Pioneira em Jornalismo em Quadrinhos, Revista Badaró aposta em independência territorial

De mudança para Curitiba, diretor da Revista Badaró detalha os planos para ampliar o alcance da publicação

Atualizado em 12/06/2026 às 11:06, por Alexandra Itacarambi.

Montagem com duas capas da Revista Badaró lado a lado. À esquerda, ilustração de Donald Trump em primeiro plano, com expressão séria, sobre fundo preto. O título em destaque diz: “O Sul Global na Mira”. À direita, capa colorida com o anúncio do “Salão Gráfico da Badaró”, apresentando um galo vermelho estilizado ao centro e informações sobre exposições, intervenções artísticas e batalha de desenho. Ambas as capas utilizam estética de quadrinhos e ilustração autoral, com cores vibrantes e forte contraste visual.

Arte da capa da Revista Badaró e divulgacão do Salão Gráfico da Badaró (Reprodução)


A partir de conteúdo original e linguagem da arte sequencial, o Jornalismo em Quadrinhos (JHQ) vem se expandindo pelo Brasil. O termo foi cunhado mundialmente pelo repórter e ilustrador maltês Joe Sacco, que publicou o livro “Palestina”, em 1994, considerado pioneiro no gênero.

Com sede em Campo Grande (MS), a Revista Badaró é considerada o primeiro veículo brasileiro a assumir o JHQ como seu carro-chefe, com o lançamento da primeira publicação digital no dia 11 de setembro de 2019. O formato noticioso ilustrado, contudo, já havia sido usado de forma avulsa, serial ou em seções, por diversos veículos jornalísticos brasileiros, mesmo antes do nome “oficial”. A revista Piauí (2006) é um exemplo reconhecido do uso da linguagem visual no jornalismo.

Norberto Liberator Neto, um dos fundadores e diretor responsável, conta que a ideia se fortaleceu a partir da sugestão da banca do seu trabalho de conclusão de curso, intitulado “Diásporados”. “Usei o TCC da Helô D'Ângelo e da Carol Ito como referências para o meu.” Diferente de gerações anteriores, as artistas contemporâneas Helô D'Ângelo, Carol Ito e, posteriormente, Gabriela Güllich, uniram a formação acadêmica em jornalismo com a ilustração para pautar o debate público por meio de reportagens visuais.

Em sua pesquisa acadêmica, Norberto cita duas referências do JHQ brasileiro. Alexandre De Maio é um dos pioneiros do gênero no Brasil. Com a Agência Pública, De Maio realizou a reportagem “Meninas em Jogo”, em 2014, onde denuncia o turismo de exploração sexual durante a Copa do Mundo. É autor do livro “Raul” (2018) e de diversas matérias em quadrinhos. 

Já Robson Vilalba é conhecido pelo livro-reportagem em quadrinhos “Notas de um tempo silenciado” (2015). Ele também desenvolveu reportagens para veículos como Le Monde Diplomatique, Folha de São Paulo, Plural e Gazeta do Povo. 

Recentemente, com a morte da iraniana Marjane Satrapi, outro ícone, o mundo relembrou sua olha-prima “Persépolis”, uma autobiografia em quadrinhos originalmente publicada em francês entre 2000 e 2003.


De batalha em batalha

A Revista Badaró surgiu do desejo coletivo de alunos da UFMS (Universidade Federal do Mato Grosso do Sul) de criar um veículo jornalístico combativo em defesa dos direitos humanos. Nasce com posicionamento político explícito “de esquerda, apartidário”. Dos quatro fundadores, dois eram ilustradores, Norberto e Fábio Faria (o Fabil). Norberto, inclusive, já havia feito dois anos e meio em artes visuais na mesma universidade.

