“Sempre um papo” completa 40 anos com vocação para eternidade

O escritor e jornalista Afonso Borges conta sua trajetória na comunicação da literatura

Atualizado em 18/02/2026 às 17:02, por Alexandra Itacarambi.

Homem de pele clara, cabelos curtos e grisalhos e barba branca cheia, aparece sentado em ambiente interno, olhando levemente para baixo com expressão tranquila. Ele usa óculos de armação escura e camiseta azul clara. Ao fundo, há uma cortina branca translúcida, uma parede com revestimento de azulejos bege e uma janela com vista para prédios e árvores. No canto inferior esquerdo da imagem, aparece o nome “Afonso Borges”, indicando que a cena parece ser de uma chamada de vídeo.

Escritor e jornalista Afonso Borges em entrevista para o Portal IMPRENSA

O projeto “Sempre um papo”, do escritor e jornalista Afonso Borges, é pautado pela lógica do jornalismo ao propor conversas sobre o que tem de atual no universo literário. 

Segundo Afonso, tudo começou com a literatura e depois veio o jornalismo. Aos 14, 15 anos, ele havia publicado um poema num jornal da cidade natal de sua mãe, em Muriaé, foi então que despertou a vontade de escrever em jornal e de ser jornalista.

Antes de entrar na universidade, fez parte do movimento de literatura independente de Belo Horizonte, ao lado de Carlos Herculano Lopes, José Alexandre Marino, Thais Guimarães, entre outros, movimento que tinha, inclusive, autores que são jornalistas hoje. Essa experiência confluiu para a Pontifícia Universidade Católica (PUC-BH), de onde saíram Ascânio Seleme, José Rezende Júnior, “um grupo fantástico de jornalistas” que se formaram no final dos anos 1970 e começo dos 80, e que hoje têm carreiras brilhantes. 

Afonso foi por 10 anos estudante, mas não só, neste período trilhou sua trajetória de vida, em que a literatura se funde ao jornalismo. O evento que deu o pontapé inicial ocorreu logo após a morte do ex-presidente Médici, que liderou um dos períodos mais violentos da ditadura civil-militar. Na PUC de Belo Horizonte, com o auditório lotado, fez o evento “Os anos de Médici”, com convidados como Heloisa Starling e René Dreifuss. “René, imagina, autor de ‘1964: A Conquista do Estado’, livro fundamental, foi nele que identificou todo o financiamento dos norte-americanos à campanha de apoio ao golpe militar de 1964.”

Já tinha experiência anterior ao trabalhar nos festivais de inverno da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), em Diamantina. Contudo, o empurrão fatal para o projeto foi dado num bar, pelo escritor Oswaldo França Junior. “Eu tocava num bar, ao lado da católica, fui músico de noite por muitos anos, ao lado de escrever, essa coisa toda. Um dia, o França chegou perto de mim, querido e saudoso Oswaldo França Júnior, autor de ‘Jorge, um brasileiro’. Ele falou: - Olha, por que você não me entrevista aí, enquanto você está conversando?”.

O marco oficial do “Sempre um papo” é em setembro de 1986, com o Frei Betto, que havia lançado o livro “O Dia de Ângelo”, na época com outro título. Não se conheciam. Afonso escreveu uma carta e depois se falaram pelo “orelhão, aqueles de ficha”. Foi então que Frei Betto cunhou o nome: “Sempre um papo”. “E ali começou esse projeto que promove o encontro de autores com o público.”


O caminhar

Logo no início, descobriu que poderia aplicar as técnicas de comunicação que havia aprendido no curso no mercado editorial. “O mundo do livro sempre foi muito rejeitado, sempre relegado a terceiro, quarto plano no ponto de comunicação”, diz. 

Faz uma comparação: você vai fazer teatro, o espetáculo de teatro tem anúncio de jornal, spot em rádio, banner, e por aí vai, né? E lançamento de livro? Raros são os lançamentos que têm até hoje mais do que um convitinho, um flyer de WhatsApp.



