Modelo de negócio da Marco Zero Conteúdo se pauta pela independência editorial no território
A iniciativa jornalística de Pernambuco compartilha seu aprendizado nos dez anos de atuação e foca em nova estratégia
Sérgio Miguel Buarque e Inês Campelo no Congresso do Gife em Fortaleza (Divulgação)
Com dez anos completos de caminhada, a Marco Zero Conteúdo, iniciativa jornalística de sete experientes jornalistas de Recife, está recalibrando seu modelo de negócio para se ajustar aos desafios de captação de recursos. As verbas filantrópicas estão mais disputadas e o cenário internacional já não é mais o mesmo.
Dos fundadores, apenas três permanecem no dia a dia: Sérgio Miguel Buarque, Inês Campelo e Inácio França. Já a jornalista Carol Monteiro participa pontualmente em projetos especiais. Atualmente, a equipe conta com 10 profissionais.
Com pautas de interesse público a partir do Nordeste, que abrangem temas sobre diversidade e direitos humanos, socioambientais e urbanos, a iniciativa extrapola o alcance local e virou referência de jornalismo independente nacional.
A Marco Zero Conteúdo se organizou desde o começo como uma associação privada sem fins lucrativos. “Tomamos uma decisão, que não era a mais fácil, mas que impactou bastante e ainda impacta muito, tanto no modelo do negócio como no nosso jornalismo, de não aceitar publicidade, dinheiro de governo e de empresas públicas. Era uma forma de garantir a independência”, conta Sérgio Buarque.
O poder econômico tinha uma influência muito grande no editorial local, explica. No caso do Recife, especificamente, que é uma capital antiga, com uma área pequena e verticalizada, os principais problemas ainda são a especulação imobiliária, a disputa pelo território, as questões urbanas e a mobilidade. Os fundadores sentiam que não podiam questionar os problemas centrais da cidade, porque os principais patrocinadores do jornalismo tradicional, eram justamente o mercado imobiliário e automotivo. “E o principal financiador era o governo e a prefeitura, então a gente não podia aprofundar o debate sobre política e economia, nem sobre as questões da cidade.”
Desta forma, o ponto de partida era ter essa independência territorial. “A gente também via que isso era uma forma de se posicionar, mostrar uma coisa nova, mostrar que somos diferentes. Ao não aceitar (patrocínio), isso também ajuda muito a narrativa no manifesto de lançamento da Marco Zero. Não é um dogma, mas sim uma transparência.”
Nesse período, o grande desafio, segundo Buarque, foi desenvolver um modelo de negócio sustentável diferente do que normalmente é praticado pelo jornalismo. Foram aprendendo como as ONGs se financiam e adotaram essa postura de fazer projetos, disputar editais e buscar financiamento institucional com organismos internacionais e fundações.
“O aprendizado se mostrando, a gente percebeu que precisava investir também em governança, em gestão, para que pudéssemos nos estruturar”, diz Buarque. Não bastava ter só uma contabilidade bem feita, era preciso a gestão de recursos, das pessoas, do patrimônio. Tudo isso em conformidade com o nível de exigência que os organismos internacionais exigiam.
Em 2017, investiram em auditoria e consultorias de desenvolvimento institucional, de captação de recursos, de redes sociais, mas também em segurança tanto dos jornalistas quanto contra os ataques em redes sociais.
A parte do jornalismo a gente tinha experiência, mas não tínhamos formação e nenhuma experiência de como tocar o negócio.
À medida que a captação de recursos foi aumentando, as exigências também cresceram. “Nesses dez anos, foi praticamente essa construção do jornalismo editorial, mas grande parte também de gestão e governança.”
Entrevista
Leia a seguir a entrevista com Sérgio Miguel Buarque, diretor executivo da Marco Zero Conteúdo, em que conta os preparativos para os próximos cinco anos e os seus conselhos para novas iniciativas.
Como você explica o projeto para quem não conhece a Marco Zero? O que é a Marco Zero Conteúdo hoje?
Sérgio Buarque - Somos uma organização de jornalismo independente com a missão de qualificar o debate público, produzindo reportagens de interesse público. A gente tem agora quatro eixos editoriais, definidos na última reforma editorial, são eles: direitos humanos, direito à cidade, socioambiental e diversidade. Claro, essas coisas acabam sempre se misturando, mas é mais uma forma até de organizar isso no site. A gente busca, principalmente, dar visibilidade aos assuntos que não são abordados pela mídia tradicional.
Nessa transformação editorial, a gente também está sempre preocupado em como distribuir nosso conteúdo e investe em SEO e consultoria. Embora a gente tenha ferramentas para medir audiência, quando estamos fazendo a matéria, a audiência não é o nosso objetivo. E isso faz parte também da nossa narrativa, quando vamos buscar recursos.
Nosso discurso é pautado pela necessidade de produzir conteúdo de interesse público sobre esses temas importantes para a sociedade, e que não são abordados na mídia tradicional, porque ferem interesses econômicos ou políticos. Como a gente não recebe dinheiro por isso, então precisamos de ajuda. Ou são assuntos que não trazem grande audiência, e que os veículos de comunicação, que dependem de audiência para se financiar, não cobrem, porque são temas ásperos e espinhosos.
