Lutos e lutas no jornalismo
Lucas Mendes explica a estratégia americana para sufocar a mídia
Sede da CBS Brodcaster Center em Nova York (Reprodução Street View)
Por Lucas Mendes
Duas baixas e muitas ameaças ao jornalismo neste mês de maio. A baixa é o fim da rede de rádio CBS aos 99 anos. Nasceu na década de 20 e deu um impulso no jornalismo com coberturas internacionais, boletins diários durante a Depressão e a Segunda Guerra.
O correspondente Edward R. Murrow narrava ao vivo os bombardeios de cima dos telhados com um microfone especial para transmissões em ondas curtas. Tecnologia em ação. Cortesia de outra fonte essencial na história do jornalismo, a BBC. A assinatura dele era “This is London”. Bombas caindo, uma revolução. Bum bum bum, os americanos se sentiam no front. E sem perigo.
A outra baixa foi a morte de Ted Turner, que não era jornalista e revolucionou o jornalismo com a criação da CNN em 1980 e 24 horas de notícias por dia. Quem queria notícias o dia inteiro? Num país com quatro fusos horários, milhões queriam.
A influência dele pesou em várias frentes, além da política. Entendeu o perigo da poluição no ar, criou áreas de preservação imensas e fez a maior doação da história da United Nations, 1 bilhão de dólares. Sobre a questão nuclear, era contra as armas. Dizia: ou todos têm a bomba ou nenhum tem.
Eliminar o inimigo
A outra baixa na rede CBS não foi por morte, mas por pressão do presidente. O humorista e apresentador Stephen Colbert saiu do ar porque o humor dele virava notícia no dia seguinte. Agora Trump quer derrubar Jimmy Kimmel da rede ABC, que também dá mais audiência que muitos jornais de rede.
Eliminar Colbert não foi fácil, mas não foi suficiente. Quer controlar as notícias favorecendo amigos. CBS já está sob controle. A CNN ainda não. Pertence à Warner Bros. Discovery, está na mira da Paramount Global/Skydance Media, que pertence a um amigo de Trump e fez uma oferta monumental de 110 bilhões de dólares.
Esta guerra, Trump está ganhando não por falta de denúncias e resistência. Quatro dos Prêmios Pulitzer deste ano, sendo dois do The New York Times, um do The Washington Post e outro da Reuters, estão ligados à corrupção e abusos do Trump. Um quinto, citação especial, foi para a veterana Julie K. Brown pelo trabalho que revelou os abusos de Jeffrey Epstein, ajudou a reabrir o processo contra ele e trazer o pepino que Trump tenta esconder.
Trump optou pela corrupção aberta junto com os filhos e o genro e, com apoio do partido, avança usando a fórmula de Vladimir Putin e Viktor Orbán - neutralizar adversários em três etapas:
1 - o Judiciário, 2 - a imprensa, 3 - o sistema eleitoral.
Litígio de mídia por difamação
O Judiciário já está sob controle. Nas mídias, os bilionários amigos compram as fontes de notícias e ele persegue jornalistas e jornais com dezenas de processos de difamação e o que aqui se chama de “media litigation”, diferentes acusações que envolvem grandes escritórios de advocacia.
No mercado jurídico americano, um caso simples pode custar de 200 mil a 1 milhão de dólares. Se virar assunto nacional, pode passar de 2 milhões e chegar a mais de 10 milhões. Trump perdeu todos, mas o processo em si já é o castigo e muitas empresas pagam sem esperar a decisão final. O maior deles acusa o The New York Times de difamação, inclui o livro Lucky Loser e exige 15 bilhões de dólares. Uma contagem do The New York Times diz que mais de 660 processos foram movidos contra jornalistas e mídias desde setembro. A organização jurídica Lawfare contabiliza entre 300 e 600 ações contra o governo Trump. ◼

*Lucas Mendes é jornalista, fundador e apresentador do programa Manhattan Connection, criado em 1993. Em 2015, foi agraciado com o Prêmio Maria Moors Cabot, o mais antigo prêmio internacional de jornalismo dos Estados Unidos.
Lucas escreveu a coluna “Manhattan” para a revista IMPRENSA de 1991 a 1994.





