O jornalismo digital latino-americano é valente e precisa de fundos
Veronica Goyzueta analisa a eficiência do ecossistema dos veículos digitais da América Latina
Infográfico comparando a realidade financeira do jornalismo digital em diferentes partes do mundo
Por Veronica Goyzueta*
Escrevo este texto com o braço esquerdo quebrado por um tombo que levei há uns dias. É uma sensação estranha de limitação e, ao mesmo tempo, de descoberta. Quando perdemos a plena função de um membro, o corpo, resiliente, não se entrega; ele se adapta. O outro braço assume todas tarefas, o cérebro recalibra movimentos e desenvolve habilidades compensatórias que nos surpreendem. Penso nesta experiência pessoal como uma boa metáfora sobre o que acompanho no jornalismo latino-americano.
Desde a consolidação das big techs e das redes, jornalistas latino-americanos têm trabalhado com menos dinheiro, precarizados e com uma pressão política que busca fragilizar claramente a nossa profissão e, por extensão, a própria democracia. Mas, assim como um braço quebrado nos obriga a ser mais hábeis, a crise forçou o surgimento de um ecossistema vibrante na região de meios nativos digitais que tem feito um jornalismo valente e inovador.
Para termos uma dimensão disso, é interessante cruzar dados de organizações que têm mapeado o jornalismo digital pelo mundo. O Project Oasis Global, estudo liderado pela SembraMedia, organização que apoia empreendedores de meios digitais sobre sustentabilidade e inovação de organizações de jornalismo nativas digitais, catalogou mais de 3.000 veículos com esse perfil em 2024. Desse universo, mais de 1.000 organizações fazem jornalismo em espanhol, sendo 882 delas estão no continente americano. No Brasil, a Ajor (Associação de Jornalismo Digital), parceira do projeto, tem 150 veículos independentes afiliados. Quer dizer, praticamente um terço desse jornalismo independente global acontece na América Latina.
Quando se cruzam esses números com a realidade financeira de veículos da Europa e da América do Norte, temos mais uma revelação: o jornalismo latino-americano entrega muito mais com muito menos. Enquanto a receita anual média de um veículo digital na Europa gira em torno de US$ 650 mil e na América do Norte (EUA e Canadá) em US$ 602 mil, na América Latina esse valor cai drasticamente para cerca de US$ 160 mil, um quarto da média dos fundos para países considerados desenvolvidos. E a realidade é que mais de 50% dos nossos veículos digitais operam com menos de US$ 20 mil anuais.
Esses dados mostram que, apesar das limitações, os meios independentes latino-americanos aprenderam a ser extraordinariamente eficientes. Não se trata apenas de sobrevivência, mas de uma ocupação estratégica de espaços que a mídia tradicional abandonou. Esse volume de iniciativas independentes, operando com frações dos recursos globais, mostra uma energia empreendedora de resistência e de missão que, mesmo sob pressão, tem sido fundamental para denunciar e apontar problemas, e salvar o debate público.
Infelizmente, empreender no jornalismo latino-americano é como escrever com o braço quebrado todos os dias.
É lidar com ataques cibernéticos (que atingem 50% dos meios estudados), processos judiciais abusivos e ameaças físicas, além de todos os problemas já citados e os que não cabem aqui. Esses tombos e dificuldades não têm detido esse bom jornalismo, mesmo quando a democracia vem sendo atingida também em várias frentes, e mostram a urgência de mais receitas, vindas de filantropia e fundos internacionais, mas principalmente de políticas públicas que reconheçam o jornalismo como um bem público essencial para a democracia.
Entre os que resistem, o Portal IMPRENSA volta para contribuir com seu papel de pensar nos desafios do jornalismo e nos lembrar de onde viemos, ao cuidar do acervo de reportagens que produz desde 1987. Nesta nova fase, espero colaborar trazendo algumas histórias do nosso combativo jornalismo independente latino-americano e refletir sobre caminhos que fortaleçam nossos ossos de ofício. ◼

*Veronica Goyzueta é professora de jornalismo da ESPM e correspondente do jornal espanhol ABC. Trabalhou para os grupos Dow Jones, Financial Times e foi editora no Brasil da revista AméricaEconomia. Foi coordenadora do Amazon Rainforest Journalism Fund no Pulitzer Center e cofundadora do portal SUMAÚMA.