Dentro desses quatro eixos, a missão é dar visibilidade aos temas e ter as pessoas como centro. O que isso impacta na vida das pessoas? A gente sempre procura fazer as reportagens do ponto de vista das pessoas que estão ali.
Vocês optaram por começar como uma ONG, entidade privada sem fins lucrativos. Quais são os benefícios desse posicionamento?
No começo, a gente só pensava no jornalismo, só depois que fomos ver o modelo de negócio. Fizemos um estudo de mercado e vimos algumas experiências no mundo do jornalismo. A gente achava na época, e eu continuo achando, que para o tipo de jornalismo que queríamos fazer, a opção por uma organização sem fins de lucro, seria mais difícil no início. Mas, ao optar por não receber patrocínios, e isso era uma decisão que a gente já tinha tomado, o fato de usar este modelo abre caminho para buscar recursos dessas organizações de filantropia. Então, essa era a primeira grande vantagem.
Contudo, existem uma série de desvantagens do ponto de vista de quem está à frente do negócio, têm certas limitações. Por exemplo, nós, do conselho diretor, não podemos receber salário. Se sobrar dinheiro no fim do ano fiscal, o dinheiro tem que ser todo reinvestido.
Desde 2017, os fundadores e as pessoas do Conselho podem trabalhar nos projetos de forma remunerada, sempre dentro da sua formação, capacidade profissional e com uma remuneração de mercado.
Temos uma série de obrigações legais por sermos uma ONG, como publicar o balanço, não podemos vender o patrimônio - está no nosso Estatuto, temos que doar todo nosso patrimônio para uma outra organização de jornalismo que tenha os mesmos objetivos da Marco Zero - entre outros deveres.
Existem algumas vantagens do ponto de vista fiscal, como isenção do imposto de renda e impostos federais.
Então, foi uma decisão pensada, principalmente, nessa forma de buscar recursos nos organismos internacionais e também encaixava nessa narrativa de fazer jornalismo com independência.
Neste novo planejamento estratégico para os próximos cinco anos, o objetivo é desenvolver novas formas de buscar recursos, além da filantropia e que não seja publicidade. Vamos tentar desenvolver produtos editoriais que possam gerar recursos.
Hoje, existem cada vez mais ONGs e o dinheiro da filantropia está diminuindo. A gente ainda não sabe como, mas estamos vendo exemplos de algumas organizações que têm conseguido novos recursos. Talvez investir em produtos tecnológicos que fiquem no escopo do jornalismo e tal. É esse o desafio para os próximos anos, a sustentabilidade do negócio.
Vocês sentiram que teve alguma mudança em termos de filantropia, por conta da política do Trump nos EUA?
Primeiro, teve um impacto, que é um impacto mais lento, com a vitória do Lula. Porque a filantropia internacional, como a Oak Foundation, mudou o foco para lugares onde a situação está mais crítica do que no Brasil.
No caso da vitória de Trump, quando ele corta os recursos, a gente tinha um financiamento de um fundo internacional para mídia de interesse público (Ifpim). É um fundo novo e grande, mas o maior recurso vem dos Estados Unidos. Oito organizações do mundo foram escolhidas. E nós fomos uma delas. Esse programa-piloto acabou no ano passado e eles ainda não lançaram outro.
O projeto estava dentro da nossa missão, o outro eixo, que era formatar esse modelo de uma rede de jornalismo independente do Nordeste. Captar recursos nesse nosso modelo atual é difícil no jornalismo, e muito mais difícil para uma redação do Nordeste. Todos esses fundos estão concentrados em São Paulo e Rio de Janeiro.
Conseguimos captar recursos para a Rede Nordeste, dentro do programa do Ifpim, e durante esses dois anos, a única fonte de recurso que eles tinham era através da Marco Zero, porque a gente fazia uma transferência de recursos.
Existe um discurso de combater a desigualdade muito focado em gênero e nas questões de raça, mas existe também uma desigualdade geográfica, que às vezes passa despercebida. E é a que mais está precisando de recursos.
Como você descreve o público da Marco Zero?
Varia muito. Esse público é muito difuso. Nossa audiência é muito de novos leitores. E depende das reportagens e de como elas viralizam. Por exemplo, fizemos uma reportagem sobre os cachês do carnaval em Olinda. As premiações tradicionalíssimas que são centenárias - Elefante de Olinda, Pitombeira - receberam muito pouco da prefeitura, e algumas bandas, que mal sabem tocar um instrumento, receberam R$ 250 mil.
Isso viralizou e foi para um público amplo, porque as pessoas começaram a colocar nas suas redes sociais. Aí você faz uma matéria socioambiental, vai para outro público totalmente diferente.
Mas, do ponto de vista geográfico, a Marco Zero acaba primeiro impactando o público local e depois o regional?