Após três anos e meio em formato digital, a revista lançou edições experimentais em formato impresso, vendidas nas feiras de arte, que, segundo Norberto, são comuns na cidade. “Campo Grande tem muita feira de economia criativa. Desde culinária até, sei lá, venda de livro, pessoas que fazem retratos ilustrados ao vivo, caricaturas e o ‘caramba’. Tem de tudo. É muito forte essa cultura das feiras que ocorre sempre todos os meses. E, geralmente, a Badaró está presente nessas feiras.”

Até aí, a publicação independente segue o roteiro de outras épocas, vender seus exemplares jornalísticos onde o povo está. Mas os fundadores trouxeram também o repertório das artes gráficas e da cultura pop, e passaram a promover o Salão Gráfico da Badaró e a realizar as batalhas de desenhos em lugares como bares, reunindo o público jovem.

Explica que as batalhas são divididas por temas e os dois artistas convidados têm que desenhar o que vier na cabeça deles que estiver relacionado com aquele tema. “São três temas, dentro das nossas regras, e dez minutos para terminar de desenhar cada tema. Quem ganha duas rodadas é o vencedor. Então, as artes são exibidas ao público e a galera grita, faz barulho para cada uma. O que tiver mais barulho do público, por aclamação popular, é o vencedor, igual a uma batalha de rima.”

Conta que tiveram como inspiração, guardadas as devidas proporções, o Salão Visual da Bacánika, uma importante vitrine e concurso de arte e ilustração promovido pela Revista Bacánika na Colômbia. “É o maior evento gráfico da Colômbia. São muitos artistas, a galera se inscreve para participar e tal”. Por aqui, o mais antigo e conhecido é o Salão de Humor de Piracicaba.

A Badaró também faz parcerias com artistas latino-americanos, como a chilena Francisca Cárcamo Rojas (conhecida por Panchulei), que tem um fanzine chamado El Otro Archivo, e o argentino César Agite, que é cartunista, ilustrador e humorista gráfico, amplamente reconhecido por suas colaborações com a famosa publicação de sátira e jornalismo fictício Revista Barcelona. Os trabalhos em formato de tiras ou ilustrações são traduzidos para o site e as redes sociais da Badaró, principalmente para o Instagram.

 

De Campo Grande a Curitiba

Hoje, o projeto se concentra na figura do jornalista, ilustrador e microempreendedor Norberto Liberator, com a colaboração de freelancers. E ele está de mudança para a cidade brasileira considerada o polo para quadrinistas, Curitiba (PR). A cidade abriga a primeira gibiteca pública do mundo e a Bienal de Quadrinhos de Curitiba, além de outros atrativos do gênero. 

O projeto nasceu coletivo e colaborativo e teve a lógica da pandemia nos primeiros anos, com reuniões de pauta online, divisão de tarefas etc. Desde o princípio, o editorial mantém as pautas nacionais como prioridade. Já as pautas locais devem ter interesse nacional. “As pautas locais da Badaró, ligadas ao Mato Grosso do Sul, em grande maioria, são sobre os conflitos fundiários ou sobre povos indígenas.”

Este fato explica a independência territorial para o trabalho da Badaró. “A gente optou por essa abordagem de ser mais nacional, inclusive internacional, justamente por ser veículo cuja proposta é muito nova no Brasil", diz. 

Desde o início, nosso objetivo foi não apenas abordar o nacional, mas ser mais nacional também, ter público em todo o Brasil, não só no MS.

Norberto Liberator

Atualmente, a revista impressa tem tiragem de mil exemplares e é quase 100% em quadrinhos. Com o processo para pleitear o ISSN, a publicação passa a ser quadrimestral, com conteúdo exclusivo e original. “E por isso, ela passa a ter outro nome, que é Badaró Periódico. De certa forma, zerar, começar a partir daqui. O principal desafio é fazer da Badaró a minha principal fonte de renda”, projeta Norberto.

