Jornalismo hiperlocal de qualidade e em escala

Roberto Borges lança e-book sobre jornalismo hiperlocal que propõe um modelo de redação territorial com correspondentes voluntários

Atualizado em 05/08/2026 às 07:08, por Colunista.

Montagem com duas imagens. À esquerda, um homem de cabelos grisalhos, usando camisa polo preta e relógio de pulso, sorri para a câmera enquanto apoia os braços sobre uma mesa em ambiente iluminado. À direita, a capa vermelha do e-book Jornalismo Hiperlocal Escalável, de Roberto Borges, com o subtítulo sobre a construção de uma redação territorial com correspondentes voluntários e a transformação de um portal local em referência regional.

Jornalista Roberto Borges lança publicação sobre jornalismo hiperlocal (Reprodução)


Por Juca Guimarães*

O jornalismo tem entre as suas principais missões a entrega de textos noticiosos de qualidade e relevantes sobre assuntos de interesse da sociedade, sobretudo aqueles que terão impacto direto na vida das pessoas.

Existe uma grande quantidade de livros que buscam desvendar os processos e rotinas aplicados nas redações para alcançar esta missão de bem informar. Muitos desses livros foram escritos por jornalistas veteranos e fazem parte da lista de leitura obrigatória das melhores faculdades de jornalismo.

Agora, no final do primeiro semestre de 2026, o jornalista Roberto Borges lançou um livro que deve agitar o mercado sobre jornalismo e pode se tornar uma obra recomendável para os estudantes de comunicação social. É o e-book “Jornalismo Hiperlocal Escalável - Como construir uma redação territorial com correspondentes voluntários e transformar um portal local em referência regional”.

Borges é jornalista desde os anos 70 e hoje é consultor estratégico de comunicação, após ter trabalhado por muitas décadas nas maiores emissoras de TV. Na Rede Globo, começou em 1981, em Recife, foi editor-chefe de telejornais da emissora em São Paulo e Brasília. Entre 1997 e 1999, participou da equipe fundadora e da chefia da Globonews em Brasília, o primeiro canal de notícias 24 horas da capital federal.

No livro que ele está lançando agora, as ideias partem das próprias experiências de Borges como jornalista, ainda em Recife, e a sua visão sobre de como o jornalismo hiperlocal, além de sustentável, é revigorante para o jornalismo.

Confira a seguir um resumo do meu papo com o Borges.

Como surgiu a ideia de escrever o livro sobre jornalismo hiperlocal? 

Acho que devo ao jornalismo toda a minha vida profissional, que sustentou minha família, e por isso mesmo, quero retribuir de alguma maneira, para a ressurreição do jornalismo que aprendi e pratiquei durante décadas. O jornalista morreu. Mas o jornalismo, não. Sempre houve militância política no trabalho jornalístico, mas não ao ponto de atrapalhar nossa missão de informar, com honestidade, os fatos como eles realmente são, e não como alguns, maus profissionais, gostariam que eles fossem. Com as redes sociais, esse fenômeno crudelíssimo atropelou o jornalista raiz. Os “nutelas” ganharam força e deu no que deu. O jornalista passou a opinar de acordo com sua ideologia, esquecendo-se da sua principal missão, a de informar para melhorar a vida da gente. Como um médico, não pode prevalecer sua ideologia. E digo mais, o jornal passou a falar mais do estrangeiro do que do nosso bairro. É como se não existisse mais a cidade onde nascemos, vivemos, atravessamos as ruas. Minha esperança é que o jornalismo hiperlocal recupere a má fama que o jornalista conquistou na comunidade. Ninguém confia mais na gente. 

Na sua carreira, você teve experiência de trabalho com jornalismo hiperlocal? Como foi essa época? 