Também muda muito. Por exemplo, temos mais audiência em São Paulo do que em Salvador ou Fortaleza. Às vezes, tem mais audiência, dependendo da reportagem, em São Paulo do que no próprio Recife. Basta que um influenciador lá de São Paulo republique uma matéria e aquilo se espalha.
Temos esse núcleo mais duro de audiência que são aquelas pessoas que contribuem financeiramente. É um público local. Digamos assim, são formadores de opinião, pessoal da universidade, da sociedade civil organizada, com interesse em temas relacionados aos direitos humanos, ambientais e urbanos.
Esse é o núcleo duro do nosso público, mas não representa muito do ponto de vista quantitativo.
Vocês fazem relatório de impacto. Como você descreve esse impacto na região?
É difícil de mensurar. Isso é uma discussão que a gente está tentando inclusive aprimorar. Medimos bem o impacto sobre a audiência, porque hoje temos ferramentas que fazem isso. Mas existe um impacto que a gente faz na vida das pessoas, esse é mais difícil. E estamos tentando desenvolver formas de como medir, até para mostrar aos nossos financiadores.
Por exemplo, as pessoas da Marco Zero dão entrevistas para estudantes que fazem TCC. Tem muito TCC sobre a Marco Zero, várias dissertações de mestrado, de doutorado de diversas localidades e isso é uma forma de impacto.
Quais são os exemplos de inovação do seu projeto?
De certa forma, a maneira como a gente se organiza é inovadora. Temos ali um híbrido de uma dinâmica de uma redação com a de uma ONG. São tempos muito diferentes. Com os financiadores de filantropia, a gente leva nove meses para um financiamento. Você manda um e-mail e leva duas semanas para receber a resposta. O tempo do jornalismo é outro. Então, você tem que acomodar essas duas coisas. Geralmente, inovação é uma coisa que tem a ver com a tecnologia. E aqui tem a ver com processos, com maneiras de fazer as coisas.
A gente já teve alguns projetos pontuais de inovação tecnológica. Conseguimos um financiamento de um edital para fazer um aplicativo, o Lume App, para melhorar a acessibilidade de pessoas cegas e com baixa visão, com essa rede de jornalismo de oito organizações do Nordeste.
Também desenvolvemos um projeto de geolocalização para contar a história da ocupação holandesa no Recife. É um projeto em áudio que está em inglês, português e holandês, feito com inteligência artificial e geolocalização. A gente tem projetos pontuais, mas queremos investir mais em inovação tecnológica, como uma forma de criar produtos editoriais que possam atrair recursos e escalar.
Se você fosse dar um conselho para jornalistas que estão iniciando um projeto na sua região, o que você diria?
Uma coisa importante antes de começar é pesquisar, estudar o que está acontecendo no mundo e ver outros exemplos. Outra coisa que a gente sempre está discutindo com as organizações, em consultoria, é: busque sempre que possível fazer projetos coletivos. A chance de dar certo, quando você faz coletivamente, é muito maior do que quando você faz uma coisa individual. É mais trabalhoso, mas, em geral, resulta em algo com qualidade.
O que a gente aprendeu é que não é só jornalismo. Se, nesse coletivo, você puder ter pessoas de outras áreas que agreguem experiência de gestão, de organização empresarial, ou mesmo na área jurídica ou tecnológica, a chance de isso dar certo, de você encurtar o caminho até conseguir ter sustentabilidade, é maior. Faça as coisas com transparência, seguindo a ética jornalística, com conteúdo de interesse público, porque com o tempo a gente vai vendo que esse passa a ser o maior capital, quando vai buscar recursos.
A forma de fazer a gestão do dinheiro é importante. Pegou um dinheiro, preste conta corretamente. A transparência de como você gastou é fundamental. Então, essas preocupações a gente não tinha no começo, queríamos fazer a melhor reportagem possível.
E diria para trabalhar em rede. A lógica da minha geração, que trabalha em redação tradicional, é de que todos são concorrentes. O outro veículo é seu concorrente. Dentro deste ecossistema do jornalismo independente, que a gente está criando e fortalecendo, é de um parceiro que você soma esforços para impactar mais pessoas. ◼
Ficha Técnica:
Nome da iniciativa jornalística (Grupo): Centro de Estudo da Mídia Marco Zero Conteúdo
Nome do(s) veículo(s): Marco Zero Conteúdo
Local/Região: Recife/Pernambuco
Data de origem: dia 16 de junho de 2015
Nome do(s) fundador(es): Carol Monteiro, Inácio França, Inês Campelo, Laércio Portela, Luiz Carlos Pinto, Samarone Lima e Sérgio Miguel Buarque
Diretor(es) responsável(is): Sérgio Miguel Buarque – Presidente, Inácio França – Vice-Presidente, Inês Campelo – Diretora Administrativo/Financeiro
Editorias: Direitos humanos, direito à cidade, socioambiental e diversidade
Público principal: Núcleo local de formadores de opinião
Instagram: @marcozeroconteudo
Site: https://marcozero.org/





