O paradoxo da confiança no jornalismo
Oferecer o contexto completo é essencial para preservar a função democrática do jornalismo e sua credibilidade
Por Flavio Ferrari*
A campanha relançada pelo The Guardian em 2026 revive o clássico anúncio de 1986 “Points of View”. Sua mensagem central é: “só se vê o quadro completo quando se tem acesso a todos os ângulos”.
Vivemos um paradoxo evidente: a confiança em veículos específicos de notícia costuma ser razoavelmente alta entre quem os consome, enquanto a confiança na imprensa como instituição despencou nas últimas décadas.
Nos Estados Unidos, o Gallup acompanha a confiança na “mídia de massa” desde 1972. Naquele período, entre 68% e 72% dos americanos diziam ter “muita” ou “razoável” confiança em jornais, televisão e rádio. Em 2025, o índice caiu para apenas 28%.
No Brasil, o Reuters Institute Digital News Report mostra trajetória semelhante: em 2015, cerca de 62% dos brasileiros confiavam nas notícias na maior parte do tempo; em 2026, o número despencou para 36%, a menor marca da série.
Globalmente, a confiança nas notícias ficou em 37% no mesmo relatório de 2026, também o menor valor histórico.
O paradoxo aparece quando comparamos a confiança geral com a confiança em marcas específicas. Segundo o Reuters Institute (2026), a CNN Brasil lidera com 62% de confiança entre os entrevistados, seguida pela Globo com 55%. Ambos os números superam, em muito, a confiança geral de 36%. Nos Estados Unidos, o Pew Research Center documenta há anos o mesmo padrão.
Esse fenômeno tem raízes estruturais. Um dos gatilhos mais citados por analistas foi o fim da Fairness Doctrine nos Estados Unidos, em 1987. Sua extinção abriu espaço para o modelo jornalístico de TV a cabo 24 horas, com programas claramente posicionados por público ideológico. A Fox News, lançada em 1996, e depois a MSNBC, consolidaram o formato de jornalismo de opinião segmentado que também chegou ao Brasil.
Nas duas últimas décadas, outro fator potencializou o fenômeno: a adoção mais explícita de pautas culturais e identitárias por veículos jornalísticos tradicionais, particularmente a partir de 2010.
Estudos do Pew e experimentos acadêmicos mostram que a maioria dos consumidores politicamente engajados escolhe fontes alinhadas com suas crenças prévias. Apenas cerca de 20% buscam ativamente visões opostas com frequência. Quando o veículo reforça a identidade do público, seja por cobertura política tradicional ou por pautas culturais, a lealdade e o tempo de consumo aumentam, mas aprofunda-se a desconfiança em relação a tudo que vem “do outro lado”.
O paradoxo se estabelece: o modelo que maximiza engajamento e sobrevivência financeira de veículos individuais - posicionamento claro, segmentação de público, incorporação de agendas identitárias - é o mesmo que erode a confiança sistêmica no jornalismo.
Em uma camada adicional de complexidade, as inteligências artificiais conversacionais têm a imprensa como uma de suas principais fontes de treinamento e referência. Isso maximiza a responsabilidade da imprensa: se ela oferece visões fragmentadas ou excessivamente alinhadas a uma agenda cultural, as IAs tendem a reproduzir e potencializar esse viés.
A proposição do The Guardian é reforçada. Sem o “quadro completo”, o ecossistema informacional, agora também mediado por algoritmos, empobrece a compreensão pública da realidade.
Vale observar como o próprio The Guardian é percebido. Classificações independentes de viés, como as da Ad Fontes Media e AllSides, avaliam o veículo como tendo viés à esquerda. Essa percepção não invalida seu jornalismo investigativo, mas ilustra que não está imune ao fenômeno que o próprio anúncio critica.
O “quadro completo” defendido pelo Guardian em 1986 e relançado em 2026 é uma condição para que o jornalismo cumpra sua função democrática em uma sociedade polarizada. Sem ele, o paradoxo se aprofunda, a imprensa perde legitimidade e a população é submetida a recortes tendenciosos da realidade.
A demanda por jornalismo investigativo permanece alta. De acordo com o Reuters Institute Digital News Report 2026, 45% dos respondentes globais dizem preferir notícias de fontes “que não têm um ponto de vista particular”, uma declaração que, na prática, ainda não se traduz integralmente em comportamento.
Veículos que buscam conquistar a percepção de credibilidade geral (não apenas como viés de confirmação) apostam em transparência metodológica e separação clara entre fato e opinião, conscientes de sua responsabilidade e correndo o risco da percepção negativa dos polos até que a demanda se transforme em atitude. ◼

*Flavio Ferrari é fundador do hub SocialData, professor de análise estratégica de cenários futuros na ESPM e autor do livro “O Sexto Poder – algoritmos, inteligências artificiais e reputação digital” (2025)





