Sou Minas Gerais e ouço a sirene soando há 10 anos

Em fevereiro, o jornal mineiro A Sirene completou 10 anos, focado em trazer a narrativa das pessoas e das comunidades locais

Atualizado em 21/04/2026 às 18:04, por Colunista.

Duas capas da publicação “A Sirene”. À esquerda, em cores, um grupo de pessoas está reunido ao ar livre, em meio à vegetação, olhando em direção à câmera; acima, o título “A SIRENE” e o subtítulo “Para não esquecer”. À direita, em preto e branco, o retrato de um homem idoso sorrindo, em ambiente interno, com o título “A SIRENE” na parte inferior.

Capa da ediçao zero do Jornal A Sirene e a edição 106, 10 anos depois (Reprodução)


Por Juca Guimarães*

O compositor Milton Nascimento está entre os principais nomes da música mundial, com talento reconhecido e incontestável. Acima de tudo, sua obra registra as paisagens e muitas das características do povo mineiro, que é guerreiro, unido e inteligente. No jornalismo, dentro do nicho de publicações segmentadas e jornalismo popular, o jornal mineiro A Sirene, que completou 10 anos em 2026, espelha essas mesmas características cantadas em verso pelo Milton. É um jornal feito a muitas mãos, com foco nas histórias e necessidades das populações atingidas por barragem e mineração. 

O rompimento da barragem de mineração em Mariana, ocorrido em novembro de 2015, é um marco recente da luta ambiental do país e foi também o evento que motivou a criação do jornal A Sirene, que teve a sua primeira edição publicada em 5 de fevereiro de 2016, ainda sob forte impacto da tragédia ambiental que se abateu no Brasil. A primeira edição teve 16 páginas e ficou pronta em um final de semana.

A Sirene já ultrapassa 100 edições e eu bati um papo com a Silmara Filgueiras, atual jornalista responsável pela publicação, que participou também da criação do jornal em 2016. A Silmara me disse o seguinte:

A Sirene surgiu a partir de uma reunião de pauta no campus, em Mariana, da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). Nosso primeiro encontro já foi uma reunião de pauta. Estavam presentes: pessoas atingidas de Bento Rodrigues; Padre Geraldo Martins, representante na época da Arquidiocese de Mariana; Nitro Imagens; profissionais da área da educação e patrimônio de Mariana e Ouro Preto; sociedade civil mais ligada ao coletivo Um Minuto de Sirene e professores e alunos do curso de jornalismo da UFOP”.

O nome A Sirene é uma referência ao fato de a sirene de alerta não ter soado no dia do rompimento da barragem de Mariana, que matou 19 pessoas e despejou cerca de 40 milhões de rejeitos tóxicos na bacia do Rio Doce, por mais de 850 km até o litoral do Espírito Santo, atingindo milhões de famílias.

Ao longo do tempo, e com muitas viradas de ciclos, A Sirene se tornou fonte primária de informações importantes sobre a vida dos atingidos e o andamento das investigações.

 
Foram elaboradas diversas parcerias e se estabeleceu um modo mais profundo e assertivo de produção de conteúdo.

“Na minha avaliação, todas essas contribuições e parcerias foram importantes para passar o recado dos atingidos, a narrativa dessas pessoas. A partir daí, o investimento da equipe técnica em desenvolver a comunicação popular, através das nossas experiências em campo, trouxe esse diferencial. Isso com foco em trazer sempre a narrativa do que as pessoas e as comunidades estão demandando em determinado momento e a cada publicação”, diz Silmara, que trabalhou na diagramação da edição zero do jornal, enquanto ainda estava na faculdade.

“Na época, eu estava mexendo muito com diagramação e era monitora de planejamento visual da UFOP, também estava no 7º período da faculdade e a turma estava fazendo a revista Curinga. Como havia acontecido o rompimento na mesma época, eu fiquei envolvida nessa parte visual e diagramação na universidade e depois na Sirene. Esse foi um período de estágio compulsório (risos) muito importante na minha carreira profissional, pois o jornalismo tradicional e a comunicação popular entraram em choque. Logo cedo, eu compreendi meu caminho profissional na comunicação popular. Na minha entrada no jornal, fui diagramadora da edição zero. O projeto gráfico do jornal A Sirene e o manual do projeto gráfico foram objetos do meu TCC”, relembra Silmara.

Uma das características mais marcantes do conteúdo da Sirene é a composição das equipes de produção de conteúdo e a forma como são decididas as pautas, mesmo com as dificuldades para manter o jornal circulando.

“A cada publicação, a incerteza sobre a continuidade do jornal rondava, de certa forma, pois os desafios começaram a aparecer de forma natural. Com isso, ciclos foram se abrindo e fechando para consolidar uma equipe técnica para auxiliar na produção. Essa estrutura permitiu que a equipe de produção fosse composta por técnicos e pelos atingidos”, diz a jornalista Silmara.
 

*Juca Guimarães, paulistano, é jornalista desde 1996, atua como repórter, roteirista e documentarista. Trabalhou na Folha de S.Paulo, Estado de S.Paulo, Rede Globo, Alma Preta Jornalismo, Ponte Jornalismo, entre outros.