Sim. Ainda no tempo da universidade, em 1979, quando trabalhei no Diário da Noite, no Recife, tive uma experiência de jornalismo local sensacional. Começou pela editoria de Esportes. Os leitores escreviam suas versões do jogo de futebol. Torcedores do Sport e do Náutico enviavam, por carta, o que só eles viram da partida. Dava trabalho reunir as colaborações, mas o jornal vespertino passou a vender mais que o Jornal do Commercio, o matutino carro-chefe da empresa. 

Os leitores traziam os textos ainda no domingo, ao final do jogo, para a publicação no dia seguinte. E alguns passaram a ser nossos correspondentes nos treinos dos times. Isso escalou nossa cobertura.

Roberto Borges

Como o jornalismo hiperlocal pode ser escalável? 

Então, é aqui que começa a resposta à sua terceira pergunta. Com esse método de abrir para o leitor a possibilidade de participar, passamos a ter mais colaboradores e, consequentemente, escalamos nosso jornalismo para patamares invejáveis. Sim, a experiência com a editoria de Esportes foi ampliada para a editoria de Cidades. As lideranças naturais dos bairros passaram a enviar problemas e soluções, que acabavam sendo resolvidos pela prefeitura. Era, de fato, um jornalismo local, feito por moradores, com a curadoria de jornalistas empolgados com o crescimento do negócio. E deu tão certo, que logo chamou a atenção dos governantes. 

O conteúdo passou a ficar fora de controle dos “acionistas” do jornal. E esse é um dos principais problemas do jornalismo local. Ele pega na veia da cidade. É a vida como ela é.

Roberto Borges

 

Qual é a posição do correspondente local voluntário na estratégia de crescimento dos portais regionais, que você aborda no seu livro? 

O correspondente voluntário é um jornalista em formação, por isso não deve ter a palavra final, mas a capacidade de observar o problema em sua raiz. Ele é um morador, sabe onde está o buraco que inferniza a vizinhança. Naquela época, a gente recebia a demanda e enviava repórter e fotógrafo ao local. Agora, o voluntariado faz tudo, graças às novas tecnologias. Os jornalistas entram com a curadoria. O voluntário será um futuro jornalista, ou um político partidário ou um líder de uma organização qualquer. Eles aprendem na prática o que o trabalho em uma redação, aprendizado que nenhuma universidade é capaz de oferecer. Mas, como disse antes, há um fio tênue entre o que ele pode ajudar e o que ele pode destruir. Ou seja, voluntariado mal supervisionado pode fechar o jornal. Foi o que ocorreu com o saudoso Diário da Noite. Não tínhamos a experiência de hoje, claro, era tudo muito novo, mesmo assim provamos que, quanto mais local, mais universal é o alcance.

Qual é o futuro do jornalismo hiperlocal? 

Vejo com muito otimismo. Essa experiência do Diário da Noite foi replicada depois, guardadas as proporções, nos anos noventa, na Rede Globo Brasília, quando chefiei a coordenação dos telejornais locais. Evidentemente, a vigilância dos “acionistas” era muito maior, mas a boa audiência rendia patrocinadores da linha de frente do mercado. A estrutura da empresa permitia a maior cobertura possível da região, e a decisão de manter os melhores jornalistas no local foi determinante para o sucesso do projeto. Mas com o passar do tempo, esses melhores foram “promovidos” para a cobertura nacional e internacional, ganhando mais, claro, e o jornalismo local foi ficando para estagiários e “encostados” na empresa. Isso perdura até hoje nas grandes redações. Eu mesmo fui “promovido”, a contragosto, profissionalmente, mas muito grato, economicamente, claro. E com a internet, com as redes sociais, a concorrência aumentou em anos-luz. O jornalista sumiu do mapa como referência de credibilidade. E a saída é o jornalismo hiperlocal, como modelo de negócio que vai resgatar o sentido real da nossa profissão.◼
 

*Juca Guimarães, paulistano, é jornalista desde 1996, atua como repórter, roteirista e documentarista. Trabalhou na Folha de S.Paulo, Estado de S.Paulo, Rede Globo, Alma Preta Jornalismo, Ponte Jornalismo, entre outros.