e reapareceu na própria CBS.
Enquanto isso, o cenário midiático também muda.
Não só a CBS, mas gigantes como CNN, Warner, Paramount e HBO caminham para a órbita da família Ellison, ligada a Trump — um “império colossal”, nas palavras do New York Times.
Netflix estava no páreo, mas quando foi à Casa Branca não conseguiu garantias de que o Trump abençoaria a venda. Saiu da briga pelo império, porque a FCC poderia vetar.
Voltamos ao Texas, que não elege um senador democrata há quase 40 anos. Para os republicanos, o estado é o que a Califórnia e Nova York representam para os democratas.
Uma vitória azul em novembro seria histórica — e abalaria a República muito além das fronteiras texanas.
Na terça saberemos se vem traulitada, talaricada, croquetada… e só em novembro se será uma outra republicanada de mais seis anos. ◼

Lucas Mendes é jornalista, fundador e apresentador do programa Manhattan Connection, criado em 1993. Em 2015, foi agraciado com o Prêmio Maria Moors Cabot, o mais antigo prêmio internacional de jornalismo dos Estados Unidos.
Lucas escreveu a coluna “Manhattan” para a revista IMPRENSA de 1991 a 1994.