Afonso revela que, desde aquela época, já tinha anúncio do Estado de Minas, spot na Rádio Guarani e fazia cartazes grandes. Ziraldo patrocinou o primeiro cartaz, daqueles que tinha espaço para colocar os dados do evento, e saía pregando nos bares, nos postes e nas universidades de Belo Horizonte para divulgar o evento. 

Nesse mundo ainda rústico em matéria de comunicação, se divertia até com os releases. “Eu batia numa máquina manual em três carbonos. Por quê? Porque tinha que mandar um release para cada jornal. Na época, mandar era entregar mesmo o papel. É claro que logo depois apareceu o fax. Aí sim, facilitou.” 

E assim foi construindo uma carreira de trabalho e uma estratégia de comunicação que valorizasse o livro, o autor e tornasse a leitura uma coisa mais fluida na cabeça das pessoas. “Estamos falando de 1987, 88, 89. É outro mundo, outro país saído da ditadura, com anistia mal tendo sido assinada, onde as pessoas tinham muita vontade de conversar. Não conversar pessoalmente, mas conversar em grupo, entender o que foi aquilo, entender o que foi o Brasil, entender o que se passou.” 

Participavam do “Sempre um papo” jornalistas e escritores que marcaram e definiram uma mentalidade da época pós-ditadura, que hoje estão beirando os 80 anos. Fernando Gabeira, Fernando Moraes, Frei Betto e Ruy Castro, estão entre alguns dos nomes representativos dessa geração. 

Contudo, o projeto só começou a se estruturar e ganhar uma dinâmica profissional com o advento da Lei Rouanet (1991/1992). Como é possível imaginar, o começo foi muito difícil, era preciso contar com outras rendas para sobreviver. Não que agora seja fácil, é importante pontuar. O ciclo da Lei Rouanet é anual, ou seja, implica um recomeço constante. Escrever projeto, prospectar, captar patrocínio, acompanhado pela ansiedade de realizar e pelo sofrimento da indefinição. Um ciclo de recursos demasiado curto para projetos que demandam continuidade.

Tinha amigos que o apoiavam nos traslados, cita Carla Madeira, amiga de infância e escritora, e Janine Saponara, jornalista e CEO. Muita gente dormiu na casa dele - Lia Luft, Herbert Daniel, Décio Pignatari. Lembra que nesta época era comum na comunicação a permuta de passagem aérea, da antiga Varig, e de hotel, do pomposo Othon Palace. A venda dos livros era responsável por praticamente toda a receita. Sim, naquela época, vendiam-se livros.


Eu não vivo sem jornal

“Eu acordo às cinco e meia da manhã, leio todos os jornais. Há anos sou viciado em ler jornal, como seu pai sempre foi. Leio sete jornais por dia. Contribuo para o grupo que a gente tem, Literatura e Liberdade, que são quase 300 pessoas. Forneço conteúdo para o grupo, converso, discuto. Eu sei lá onde é que assumi tanta ligação, mas tudo tem fonte, natureza e gestão no jornal.  Eu não vivo sem ler jornal todo dia. Isso faz parte do meu leitmotiv da vida. Sempre fez,” declara.

E neste caminho de dedicação e disciplina, desenvolveu o know-how de fazer lançamento de livro e debate em qualquer lugar, não só no Brasil, como no exterior. Os festivais que realiza hoje são consequências desta expertise. Conta que o primeiro em Araxá, com participação de José Eduardo Agualusa, Ziraldo, Zuenir Ventura e Luis Fernando Veríssimo, surgiu de uma sobra de recurso. E depois tomou gosto. 

Em formato sintético e recheado de jornalistas - aliás, como sempre foi -, os festivais conseguiram alinhar temas e consolidar conceitos para o seu trabalho. Enquanto “Sempre um papo” segue uma lógica completamente aleatória, ou melhor, jornalística, pautada pela atualidade, os festivais ganham em propósito, diversidade, vanguarda e inovação.


