“Precisamos decidir a quais traumas a gente quer se expor”
Vencedora do Prêmio Esso de 1995, Rebeca Kritsch lança livro homônimo à reportagem “Viver nas Ruas”
Daniel Kfouri, Rebeca Kritsch, Eduardo Suplicy, Verônica Duarte e Maria Antonieta da Costa Vieira, presidente da Organização de Auxílio Fraterno, participam do lançamento do livro "Viver nas Ruas" (Divulgação/ Bia Paganini)
Atletas de alto desempenho saem de suas carreiras com um punhado de machucados. Não é diferente para repórteres como Rebeca Kritsch, que mora fora do Brasil há 16 anos e diz que, na Inglaterra, não é mais jornalista.
Cicatrizes emocionais e um tanto de histórias, que não podem ser contadas, fazem parte da bagagem de muitos profissionais de imprensa. “Não é só a integridade física, mas é, também, saúde mental”, desabafa.
Conta, no livro recém-lançado “Viver nas Ruas”, que ouviu nos Estados Unidos que “nós, jornalistas, somos as pessoas pagas para nos preocuparmos com os problemas do mundo”. Certamente, a trajetória profissional da Rebeca é traçada por essa prerrogativa, seja como jornalista, escritora profissional, otimizadora de inteligência artificial ou diretora de comunicação em ONGs. Manteve sempre o foco das suas atividades convergentes na defesa dos direitos humanos.
Entre os projetos, que já estão na fila após a conclusão do seu doutorado sobre o Marechal Cândido Rondon, estão um livro em inglês já escrito durante o ano sabático em que morou em Portugal e iniciativas com inteligência artificial.
“Viver nas Ruas"
Antes de dormir nas ruas de São Paulo, Rebeca Kritsch havia dormido ao ar livre nas praias e nos bancos públicos de cidades no Alasca, para uma reportagem sobre o impacto ambiental do acidente com o petroleiro Exxon Valdez (*). Apesar de contextos bem diferentes, em que a única semelhança parece ser a resiliência, Rebeca se inspirou nesta experiência para apresentar a proposta imersiva aos diretores do Estadão, veículo em que trabalhava em meados dos anos 1990.
O método que Rebeca propunha é o que alguns chamam de “jornalismo infiltrado” ou undercover como é conhecido em inglês. Ele é utilizado quando envolve a ocultação da identidade real do jornalista ou de sua intenção profissional para obter informações de interesse público que seriam inacessíveis por meios convencionais. É usado em casos excepcionais por questões éticas e legais.
A ideia era trazer um ângulo que ninguém tinha abordado na época. Queria mostrar o cotidiano do ponto de vista das pessoas em situação de rua. A repórter já havia feito coberturas em comunidades para o jornal, área de seu interesse. Mas ouviu: “Não, você é mulher!”.
Teve que defender a pauta. Preparou um plano minucioso, levando um fotógrafo homem junto. Frequentou a sopa embaixo do viaduto do Glicério e leu George Orwell, “Down and out in Paris and London” (traduzido para o português como “Na pior em Paris e Londres”), livro no qual o autor retrata o período em que viveu em condições de extrema pobreza.
Não foram poucas vezes na carreira em que Rebeca correu riscos maiores do que o imaginado. Diz ter aquela sorte de repórter. “Várias vezes na minha carreira, já perdi a conta de quantas vezes, alguma coisa aconteceu do meu lado e não comigo. Infelizmente, a condição nessa reportagem é que ela (Fátima, uma moradora em situação de rua) foi furada pelo homem que estava dormindo ao lado dela. E eu dormindo aqui,” gestualiza.
Mesmo “com sorte”, teve perdas. O fotógrafo a abandonou depois da primeira noite – quando ocorreu o incidente com Fátima, Rebeca dormia sozinha. Ela resistiu o quanto pôde, teve picos de estresse que relata na reportagem. “Eu já estava perdendo a noção de risco. Estava esgotada”.
No limite
A matéria das ruas foi diferente de outras que envolviam denúncias e trouxe aprendizados para a repórter e para a sociedade. “Acho que sensibilizou e ajudou indiretamente em algumas coisas.” De fato, a matéria escrita em primeira pessoa, ocupando oito páginas de jornal, ganhou, naquele ano de 1995, o Prêmio Esso de Jornalismo e questionou a paisagem urbana que estava até então normalizada.
