Jornalismo local sofre excesso de pautas e a falta de filtro editorial

Em entrevista, Ívila Bessa de Holanda, gerente de jornalismo do Sistema Verdes Mares, no Ceará, reflete sobre os limites e desafios do jornalismo digital

Atualizado em 31/03/2026 às 19:03, por Alexandra Itacarambi.

Mulher sorridente, com cabelo escuro na altura dos ombros, está em pé em um escritório moderno. Ela veste uma blusa clara e mantém os braços cruzados, transmitindo confiança. Ao fundo, há mesas, computadores e iluminação suave, com o ambiente desfocado.

Ívila Bessa de Holanda, gerente de jornalismo do Diário do Nordeste, Verdinha e TV Diário, pertencentes ao SVM  (Divulgação)


Com forte identidade local, o jornalismo do Sistema Verdes Mares (SVM), com sede em Fortaleza, chega em 2026 com uma cobertura atuando em até seis plataformas simultâneas em tempo real. Uma tremenda vantagem competitiva que deixa qualquer veículo nativo digital para trás.

Se, por um lado, os nativos digitais não têm tanto alcance e estrutura, por outro, possuem a facilidade de mudar rapidamente de rota, de se ajustarem às constantes mudanças de regras das big techs. “Uma startup digital, que já nasce com esse core, já não chega com alguns pesos e algumas amarras que os veículos tradicionais possuem”, observa Ívila Bessa de Holanda, gerente de jornalismo do Diário do Nordeste, Verdinha e TV Diário, pertencentes ao SVM, um dos principais conglomerados de mídia do Nordeste. 

O que Ívila aponta em comum é a dificuldade de dizer ‘não’ para determinadas coberturas que não estão no escopo do negócio de um veículo local. Ela questiona, por exemplo, a necessidade de um veículo de jornalismo local cobrir a Guerra do Irã, argumentando que antigamente as opções de acesso à informação eram outras. Hoje, a realidade é o excesso de informação, amplamente disponível. Daí, o conteúdo comprado de agências internacionais não terá bom desempenho. 

Outro ponto é a resistência em discutir sobre formatos e estilos jornalísticos específicos para o digital. “Quando você decide discutir isso, parece que está discutindo o processo. Não, o processo segue o mesmo: a apuração, o rigor, a ética, tudo relacionado com o jornalismo, permanece. Eu só estou dizendo que as pessoas estão cansadas do excesso de informação. A gente não organiza e não empacota hoje de uma maneira que faça sentido para plataformas digitais.” 

Ívila acredita que uma boa prática jornalística para o digital, que foge completamente do estilo jornalístico padrão, são as newsletters. 

O que faz sentido para as plataformas digitais? 

Não-linearidade e agrupamentos (clusters) são dois aspectos relevantes do formato digital. Para entender esta ideia de “organizar” e “empacotar”, existe o conceito do jornalismo atomizado pelo qual Ívila está interessada. Refere-se à fragmentação da produção e consumo de notícias, onde o conteúdo é dividido em pequenas partículas ('átomos') e distribuído de forma dispersa em uma rede descentralizada. “Nesse conceito de jornalismo atomizado, imagina que eu tenho uma informação que está no 14º parágrafo. Ela parece não ter tanto valor assim, porque teve outras (informações) antes. Só que aquela, para um grupo específico de pessoas, pode ser ‘a’ informação. A chance desse texto, no 14º parágrafo, sumir é gigante”. Por isso, empacotar a informação específica para cada tipo de público torna-se fundamental no ambiente digital.

Perseverança

A jornalista vem de uma família de professores e carrega consigo os hábitos que definem sua trajetória: estudo contínuo e ter sempre dois planos. "Na vida, sempre existe o plano A e o plano B", afirma. Ao longo da carreira, seguiu essa lógica — concluiu duas graduações, fez duas especializações, lecionou em duas faculdades, mantendo-se em constante busca por alternativas para enfrentar adversidades. “A vantagem por ser mulher e por ser nativa digital é que a gente já faz parte do princípio do ‘não’.”

Ela conta que, há dez, quinze anos, não saberia dizer se as negativas eram por ser mulher, jovem ou nativa digital. “Hoje, eu vejo que qualquer tipo de dificuldade, de resistência, é muito mais sobre o desconforto de se questionar as práticas atuais.” Para enfrentar esse desafio, além da perseverança, sua tática é usar seus conhecimentos em exatas e abrir o caminho com dados e resultados.

Leia a seguir a entrevista respondida por e-mail, antes da nossa conversa online.

Entrevista

Você possui duas graduações, uma de jornalismo e outra de história, além de uma série de cursos técnicos e especializações. Como jornalista, qual é a importância do estudo continuado e da sua formação?