Tecnologia e amanhã 

Puxo o papo das mudanças tecnológicas, que, se por um lado afetaram as vendas de livro, por outro favoreceram a necessidade dos encontros. Para minha surpresa, a conversa foi para outro lado. Diz que foi uma das primeiras pessoas que tiveram computador em Belo Horizonte, o WS que rodava num gravador e tinha uma tela verde, e que o registro sempreumpapo.com.br data o primeiro ano da internet comercial legalizada no Brasil, por influência de uma grande amiga que trabalhava na Unicamp.

Tenho uma história interessante nesse mundo da tecnologia, não só porque eu adoro, mas também porque eu tive essas felicidades. Ao mesmo tempo, Alexandra, eu convivi com pessoas que lançavam seus livros no ‘Sempre um papo’ e eram especialistas nisso.


Esse depoimento diz muito sobre a dinâmica do “Sempre um papo” e seus festivais-filhotes. Os números de hoje revelam uma natureza orgânica com o digital. Seus festivais, desde os primórdios, são os únicos transmitidos na íntegra pelo YouTube, em tempo real e gratuitamente, e logo após ficam disponíveis para o público. Hoje, essa plataforma conta com mais de 8,5 milhões de views e 1.800 vídeos. 

Entendi, neste momento, que “Sempre um papo” não é a forma ou o formato. Por ser uma “atividade – conceito”, como Afonso autodefine seu projeto, é uma atividade cujo objetivo é incentivar o hábito da leitura através da comunicação e também da tecnologia. E assim, será encontro para sempre.


Do itinerante para casa

Poderia ter parado aí, mas faltava a pergunta clássica da efeméride: E agora, quais são os planos para os 40 anos? Sabia de antemão que não haveria uma resposta definitiva ou fechada.

Afonso deu um panorama de uma agenda pesada e incerta, por conta da confirmação de patrocínios e seus devidos contratos. Além dos quatro festivais - anotem: Fliaraxá acontece em maio, Fliparacatu em agosto, Flitabira sempre em outubro e Flipetrópolis em novembro -, têm projetos programados em São Paulo, Rio de Janeiro no Museu do Amanhã, Belém, entre outras cidades. 

Apesar de ter viajado para diversas regiões do Brasil com o projeto, orgulha-se mesmo é de ter trazido o Brasil para Belo Horizonte. Seu sonho agora é “o máximo” — criar uma casa da literatura, capaz de produzir eventos próprios, organizar seminários e cursos, além de oferecer consultoria a autores. Falta em BH, segundo ele, um espaço físico que funcione como ponto de convivência cultural, com livraria, café e áreas de exposição dedicadas à literatura.

O que falta para mim? Uma sede. Uma sede para a gente fazer tudo isso que acumulou nesses 40 anos com excelência, com credibilidade e sempre tudo gratuito. Essa, para mim, é uma condição inegociável.


Ele imagina a criação da Casa da Literatura, um espaço que reúna todo o acervo construído ao longo das quatro décadas e que seja acessível ao público, ao mesmo tempo em que siga promovendo e incentivando a produção contemporânea.

“Meu acervo físico vai do U-matic ao DVD, CD, DVD-ROM, fita-cassete e outros formatos. Tenho um quarto inteiro dedicado a isso. É muita coisa. Além disso, há muitos documentos físicos, cartas e matérias de jornal que registram esses 40 anos de trabalho.”

A necessidade de uma sede fixa pode parecer paradoxal para um projeto que sempre teve como marca o caráter itinerante. Mas a resposta está no próprio legado construído. Trata-se de compartilhar uma história e oferecer um espaço permanente ao público - que venha o Brasil para BH -, algo à altura de uma cidade que já foi berço de tantos grandes jornalistas e escritores, e merece um centro físico dedicado à palavra. ◼