Trabalhar com situações perigosas não é para qualquer um, mas, mesmo assim, Rebeca testou seus limites pelo mundo afora.
“Fiz uma reportagem muito perigosa na Indonésia na época da invasão do Timor Leste, em outra quase comprei um passaporte, na outra tinha até o esquema ajeitado para comprar uma arma de um policial. Fiz um monte dessas coisas,” se entrega com certa reticência. Arrumou muita encrenca, às vezes sem apoio.
“Precisamos decidir a quais traumas a gente quer se expor, porque vai traumatizar. Essas pessoas que cobrem guerra, não ganham um passeio na floresta. Vai voltar com aquelas imagens, com aquela coisa horrível. Não precisa ir lá longe também, quem faz reportagens nas favelas, nas comunidades sabe disso. Fiz muito.”
No livro “Viver nas Ruas”, com o prefácio do deputado estadual Eduardo Suplicy, a autora faz um balanço do impacto da reportagem pré-Cracolândia e da situação 30 anos depois. Números e relatos mostram um ambiente muito mais hostil e complexo. Já Suplicy discursa sobre a urgência de iniciativas públicas que envolvam autonomia das pessoas e a não-violência, para uma sociedade que talvez não esteja pronta para ouvi-lo.
Na nossa conversa presencial, dias após o evento de lançamento, ao comentar sobre os prós e contras, acrescenta:
Eu tinha aquela ambição fora de lugar. De falar, ‘eu vou resolver o problema da situação de rua com isso’. Eu aprendi o quanto isso é fora de lugar. Principalmente depois que fui trabalhar com as ONGs.
“A minha dor, Alexandra, é ver as pessoas nessa situação e ninguém fazer nada. Eu saí de jornalismo, mas eu continuei trabalhando com questões sociais.”
Linguagem e ética
A figura-chave, que bancou a edição da reportagem, foi a jornalista Marcia Glogowski. “Ela já chegou com aquilo na cabeça para mim e falou: ‘vamos fazer um grande relato em primeira pessoa’. E, assim, vou contando todos os dias que estive na rua.”
Questões como proteção das identidades dos personagens, transparência com o leitor, direitos de imagem etc. foram cuidadosamente levadas em conta no texto e na edição. “Na matéria da rua, não infringimos nada.” Defende que também não havia dilema ético em consumir a comida distribuída aos necessitados, já que, na época, a quantidade de comida disponível não era um problema. “Não tirei comida de ninguém”, diz. Lembra das discussões frequentes sobre o “custo da informação” na Universidade Columbia, em Nova York.
Em sua vida profissional, foi a primeira oportunidade que teve de usar o jornalismo literário, uma paixão que talvez seja a de grande parte dos jornalistas, mas analisa que falta espaço para isso. “É uma pena, porque no Brasil o jornalismo literário é muito raro e não é valorizado.”
Rebeca pôde experimentar este gênero novamente no livro “Redescobrindo o Brasil”, de 2002, quando rodou mais de 500 mil quilômetros em território nacional. “E tem uma coisa que aprendi: não existe uma regra para tudo. Como na Amazônia, não existe uma solução para a Amazônia inteira.”
Depois desta experiência, deixou o jornalismo e foi trabalhar com comunicação humanitária em organizações não-governamentais (ONGs) por quase 16 anos.
Brasil de dentro e de fora
Trabalhou no WWF (Fundo Mundial Para a Natureza) e viajou pelo mundo. “Coordenei uma campanha global para a Amazônia e acabei trabalhando em muitos países para levantar fundos, mas também conscientizar, apoiar contratos e tal. Nesse sentido, eu trabalho para o Brasil até hoje, para a Amazônia, principalmente. A minha tese é sobre o trabalho do Marechal Rondon na Amazônia.”
Seu doutorado em Oxford, em História da Ciência, Medicina e Tecnologia, é centrado no Brasil. Nessa grande universidade, em que tudo se discute, Rebeca se esforça para levar uma visão da Amazônia menos simplista e dual, do tipo bandido-mocinho. Compara a Amazônia com uma guerra: “é muito pesado lá.”
