A última canção da Rádio Eldorado

Enquanto os ouvintes elaboram o luto, a equipe segue trabalhando de forma digna até o dia 14, no 4° andar do prédio do Estadão

Atualizado em 30/04/2026 às 11:04, por Colunista.

Estúdio de rádio com iluminação em tons quentes. Ao fundo, uma parede decorada com diversos alto-falantes e um letreiro iluminado escrito “Eldorado FM 107.3”. Em primeiro plano, há uma mesa de transmissão com computadores, microfones articulados e cadeiras giratórias.

Estúdio da Rádio Eldorado (Arquivo Pessoal)

Pedro Venceslau*

O fim da Rádio Eldorado equivale à demolição de um patrimônio histórico que faz parte da memória afetiva de São Paulo. 

Enquanto os ouvintes elaboram o luto, a equipe segue trabalhando de forma digna no 4° andar do prédio do Estadão para colocar a programação no ar até o dia 14. Vai ter choro e abraços apertados, mas até lá a vida segue - combativa como sempre - nos estúdios e ilhas de edição.  

Depois disso, o dial 107,3, aquele dos melhores ouvintes, passa a ser ocupado pela Bandeirantes. 

Quando rebobino a fita da memória, encontro na Eldorado alguns dos momentos mais felizes da minha carreira. 

“Era a melhor parte do nosso trabalho”, me disse outro dia a querida amiga Beatriz Bulla, que foi minha companheira de bancada ao lado de Emanuel Bomfim e Leandro Cacossi no programa “Fim de Tarde”. A gente saía do turbilhão do fechamento do jornal e encontrava a paz naquele estúdio lindo com decoração vintage e analógica. 

Tinham vitrolas penduradas na parede e um painel com caixas de som atrás do locutor com o nome “Eldorado” escrito em neon.      
 
Colocados os fones de ouvido, começava a resenha sobre política. Sempre com tom leve, mas preciso e com muita (mas muita) independência editorial.
 

Acolhimento

Os ouvintes eram leais porque se sentiam acolhidos e contemplados pela curadoria musical sensível e sofisticada tocada por apresentadores carismáticos que entendem do riscado e amam claramente o que fazem.  

Guardo com especial carinho a memória do “Conexão”, um programa que a gente fazia num estúdio montado dentro da redação. Em São Paulo, ficavam eu, Emanuel, Silvia Araújo, Roberto Godoy, e de Brasília entrava o Marcelo Moraes e a Andreza Matais.  

Quando o programa acabou porque a turma se dispersou, o Mané me deu a notícia de que teria um boletim diário para chamar de meu, o “Pedro em Série”, que o Gustavo Lopes editava de forma brilhante. 

Também adorava fazer o Jornal Eldorado de manhã bem cedo com a Carolina Ercolin, o Haisem Abaki e a Eliane Cantanhêde. 

Recebi no zap um abaixo-assinado da Nina Vogel que pede ao Grupo Estado que desista dessa ideia de desistir da rádio.  

Tem também um protesto marcado para domingo. É pouco provável que surta efeito, mas a iniciativa mostra o tamanho do amor de São Paulo por essa instituição.

Pedro Venceslau

 
Já sinto saudade do “Minha Canção” com a Sarah Oliveira, do “Som a Pino” com a Roberta Martinelli e do “De Tudo um Pop” com o Igor Miller. Vocês são incríveis.◼

 

*Pedro Venceslau foi diretor de redação de IMPRENSA e, hoje, é analista da CNN Brasil.