Retrofuturismo | Os futuros já não são mais como antigamente
Entre nostalgia e pessimismo, cresce a percepção de que o futuro deixou de representar promessa coletiva e passou a gerar incerteza
Ilustração gerada por inteligência artificial
Como será amanhã?
Responda quem puder
O que irá me acontecer?
O meu destino será
Como Deus quiser
Como será?
[Simone]
Por Flavio Ferrari*
Não é de se espantar que crianças educadas para acreditarem em Papai Noel, Coelhinho da Páscoa e Fada dos Dentes, e ninadas pelos contos dos irmãos Grimm, nas versões suavizadas pela Disney, se transformem em adultos com dificuldade para imaginar cenários futuros realistas.
Aos adultos, entre fake News, fake Olds, informações recortadas e narrativas de ocasião, a “realidade” segue subvertida por contos da carochinha.
O saudosismo e o pessimismo, identificados por diversas pesquisas (Ipsos Global Trends, NBC News, Gallup, FGS Global), têm uma causa raiz pouco comentada: o futuro, antes, parecia melhor.
Só isso já daria uma boa conversa, mas vamos manter nosso foco na análise de cenários futuros.
Praticando a autonomia de pensamento e exercitando a consciência crítica, podemos imaginar o futuro com maior liberdade, distanciando-nos dos discursos utópicos e distópicos.
Um dos “truques” preferidos dos futuristas para isso é adotar uma “âncora”, ou seja, um elemento “portador de futuro” que confere o sentido de realidade e uma certa estabilidade na análise temporal.
A mais habitual é a tecnologia, não apenas porque é sedutora, mas por facilitar a avaliação de impactos e suas implicações.
Mas eu proponho um caminho analítico mais humanista.
Desejos
Como teria dito Protágoras, o filósofo grego: “O Homem é a medida de todas as coisas.” Por “homem”, aqui, entenda-se “humanidade” (uma sinédoque comum na época).
Os humanos, então, poderiam ser nossa âncora, e os desejos humanos considerados determinantes do futuro.
Algo que absolutamente ninguém deseje terá menor chance de acontecer do que algo que todos desejam.
Mas é claro que desejar, apenas, não resolve a questão. O que desejamos precisa ser possível. E esse era o encantamento com a tecnologia no passado, essa coisa mágica que iria tornar tudo possível.
Parte do pessimismo atual é decorrente da mudança dessa visão. Os políticos, a imprensa e os influenciadores digitais aprenderam que o medo captura mais a atenção do que o otimismo, e toda nova tecnologia anunciada vem acompanhada de milhares de alertas sobre como ela irá destruir a sociedade.
Mas, vamos lá.
Entre as coisas desejadas, aquelas para as quais existem recursos (tecnológicos, financeiros etc.) que permitam sua concretização terão mais chance de acontecer. E se a intenção (o propósito) for percebida como positiva e alinhada com outros desejos, intenções e propósitos, ainda melhor.
Há que se considerar, também, o espírito do tempo (o “Zeitgeist”). O que está alinhado com as ideologias de ocasião receberá mais apoio.
E precisamos avaliar as eventuais resistências às transformações necessárias para que essa mudança possa acontecer (o custo da transformação requerida).
Como toda transformação precisa ser conduzida por pessoas (nossa âncora), aquelas que encontram um líder de peso terão maior probabilidade de se concretizar.
E, por último, mudar dá trabalho, e só compensa quando o resultado justifica esse trabalho.
Em suma, desejos para os quais existem recursos, são reconhecidos como bem-intencionados, alinhados com outros desejos e com o Zeitgeist, requerem menor esforço, encontram uma liderança relevante interessada e trazem resultados que compensam o esforço terão maior probabilidade de acontecer.
Eu costumo chamar esse processo de “funil das possibilidades”, uma metodologia para elencar os cenários futuros mais prováveis que é intuitiva, “orgânica” e coloca as influências ideológicas no seu devido lugar, como uma das etapas de avaliação do funil.
E, entre os cenários futuros mais prováveis, você pode escolher e incentivar aqueles que lhe parecem melhores, mais interessantes ou agradáveis, contribuindo para que, de fato, aconteçam, como protagonista do futuro.
Essa atitude, esse propósito, desconstrói o saudosismo pessimista e oferece um sentido maior para nossas ações.
O futuro não é mais como antigamente, mas pode ser como desejamos. ◼

*Flavio Ferrari é fundador do hub SocialData, professor de análise estratégica de cenários futuros na ESPM e autor do livro “O Sexto Poder – algoritmos, inteligências artificiais e reputação digital” (2025).