Seu interesse pela história do icônico Marechal começou “no bom e velho jornalismo”, ao trilhar seus caminhos quando escrevia o “Redescobrindo o Brasil”.
No WWF, também coordenou a comunicação de um projeto no Rio Juruena, no Mato Grosso. Confessa que é tão apaixonada pelo Juruena quanto o Rondon era. Trata-se de um território em que a exploração, iniciada em 1907, havia sido muito difícil e perigosa.
Só se deu conta de quanto conhecia a vida e os caminhos trilhados pelo Marechal quando foi convidada para ser escritora de uma expedição (que acabou não acontecendo) que iria reproduzir “A Expedição do Rio da Dúvida”, liderada por Rondon e o ex-presidente americano Theodore Roosevelt.
“Fiz muita pesquisa naquela área. Rondon decidiu a criação daquele estado (Rondônia), decidiu onde ia passar a linha (que define o estado), fundou os postos de telégrafos, e eles viraram as cidades de hoje. É muito poder para um homem só. Eu sempre falo isso lá em Oxford: ‘é muito poder para um homem só’.”
Normalização, palavra perigosa
Rebeca tem razão quando analisa que a exposição excessiva a determinadas situações resulta na normalização de aspectos que deveriam, no mínimo, causar questionamentos.
O fato de se mudar do Brasil revela uma resistência em não aceitar a normalização, que às vezes é interpretada como desistência. Ao longo da nossa conversa, temas como saúde pública, criança em situação de miséria, crise climática, feminicídio, violência urbana, corrupção e até a internet se entrelaçam com a propriedade de quem estudou e vivenciou a complexidade do Brasil.
Em 2009, foi trabalhar no Fundo Global de Luta Contra Aids, Tuberculose e Malária, na Suíça, e debruçou-se em saúde global. Ao falar de globalização, explica que os macrotemas meio ambiente e direitos humanos emergiram e estão hoje muito ligados.
Falamos de dor. “A desigualdade do país, eu acho que é uma das coisas que mais me incomoda. E essa dor não passa.” Respeitar seu limite e entender que tem o direito de não aguentar viver no Brasil faz parte desta caminhada. “Não desisto nunca e também não desisto do país. Mas morar aqui para mim é muito difícil, principalmente pelo machismo. Ser mulher no Brasil é muito difícil e o jornalismo é muito machista.”
Nova geração
Nem tudo, nem sempre precisa ser imersivo, mas precisa ser coerente. O distanciamento favorece o estranhamento e o desejo de fazer diferente. “O que eu gostaria muito de lembrar é que outro jornalismo é possível. Jornalismo custa dinheiro para fazer, mas é assim, se a pessoa tiver uma ideia, criatividade, tiver os meios de fazer, façam, por favor, façam! Usem outras narrativas, usem outros ângulos.”
Múltiplas carreiras já são uma necessidade e a vida profissional das novas gerações será muito longa. O jornalismo pode ser uma delas, pode ser a primeira, a segunda, a terceira, mas é necessário se atualizar o tempo todo. Para Rebeca, o importante é estudar algo que dê uma base sólida: filosofia, história, letras, sociologia, biologia, matemática, direito.
Já as tecnologias são habilidades e mudam cada vez mais rápido. Aliás, Rebeca Kritsch tem no currículo o privilégio de ter sido a primeira repórter de internet do Brasil. Conta que, quando era editora do Caderno Zap!, fez a transmissão textual ao vivo da Copa do Mundo de 1994, época em que só existiam o BBS (Bulletin Board System) e o modem discado. Era o início da internet comercial no Brasil.
Em 2024, foi otimizadora de inteligência artificial, área que tem aberto novas portas. Atualmente, na Inglaterra, trabalha em uma empresa global que fornece serviços de dados e tecnologia, cujo nome traz as palavras “risco” e “solução” lado a lado. ◼
(*) O derramamento de petróleo do navio-tanque Exxon Valdez, ocorrido na costa do Alasca em 1989, permanece como um dos maiores desastres ambientais da história, com cerca de 11 milhões de galões (aproximadamente 40 milhões de litros) de petróleo bruto despejados no mar.