Ívila Bessa de Holanda - Em uma era de desinformação e mudanças tecnológicas frenéticas, o estudo continuado não é um luxo, mas uma exigência ética de atuação. Não podemos esquecer que atuar no jornalismo é decidir sempre trilhar uma trajetória de autoridade sobre temas, linguagens ou tecnologias, por exemplo. É um padrão inerente ao jornalismo e às suas práticas e vivências. Então, a minha demasiada importância em uma formação múltipla reside na capacidade de enxergar caminhos e tentar abri-los.

Você lecionou na Escola de Comunicação e Gestão da Universidade de Fortaleza e na Uni7. Como você percebe a preparação e as expectativas do jovem hoje para seguir os rumos da profissão jornalística?
Há uma felicidade, diferente do que esteve como opção na minha época na Universidade Federal, e há uma preocupação. Há um contentamento elevado ao ver os cursos de jornalismo terem encarado práticas de gestão e de produto, mas me preocupa se estamos reduzindo espaços e tempos para o fazer jornalismo, que requer teoria e linguagens. É necessário investir sempre em apuração, investigação e narrativas. Sem termos isso, o caminho, para a tecnologia, a gestão e o produto, poderá ser vazio e frágil.

Sua carreira começou no digital, na área que chamavam de Portal Verdes Mares, em 2005. Como foi trabalhar com jornalistas de gerações anteriores, que ainda estavam se adaptando ao ambiente digital, enquanto a sua geração já tinha mais familiaridade com essas ferramentas?
São desafios geracionais naturais, que inclusive hoje recebem uma geração 100% nativa digital e com vivências extremas em inteligência artificial. Àquela época, o jornalismo digital estava em uma era 1.0 ou 2.0, quando os desafios eram presença digital, transposições de linguagens (garantir que o conteúdo impresso esteja no digital, assim como os telejornais etc.) e as primeiras produções originárias e nativas digitais. As gerações anteriores, e ainda bem que nem todos, entendiam como um lugar menor. E isso só trouxe uma grande perda de conhecimento digital para eles. Fico feliz que hoje pensam diferente e muitos, inclusive, atuam em produtos digitais próprios. Hoje, já é desafio nosso em como receber estudantes de jornalistas influenciadores (com uma grande riqueza em linguagens) e com ampla adoção em inteligência artificial.

A perspectiva de como nos aproximamos e aproveitamos desse conhecimento, bem como ponderamos sobre métodos e modelos, é o desafio atual. Ganhamos com o olhar sobre o colaborativo, o criativo e a adoção de múltiplas linguagens, e precisamos desafiá-los. Nem tudo é sobre fôrmas, métodos e prompts. 

Queremos seguir trends e threads, ou sermos criadores das próprias? Devemos desejar não sermos só parasitas do que funciona, mas protagonistas de histórias, sejam elas em vídeos verticais de 60 segundos ou em podcasts longos.

Ívila Bessa de Holanda

Em 2018, você assume o cargo de chefe do departamento digital do Sistema Verdes Mares de Comunicação (SVM). Como foi esta mudança e quais foram os maiores desafios?
A estratégia era clara: precisávamos acelerar a transformação digital dos produtos jornalísticos. Era um desafio claro e desejado. Entendemos que a mudança exigia novas posturas, novas aquisições e contratações e novos processos e fluxogramas de como devíamos nos organizar. Então, para acelerar, foi necessário dividir os times em equipes especializadas: um time orientado a performance de audiência quantitativa e produção factual; um outro time orientado a performance de audiência qualitativa para usuários mais fiéis, como os Loyal Readers e os Brand Lovers, e de um olho em indicadores de impacto de consumo de conteúdo; um outro time de tecnologia que agora é integrada à redação, garantindo integridade à operação e um olhar para a experiência do usuário; e um quarto time focado nos canais e engenharia de busca. Foi um passo necessário para acelerar, mas segue desafiador para não fomentar o entendimento ou a governança de que a transformação digital está nas mãos de alguns. Quem pensa assim e atua dessa forma está fadado ao fracasso. Até porque a transformação digital de produtos jornalísticos depende intrinsicamente de outras áreas, desde a sustentabilidade financeira e posicionamento estratégico, que outros departamentos no Comercial, Marketing, TI etc., com mentalidade e core digital, deverão deter e cuidar.

O que você aprendeu neste processo de integração do trabalho analógico com o digital?
Vi um desejo gigante de simplificar e manter o status quo de crenças. É assim para quem se abraçou ao tablet como solução do jornalismo impresso ou àquele que impõe um produto jornalístico nacional horizontalizado (em múltiplos temas) e calcado no paywall. Fico me perguntando se não é um desejo de manter a lógica do impresso. Os modelos digitais de conteúdo, diante das regras de negócio das big techs (Google, Meta, OpenAI etc.), impõem poucos caminhos e mesmos caminhos para produtores de conteúdo de naturezas distintas. E um deles, que deveria ser nossa regra, é: conheça a sua audiência, identifique-a e cresça com ela. Com isso, falo mais de experiência do usuário, IDs e clusterização de perfis. O jornalismo atual exige uma decisão radical em ser mais local e com integração profunda de conhecimento de público e adoção em tecnologia (dados, testes etc.). Só assim podemos pensar em um jornalismo como um serviço de valor agregado, cujos inputs informativos são acionáveis para a tomada de decisão. 

