Opinião: Crime ambiental na Bacia de Campos - a Chevron é a única culpada?
Tão pouco transparente como a enorme mancha de óleo que atingiu a Bacia de Campos, tem sido a Chevron, responsável por mais este lamentável crime ambiental em nosso país.
Empresas social e ambientalmente irresponsáveis não apenas cometem crimes, mas tentam escondê-los, o que, em tempo de redes sociais, com tantos olhares vigilantes sobre a indispensável sustentabilidade planetária, deve ser terminantemente repudiado.
O importante, neste caso, não é apenas acompanhar os desdobramentos deste acidente, que impacta dramaticamente a biodiversidade, mas avaliar a vulnerabilidade dos nossos sistemas de prevenção e fiscalização. Afinal de contas, uma empresa que, como acabamos de descobrir, não tem sequer um plano de contingência, pode ir furando milhares de metros por aí sem qualquer controle? Multas (irrisórias!) compensam o dano ambiental? O que dizer da Petrobras, que aparece como sócia da empresa (segundo matéria do Valor Econômico , publicada no dia 23/11/2011, p. A5, a estatal tem 30% e a Impex, empresa japonesa, 18,3% da sociedade)? Podem as empresas sócias lavar as mãos nesse caso? Não existiria uma co-responsabilidade, se não legal pelo menos moral, quando a inépcia, a negligência ou a incompetência técnica provocam crimes ambientais?
A impressão que fica é que, como temos uma estatal como sócia, haverá uma tendência de a ANP - Agência Nacional de Petróleo e do IBAMA serem mais generosos nas multas, o que confirmaria apenas o que de há muito vem ocorrendo por aqui: a maioria das multas por crimes ambientais nunca é paga. As autoridades fazem barulho, roncam grosso (jogam para a torcida), mas no fundo sabem que os recursos judiciais farão com que as empresas envolvidas nunca arquem efetivamente com os custos de sua irresponsabilidade. Convenhamos, assim é fácil, mas, com isso, privilegia-se a impunidade e, consequentemente, a chance de que os crimes sejam recorrentes, como temos assistido em nossa terra.
Com a aproximação da Rio + 20, fica claro que os desafios a enfrentar, na questão ambiental, são enormes e que, se não botarmos o dedo na ferida, não estancaremos o esgotamento da vida no planeta, maltratado sistematicamente por corporações gananciosas e por autoridades que, por sua displicência, se tornam cúmplices de tragédias como mais essa que nos atinge agora.
Está na hora de assumirmos uma posição vigorosa com respeito aos que insistem em afrontar a diversidade, emporcalhar o solo, ar e a água (agrotóxico é veneno e não remedinho pra planta), envenenar nossos pulmões, laringes, bocas, estômagos com suas drogas lícitas (como a indústria tabagista) e deitar óleo sem dó nos nossos oceanos, como fez recentemente a BP no Golfo do México e agora a Chevron na Bacia de Campos, exemplos reais dos riscos a que nos submetem os responsáveis pela aventura petrolífera em águas profundas.
Temos que agir com parcimônia em nosso entusiasmo, quando saudamos a redução episódica dos níveis de desmatamento em nosso País (eles declinam ou crescem dependendo do ano e até em função do agente que faz a medição) porque, como a floresta é finita, ela se esgotará a médio prazo, se continuarmos devastando anualmente um Estado de Sergipe.
A matança de indígenas no Centro-Oeste, a perseguição a líderes ambientalistas no Norte do País, a desorganização provocada em Altamira pela usina de Belo Monte (belo monte de porcaria!), o que é comum em todos os megaprojetos que avançam sobre os nossos biomas, a nossa cultura e sobre as comunidades tradicionais, precisam ter fim.
Felizmente, no caso do crime ambiental da Chevron, mesmo os jornalões, conservadores como são, não puderam fazer vistas grossas aos danos e à irresponsabilidade. O Estadão , em editorial publicado no dia 23/11/2011, reclamava: "torna-se imperativo dispor de um Plano de Contingência para casos de acidentes deste tipo, reclamado há 11 anos por ambientalistas".
Este crime ambiental teve seus desdobramentos exatamente no momento em que centenas de jornalistas e estudiosos se reuniam na PUC/RIO por ocasião do Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental. Um evento que se caracterizou pela presença expressiva de jovens, pela disposição em cerrar fileiras para mudar o cenário desfavorável que se avizinha, respaldada na convicção de que é necessário formar, informar, mobilizar, e denunciar, quando necessário, para que o planeta tenha ainda alguma chance diante de tantas e violentas agressões.
Este modelo de desenvolvimento, capitaneado por uma ideologia que privilegia o aumento do consumo e dá as costas ao impacto ao meio ambiente e à qualidade de vida, precisa ser freado urgentemente, mas isso passa obrigatoriamente por uma mudança de postura, por uma vontade política que esteja efetivamente comprometida com a sustentabilidade.
Os debates no Congresso de Jornalismo Ambiental deixaram claro que estamos postergando medidas urgentes e que é preciso agir rapidamente, transpondo o limite do mero discurso (como é a prática do marketing verde, sistematicamente utilizado por empresas, setores e governos predadores) para uma ação enérgica em prol da reconstrução de um ambiente saudável.
A Chevron protagonizou um crime ambiental condenável, mas ele é conseqüência de um modelo perverso que, apoiado na geração de lucros obscenos e imediatos para poucas empresas, põe em risco o futuro das novas gerações.
Estejamos todos dispostos, como pregava o mestre Paulo Freire, a praticar a pedagogia da indignação e que não nos calemos diante de tragédias presentes e anunciadas. Há muitas Chevrons por aí e é fundamental que possamos identificá-las, controlá-las, exigindo das autoridades uma punição exemplar. Será que teremos que esperar por uma catástrofe de proporções inimagináveis para que, finalmente, cheguemos à conclusão de que algo precisa ser feito?.
A Chevron tem culpa sim (e muita), mas é preciso coragem e auto-crítica para assumirmos que estes crimes continuam acontecendo pela nossa omissão, falta de coragem e incompetência . Queiramos ou não, este crime ambiental, em algum momento, teve a participação de todos nós. Vamos continuar lavando as mãos?






