Lutando pela precisão
Com exemplos históricos e atuais, Lucio Mesquita chama atenção para palavras e cuidados necessários na cobertura de guerra
Ilustração gerada por inteligência artificial
Por Lucio Mesquita
Como estamos no meio de uma nova guerra – desta vez iniciada com os ataques dos EUA e de Israel contra o Irã e o Líbano – atenção para a precisão e a verdade tem que ser redobrada, ainda mais em tempos de redes sociais e fake news turbinadas por inteligência artificial.
Há poucos dias, numa sessão sobre cobertura de guerra com membros de uma redação com quem tenho trabalhado no Oriente Médio, conversamos sobre alguns princípios de cobertura fundamentais para guerras.
Começando por atribuição
Já vi muitos exemplos na mídia brasileira e em outras partes do mundo em que a atribuição é destruída pelos mísseis da simplificação do texto.
A não ser que a redação possa ter conseguido confirmar a informação, não se pode dizer, sem atribuição, que alvo A destruído por país B era usado para isso ou aquilo. Se não tem como confirmar ou substanciar a afirmação, é melhor deixar claro quem disse o que e como.
Em certos casos, vale também deixar claro que não foi possível confirmar a declaração de forma independente. Ou achar formas criativas de contar o que está acontecendo mesmo quando sob censura.
Na Guerra das Malvinas, um repórter da BBC a bordo de um porta-aviões britânico não tinha permissão para dizer quantos caças tinham saído para uma missão contra a Argentina.
Além de deixar claro que não podia reportar livremente, ele achou uma forma criativa de pelo menos explicar que não tinha havido perdas, arrematando que tinha contado todos na ida e contado todos novamente na volta.
Lacunas
Toda guerra tem lacunas de informação, especialmente quando a comunicação é assimétrica. No caso, temos atualizações constantes por parte dos EUA e Israel, mas quase nada do Irã. Por isso é ainda mais importante compartilhar com a audiência o que sabemos, mas também o que não se sabe. E o que se pode dizer e, se for o caso, o que esteja sendo censurado.
E, na cola, vem o que já era importante, mas agora é fundamental: a checagem de fatos e o combate às fake news.
Notícia falsa em conflitos não é nada novo. A Alemanha nazista criou emissoras de rádio na Segunda Guerra Mundial cujos princípios continuam formando a base de emissoras e sites de propaganda no mundo todo até hoje.
No seu ótimo “Corações Sujos”, Fernando de Moraes também conta como membros da comunidade japonesa que rejeitavam a derrota na Segunda Guerra adulteraram imagens do rendimento para afirmar que os perdedores tinham sido os aliados.
Mas, no mundo digital, isso é pior ainda: as notícias falsas se espalham mais rapidamente e em maior quantidade, especialmente com a chegada da inteligência artificial.
Para completar, temos que evitar cair nas narrativas das diversas partes interessadas, onde cada palavra, cada termo pode ter um peso. O risco é de acidentalmente (ou mesmo de propósito) editorializar o texto.
Um dos canais de televisão aqui na Inglaterra descreveu Pete Hegseth como o Secretário de Guerra dos Estados Unidos, assim como alguns meios de comunicação no Brasil.
Os apoiadores de tudo que Trump diz ou faz devem adorar, mas a descrição está incorreta.
Sim, ele e Trump anunciaram o novo nome do Departamento de Defesa há poucos meses, com direito a novo brasão e rebranding no site, mas ele não passa de um nome de fantasia porque, sem mudança da lei que estabeleceu o ministério, o nome não pode ser mudado.
Por isso mesmo, a maioria meios de comunicação, mesmo nos EUA, continua usando Departamento de Defesa e Secretário de Defesa para descrever o ministério e seu dirigente.
A diferenciação é importante, não porque significa um ministério mais ou menos agressivo, mas porque, no jornalismo, atenção para o pequeno detalhe pode fazer uma grande diferença.
Um colega uma vez disse que a diferença entre um vídeo profissional e amador pode estar em apenas num segundo.
A diferença entre um jornalismo rigoroso ou preguiçoso, especialmente em tempos de guerra, poder estar em uma só palavra.
Precisamos escolhê-las com cautela. ◼

*Lucio Mesquita é jornalista, reside na Inglaterra há mais de 25 anos, onde exerceu cargos de liderança na BBC. É executivo de empresas de comunicação e editor de jornalismo. Atualmente é consultor da Innovation Media e editor do Portal IMPRENSA.





