O jornalismo assassinado

Ao sugerir que os atos dos agentes do ICE foram de caráter criminoso, jornalistas editorializam as matérias, antes dos casos irem a julgamento

Atualizado em 04/02/2026 às 11:02, por Lucio Mesquita.

Fotografia mostra uma parede de madeira ao ar livre, parcialmente coberta de neve no chão, com cartazes colados lado a lado. Os cartazes exibem retratos em preto e branco de duas pessoas, identificadas como Renee Nicole Good e Alex Pretti, acompanhados de textos em inglês que dizem “American Mom” e “ICU Nurse”, além da frase “Murdered by ICE” em letras vermelhas.

Cartazes com fotos de Renee Nicole Good e Alex Pretti são exibidos em via pública em Minneapolis (Reddit)


Por Lucio Mesquita

Numa reportagem recente do Jornal Nacional da Globo sobre a morte a tiros do enfermeiro Alex Pretti durante os protestos em Minneapolis contra as ações do ICE – o Immigration and Customs Enforcement –, a jornalista se referiu ao ‘assassinato’ de Renee Good, morta no dia 7 de janeiro, também por um membro do ICE. E, mais adiante, também usou o termo quando se referiu à morte de Pretti.

Acidentalmente ou não, ela não só já indiciou o agente, Jonathan Ross, como também o condenou sumariamente pela morte dolosa de Renee. Ou editorializou a reportagem ao sugerir que os atos do agente foram de caráter criminoso e não resultado de uma sequência de ações em que o agente teria disparado os tiros de forma justificável, como defendido pelo governo norte-americano.

Só para deixar claro – não sei se os tiros disparados por ele eram justificados ou não, mas, pelo menos teoricamente, existe uma investigação em curso e um eventual julgamento exatamente para determinar se ela foi morta de forma ‘justificável’ ou não.

O fato de ter morrido não se questiona, aparentemente como resultado dos disparos feitos pelo agente. E, enquanto a autópsia oficial não for concluída ou divulgada, até isso é presumido, mas não garantido (a família encomendou uma autópsia à parte que teria concluído que ela morreu quando um dos tiros atingiu a cabeça).

Não conheço em detalhe o manual de redação e de estilo da Rede Globo, mas, acredito, não deve dizer que qualquer morte violenta – a tiros, facada etc. – deva ser caracterizada como assassinato. Até mesmo porque, em sua cobertura das ações no Complexo do Alemão em outubro do ano passado, que deixaram pelo menos 121 mortos, os veículos da Globo usaram um tom mais que neutro, beirando o oficialista, para justificar os cadáveres na favela.

E se a posição editorial global é de que mortes causadas em confrontos entre forças de segurança e indivíduos (armados ou não) não são assassinatos, a morte de Renee Nicole Good também não pode ser.


Precisão

Mas o problema com a cobertura de atos violentos no Brasil é mais embaixo e já faz tempo, talvez alimentado pelos programas policiais que proliferaram pelas tevês nas últimas décadas.

Com o tempo, perdemos na linguagem jornalística os elementos de incertezas fundamentais para uma cobertura precisa.

Praticamente não vemos mais no nosso jornalismo palavras ou verbos como ‘alegar’, ‘suspeito’ ou ‘acusado’. Já condenamos os acusados mesmo antes de irem a julgamento; às vezes, antes mesmo de serem presos ou indiciados.

Talvez um bom exemplo a ser seguido seja o da Grã-Bretanha, onde a imprensa é muito mais cuidadosa com a cobertura de crimes por dois bons motivos.

O primeiro é o risco de ser acusada de prejudicar o julgamento ao parecer condenar ou mesmo inocentar o réu, com a séria possibilidade de juízes determinarem a prisão de editores que cometam o erro, especialmente se a cobertura for usada como argumento da defesa para anular o julgamento em curso, com custos emocionais e financeiros significantes.

O segundo é o risco de processos por difamação, caso o acusado seja inocentado.

Em 2010, Christopher Jefferies, um professor aposentado da cidade de Bristol, foi preso pela polícia local sob suspeita de ter matado a inquilina, Joanna Yates. Talvez por ser um pouco excêntrico e pelo interesse popular, vários jornais, especialmente os tabloides, fizeram a festa, abandonando as formalidades e cautelas que geralmente se aplicam em casos de prisão de suspeitos, praticamente considerando Jefferies o culpado.

No final, ficou claro que ele não tinha nada com o crime – foi o namorado dela, Vincent Tabak, que a matou e foi eventualmente condenado por seu assassinato. Mas Jefferies não perdoou: processou todos os jornais que passaram do limite legal e foi indenizado pela destruição de sua reputação, por meio de acordos ou vitória na justiça.

O assunto me lembra do Fernando Vieira de Mello quando era meu editor-chefe na Rádio Jovem Pan. Obcecado por precisão quando dávamos notícias envolvendo muitas mortes, uma vez gritou na redação, ao exigir que os repórteres confirmassem o número exato de vítimas durante a cobertura de um acidente: ‘Não sou Jesus Cristo... não sou capaz de ressuscitar ninguém’.

Realmente, não somos Jesus Cristo, assim como não somos policiais, advogados e juízes, daí a necessidade de tomarmos cuidado com a cobertura de mortes violentas ou (supostos) crimes. E deixarmos o julgamento para onde ele deve ficar: na justiça.
 

*Lucio Mesquita é jornalista, reside na Inglaterra há mais de 25 anos, onde exerceu cargos de liderança na BBC. É executivo de empresas de comunicação e editor de jornalismo. Atualmente é consultor da Innovation Media e editor do Portal IMPRENSA.