Ando me perguntando se deveria vestir com estilos de jornalismo padrão, como a notícia ou a reportagem. As fôrmas podem ser diferentes, a técnica jornalística não. Os entregáveis podem ser outros. Há átomos de valor (conceito do jornalismo atomizado) no décimo quarto parágrafo e isso se torna acessível como?

Desde agosto de 2022, você acumula uma série de funções como gerente de jornalismo no SVM. Quais são os principais pontos na implementação da inovação para veículos tradicionais como o Diário do Nordeste, a Rádio Verdes Mares (Verdinha) e a TV Diário?
Falo sempre: ‘como nos organizamos internamente não deve refletir para o público’. O que deve imperar e ser reflexivo é: entregar a informação de forma adequada e acessível para aquele canal. 

Hoje, o desafio de transformação digital para a rádio all news e a TV local é o nosso principal foco. No caso do portal de notícias, o Diário do Nordeste, é evoluir o produto em canais digitais premium (newsletter, por exemplo) e canais massivos (redes sociais), bem como o fortalecimento na relevância, ampliando a capacidade de produção para o jornalismo local de qualidade. 

Ívila Bessa de Holanda


Quais exemplos de criatividade e inovação vocês já implantaram desde que você assumiu a gerência de jornalismo?
Vou citar dois cases que são internos, pois afetam e aceleram nossos processos de produção. Temos o VigilIA e o SICO. O primeiro é um assistente de IA que raspa e trata dados públicos sobre várias cidades cearenses, possibilitando a produção de conteúdo original em cidades cearenses que são ‘desertos de notícia’. 

O segundo é o Score de Impacto de Conteúdo (SICO) que, na tentativa de mensurar impacto de conteúdo, baseia-se em um sistema de pontuação que analisa o comportamento dos leitores no site e auxilia a redação a focar na produção de pautas que impactem e atendam aos interesses dos usuários. 

Como funciona a cobertura multiplataforma simultânea da SVM? Quais são os principais pontos de atenção e tensão?
A pergunta hoje é mais fácil de responder do que foi há 10 anos. Quando se tem repórteres que detêm práticas e experiências em linguagem (texto, áudio e vídeo), times especializados e fluxos e processos de produção definidos e organizados, o desafio se restringe muito mais a decisões sobre tempo (quando e quanto) e recursos (quem). Hoje, a nossa equipe multiplataforma está madura e escalável, com definição clara de capacidade de produção para a organização. Ampliar uma produção ou enriquecer uma produção está na competência das escolhas e está diretamente mais ligada à medida que disponibilizamos mais tempo ou mais recursos.

Qual conselho você daria a uma jornalista que assume pela primeira vez uma posição de liderança?
Sou jornalista nativa digital. Entrei no mercado de redações, educação e comunicação corporativa pelo know-how digital e por ter mãos do jornalismo entrelaçadas com o marketing e com a tecnologia. Um caminho coincidente à mesma travessia percorrida pelos desafios da comunicação. No final, me destaquei por resultados e experiências que as organizações necessitavam. 

Para jornalistas mulheres, digo que: sempre anteveja, seja ousada e seja protagonista de sua carreira. Como ousaria te ajudar a antever? Bem, sugiro alguns ingredientes: autoconhecimento e gestão de pessoas como base; conhecimento e prática em gestão de produto baseada em dados (decisões se tornarão mais fáceis e argumentos para reuniões-chave também) e uma própria gestão de energia e intuição estratégica, que aqui vai pedir hábito de leitura e contato com pessoas do mercado para te aproximar sobre as mudanças que a indústria de mídia e de tecnologia enfrenta. Daqui você terá a sua aposta para qual rua percorrer e quais esquinas dobrar. Que seja honesta com o caminho que desejas. ◼

 

Ficha Técnica:

Nome da iniciativa jornalística (Grupo): Grupo Edson de Queiroz (GEQ)/ Sistema Verdes Mares
Nome do(s) veículo(s): TV Verdes Mares, TV Verdes Mares Cariri, Diário do Nordeste, G1 Ceará, TV Diário, Rádio Verdes Mares, FM 93, Recife FM e Rádio Tamoio (RJ)
Local/Região: Fortaleza/Ceará
Data de origem: 1951
Nome do(s) fundador(es): Edson Queiroz
Diretor(es) responsável(is) do SVM: Ruy do Ceará Filho (Superintendente), Alex Magalhães (Comercial) e Gustavo Bortoli (Jornalismo e Operações)
Editorias: Foco intenso no cotidiano, política, economia e cultura do Ceará, com sucursais como a TV Verdes Mares Cariri para cobertura regional 
Público principal: Liderança de audiência local e regional
Instagram: @diariodonordeste; @tvverdesmares; @radioverdesmaress
Site: https://www.geq.com.br/negocios/sistema-verdes-mares/