O modelo de negócio, segundo o fundador, fecha as contas, mas não é seu único sustento. Funciona com a plataforma “Apoia-se” para assinaturas. As vendas avulsas e novos leitores são conquistados em feiras e em bancas: duas em Campo Grande, uma em Curitiba e outra em São Paulo. Os eventos são mensais, como o Salão Gráfico e as batalhas, e têm como parceiros marcas independentes com apelo para o público mais jovem. Já o site conta com a publicidade digital da Assembleia Legislativa de MS, onde o veículo é cadastrado.

Houve muitos momentos em que fazia sentido desistir. No começo, a Badaró não tinha nenhum retorno financeiro, por exemplo, era algo mais voluntário, o que a gente fazia para passar o tempo também, porque estava durante uma pandemia.

Norberto Liberator

Segundo o jornalista, os ativos do seu projeto, que podem inspirar outros, são a junção da persistência, da originalidade e do diferencial. Atributos que o combativo Líbero Badaró tinha na sua vida e na produção intelectual. ◼

 

Ficha Técnica:

Nome da iniciativa jornalística (Grupo): Badaró

Nome do(s) veículo(s): Revista Badaró

Região/ Local: Campo Grande, MS/Curitiba, PR (a partir de 2026)

Data de origem: 11/09/2019

Nome do(s) fundador(es): Fábio Faria (Fabil), Mylena Fraiha, Leopoldo Neto, Norberto Liberator

Diretor responsável: Norberto Liberator

Editorias: Política, Cultura & Arte, Esporte, Gênero, Meio Ambiente, entre outras

Público principal: Jovens, consumidores de quadrinhos, pessoas com tendências progressistas

 

Questionário por email:

1. O projeto está ligado a alguma instituição, fundação ou organização? 

Não.

2. Qual é a história da origem do projeto?

Surgiu a partir da vontade de estudantes de Jornalismo da UFMS de fazer algo inovador.

3. O que é o projeto atualmente? Como você o descreve para quem não o conhece?

A Badaró é uma revista impressa e online voltada sobretudo para o jornalismo ilustrado, que explora os quadrinhos, colagens, desenho, design gráfico, colagens, fotojornalismo, vídeos e hibridismos entre linguagens.

4. Quais são os pilares básicos do projeto?

Jornalismo ilustrado; linha editorial politicamente posicionada à esquerda, mas independente de partidos e movimentos; participação ativa na agitação cultural com eventos próprios e presença em feiras.

5. Qual é o modelo de negócio atual?

Assinaturas a partir de financiamento coletivo; vendas de revistas físicas; parcerias.

6. Quais são os princípios e ferramentas que norteiam o trabalho jornalístico do projeto?

Princípios: defesa dos direitos humanos, do meio ambiente, da diversidade e do anti-imperialismo. Ferramentas: jornalismo inovador feito a partir de ilustrações, quadrinhos, colagens, design gráfico, fotorreportagens etc.

7. Qual é a particularidade desta iniciativa?

Primeiro veículo brasileiro voltado ao jornalismo em quadrinhos.

8. Como você descreve o público da sua região?

A Badaró tem seu próprio público e ele não se resume ao território de Mato Grosso do Sul, onde a revista nasceu. No principal meio em que o conteúdo do veículo é acessado, o Instagram, MS é apenas o terceiro estado com mais seguidores, atrás de São Paulo e Rio de Janeiro. Em número de assinantes, também não é o principal. O público da revista, independentemente do local, é geralmente formado por pessoas politicamente mais progressistas e/ou da área de comunicação ou criação.

9. Qual é o impacto que o projeto tem na região?

A Badaró é um dos poucos veículos de Mato Grosso do Sul que amplificam os conflitos fundiários ocorridos no estado, sobretudo em relação aos indígenas guarani-kaiowá. Além disso, está presente no fortalecimento de iniciativas culturais alternativas ao organizar eventos como o Salão Gráfico da Badaró, que prestigia e premia artistas independentes locais.

10. Quais são os exemplos de inovação do seu projeto?

Jornalismo em quadrinhos, matérias ilustradas, promoção de eventos etc.