Todos perdem nas apostas, inclusive o jornalismo
Veículos de jornalismo profissional publicam nesta terça editorial se posicionando contra a onipresença de anúncios que incentivam apostas
Para as casas de apostas online, conhecidas como bets, os repórteres são apenas um meio para atingir um fim: credibilidade por associação. Foi-se o tempo em que o veículo jornalístico era o principal canal de divulgação.
Não é por acaso que a relação cada vez mais estreita entre o jornalismo e as apostas desenvolveu-se paralelamente ao declínio da mídia tradicional e ao colapso do modelo econômico do setor.
A Comissão Nacional de Ética da FENAJ relacionou explicitamente as bets e o conflito ético no jornalismo em sua nota "Apostas online e jornalismo não combinam". A entidade argumenta que a associação entre conteúdo jornalístico e plataformas de apostas ameaça a credibilidade da profissão e pode violar o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, especialmente nos temas de conflito de interesses e obtenção de vantagens pessoais.
Mal necessário?
Lançado este ano, o livro “Everybody Loses: The Tumultuous Rise of American Sports Gambling”, do jornalista americano Danny Funt, é uma investigação sobre a rápida expansão das apostas esportivas legalizadas nos Estados Unidos e seus impactos econômicos, sociais e éticos.
Funt mostra os bastidores dessa indústria por meio de centenas de entrevistas com executivos, ex-funcionários de casas de apostas, apostadores compulsivos, atletas, dirigentes esportivos e especialistas. O jornalista analisa, entre outros aspectos, os conflitos de interesse gerados pela crescente parceria entre ligas esportivas, veículos de comunicação e empresas de apostas.
Numa entrevista para o Nieman Journalism Lab, Danny Funt diz que muitos jornalistas encaram as parcerias com o setor de jogos como “um mal necessário”, uma vez que suas empresas lutam pela sobrevivência e é difícil, nessa situação, manter princípios e recusar uma nova e enorme fonte de receita.
Durante entrevistas para o livro, um ex-repórter da ESPN disse a ele que a "mídia esportiva está, de certa forma, sendo subornada”. Outro repórter, que trabalhava em uma matéria capaz de desacreditar as apostas esportivas, afirmou que isso poderia acabar sendo um suicídio profissional, dizendo: "Preocupa-me estar colocando uma corda no pescoço".
Debate ético
Com a expansão das apostas esportivas nos Estados Unidos, veículos de imprensa passaram a revisar suas políticas sobre a participação de jornalistas em apostas. Um levantamento do Nieman Journalism Lab revelou grande disparidade entre as regras adotadas pelas redações, evidenciando lacunas éticas sobre conflitos de interesse e o uso de informações privilegiadas.
As plataformas de mercados de previsão transformaram praticamente qualquer acontecimento em um ativo negociável. Usuários podem apostar na temperatura máxima numa cidade, no impeachment de Donald Trump, nas eleições brasileiras ou até em eventos trágicos e violentos do mundo real.
Ao atribuir valor financeiro a desfechos noticiosos, esses mercados colocam o jornalismo no centro da dinâmica das apostas. Reportagens e informações apuradas por jornalistas passam a influenciar mercados, enquanto dados obtidos durante a apuração podem adquirir elevado valor econômico, ampliando os riscos de conflitos éticos e do uso indevido de informações privilegiadas.
A ProPublica, organização de jornalismo investigativo americana, anunciou recentemente a atualização de seu código de ética para incluir restrições explícitas sobre o uso de mercados de previsão por sua equipe. A nova política estabelece que "nenhum funcionário deve apostar no desfecho de eventos noticiosos em mercados de previsão, independentemente de estar ou não envolvido na cobertura do referido evento".
Em 2023, o jornal britânico The Guardian anunciou a proibição global de publicidade de jogos de azar, argumentando que é antiético aceitar dinheiro de serviços que podem levar ao “vício e à ruína financeira”. O jornalista do Guardian, Rob Davis, afirma que a decisão o permitiu fazer muitas de suas investigações sem o conflito ético.
Legal versus Moral
O argumento a favor da manutenção do status quo pelo setor de apostas, a princípio, é válido: é uma atividade legal, criada para satisfazer os interesses de um segmento da sociedade teoricamente responsável por seus atos. E que emprega muita gente, além de (pelo menos agora) gerar receitas para o Estado.
Para quem se lembra do debate sobre o fumo, o argumento do setor de apostas parece um eco do que dizia a indústria do cigarro em décadas passadas.
E talvez seja a hora das apostas serem tratadas como o cigarro em relação à postura das empresas de comunicação e leis que possam melhor controlar o setor.
A decisão do Guardian pode ser vista como uma antecipação do que pode vir adiante, como a proibição de anúncios das bets, como ocorreu com os cigarros, assim como restrições ao que podem patrocinar ou não, também como ocorreu com a indústria do tabaco, com desaparecimento de marcas dos carros de Fórmula 1, como o Marlboro e John Player Special.
Os primeiros passos estão sendo tomados. Num acordo entre a Premier League e o governo britânico em 2023, a próxima temporada do campeonato não vai incluir patrocínio de bets na camisa dos times (a exceção será de casos em que contratos longos já tinham sido assinados).
Mas, quando decisões morais, mesmo que corretas, ficam acima das normas legais, o risco é de inconsistência, inclusive na mídia.
Tanto a indústria do cigarro quanto à de apostas pode argumentar - e corretamente - que as decisões morais são esquecidas pela mídia quando o assunto é, por exemplo, bebida alcoólica.
Afinal, o alcoolismo também é responsável por inúmeros problemas pessoais e sociais, mas o setor continua livre para anunciar e promover o consumo de bebidas sem muito questionamento, continuando como um carro chefe de receitas através de patrocínios de eventos esportivos, cobertura do carnaval etc.
Seja o exemplo
Mas, talvez por ser que o fenômeno das bets tenha coincidido com a revolução digital, a relação entre o setor e o jornalismo parece mais perigosa e preocupante.
Críticos argumentam que as parcerias entre veículos de comunicação e casas de apostas diluem a fronteira entre jornalismo e promoção de jogos de azar, mesmo quando existem barreiras formais de separação editorial.
Contudo, se no jornalismo “uma imagem vale mais do que mil palavras”, em um ambiente saturado por logotipos, anúncios, pop-ups e patrocínios, dificilmente um selo de "conteúdo editorial" ou um "chapéu" conseguem neutralizar a mensagem transmitida pela associação visual entre imprensa e apostas.
Devemos questionar até que ponto a associação com as casas de apostas pode comprometer a credibilidade do jornalismo.
A decisão de aceitar ou não parcerias com o setor de bets deve caber a cada conselho editorial dos veículos de comunicação, pelo menos até que o governo decida proibir o relacionamento.
Caso optem por manter ou desenvolver tais parcerias, a transparência e lisura editoriais são essenciais.
Afinal, para cumprir sua missão de servir ao interesse público, informando com independência e sem favorecimentos, a imprensa não deveria apostar o seu bem mais valioso. Esta IMPRENSA certamente não vai.
◼ Nesta terça-feira (21), 15 veículos de jornalismo profissional lançam editoriais publicizando por que não aceitam anúncios de bets. São eles: Agência Lupa, Agência Pública, Alma Preta, Amado Mundo, Aos Fatos, Manual do Usuário, Matinal, Meio, Mobile Time, My News, Notícia Preta, NeoFeed, Plural, Portal IMPRENSA, e Reset. Faça parte desta iniciativa. Preencha o formulário aqui.





