Muitos Pesos, Nenhuma Medida
Ao comparar dados econômicos entre Argentina e Brasil, Folha de S.Paulo descuida dos ‘detalhes’ nos gráficos
Manchete da Folha de S.Paulo no dia 29 de julho e infográfico (Reprodução)
Logo depois das grosserias (normais) do presidente argentino, Javier Milei, durante a convecção que escolheu Flávio Bolsonaro como candidato à Presidência pelo PL, e como era de se esperar, a imprensa repercutiu o que foi dito e explorou as relações e comparações entre os dois países.
No dia 29 de julho, a Folha de S. Paulo fez matéria comparando as duas economias através de critérios como inflação, dívida pública e crescimento (ou retração) do PIB, com direito a vários gráficos para ajudar o leitor a visualizar o desempenho das duas maiores economias da América do Sul.
Até aqui, nada extraordinário.
Mas palavras e gráficos, especialmente em tempos de polarização e em plena campanha política, merecem mais atenção do que a Folha parece ter prestado à matéria.
Primeiro, os pontos positivos: a tentativa de comparar as duas economias foi uma boa ideia e, em geral, a matéria cumpre seu objetivo.
E também realça algumas dificuldades para a comparação devido a metodologias diferentes, como a medida da inflação (antes do governo Milei, os dados de inflação na Argentina eram tão questionáveis que publicações como a The Economist pararam de usá-los).
Mas, como dizem, o problema está nos detalhes – e como a informação foi dada, especialmente pelos gráficos.
Se o objetivo principal da matéria era comparar as duas economias, uma exigência básica seria usar gráficos que realmente demonstrassem visualmente as diferenças de forma precisa. Mas não foi o que aconteceu.
Peguemos o exemplo da inflação.
Segundo o gráfico usado pela Folha, a inflação de 10,10% do Brasil em 2022 parece maior do que a de 94,80% da Argentina no mesmo ano. E a de 4,3% em 2025 também é visualmente representada como mais do que o dobro da barra usada para refletir os 31,5% do vizinho.

Crédito: Folha de S.Paulo
Nos gráficos sobre a variação do PIB dos dois países, a mesma confusão visual é repetida.
No caso, o crescimento do PIB brasileiro de 3% em 2022 parece maior do que os 5,30% da Argentina no mesmo ano, enquanto a queda do PIB argentino em 2024 – de 1,7% – é visualmente representado por menos da metade do bloco dedicado ao crescimento do PIB do Brasil no mesmo ano, de 3,4%. (Matemática simples: 3,4 equivale ao dobro de 1,7...)
E para quem possa logo imaginar uma campanha da Folha contra o governo Lula, vale ressaltar que, no mesmo gráfico, o crescimento de 4,4% da Argentina em 2025 é representado visualmente como idêntico ao do Brasil, de 2,3%.

Crédito: Folha de S.Paulo
Tamanho e significado importam
Logo que comecei a trabalhar em Londres em 1991, passei a ser frequentador da livraria da London School of Economics, do outro lado da então sede do Serviço Mundial da BBC.
Uns anos depois, lá encontrei uma publicação simples, mas genial, da The Economist, o Numbers Guide – The Essentials of Business Numeracy, que ainda tenho e uso.
Um dos capítulos que mais me chamou atenção na época foi o que fala de gráficos, e como podem ser usados tanto para informar como para enganar. E a The Economist usa quatro exemplos de gráficos que podem contar a mesma história – no caso, uma comparação de renda entre gerentes e faxineiras –, mas com resultados visuais completamente diferentes.

“Quatro formas de olhar a remuneração” (tradução livre) Crédito: Numbers Guide – The Essentials of Business Numeracy
No exemplo do livro da The Economist, todos os gráficos são factualmente corretos, mas suas representações visuais parecem contar uma história diferente.
E a escolha das palavras também são importantes.
Na mesma matéria, a Folha diz que ‘o PIB brasileiro sob Lula cresceu 5,6% de 2023 a 2025, segundo o Banco Mundial. Com Milei, o PIB da Argentina avançou 4,37% de 2024 a 2025’. (Itálicos meus.)
Aqui culpo o que enfiaram em nossas cabeças desde os primeiros dias de escola, dizendo que repetição de verbos ou palavras deixa o texto ruim e que devemos sempre buscar sinônimos.
O problema é a equivalência, especialmente no jornalismo.
Crescer e avançar podem até ter definições semelhantes, mas claramente têm pesos diferentes em nossas cabeças: crescer parece, digamos, menor do que avançar. E, no caso específico da matéria, o uso dos dois verbos fica ainda mais incoerente porque o PIB que aumentou mais – o do Brasil – ‘apenas’ cresceu, enquanto o menor, da Argentina, avançou.
Um uso bom, coerente e visualmente preciso de gráficos faz matérias complexas ficarem muito mais fáceis de entender. E o bom uso das palavras é uma necessidade essencial do nosso trabalho.
Em época de eleição, ainda mais em tempos de fake news e distorção da informação nas rede sociais, o rigor tanto em relação à informação quanto a como ela é apresentada é ainda mais importante.◼

*Lucio Mesquita é jornalista, reside na Inglaterra há mais de 25 anos, onde exerceu cargos de liderança na BBC. É executivo de empresas de comunicação e editor de jornalismo. Atualmente é consultor da Innovation Media e editor do Portal IMPRENSA.





