Inteligência Artificial no Jornalismo | Como estamos sete anos depois?
Flavio Ferrari revisita as discussões do Mídia.JOR e examina os impactos da inteligência artificial sobre o modelo tradicional de negócios da imprensa
Ilustração gerada por IA
Flavio Ferrari*
Em setembro de 2019, no Unibes Cultural, participei do "Mídia.JOR - Inteligência Artificial no Jornalismo", promovido pelo Portal IMPRENSA, com a curadoria de Lúcio Mesquita, que visava escrutinar o presente e propor caminhos para o futuro da atividade, reunindo profissionais relevantes da imprensa, de comunicação e tecnologia como Zeca Camargo, Leão Serva, Claudia Quinonez e Caio Tulio Costa, entre outros.
O mote segue atual: “Uma era desafiadora para o jornalismo, em que a polarização acentua vieses e a tecnologia amplifica a repercussão e direciona a comunicação.”
Fui mediador do painel "O algoritmo informado – como IA pode ajudar a combater a desinformação", em um debate que reuniu a jornalista Tai Nalon (cofundadora do Aos Fatos), o jornalista Renato Cruz (editor do inova.jor) e trouxe contribuições do pesquisador Nic Newman (Instituto Reuters).
Falamos sobre a automatização do fact-checking em larga escala e sobre a possibilidade de monitorar declarações públicas em tempo real e detectar padrões recorrentes de desinformação e deepfakes, como forma de enfrentar a velocidade da disseminação de informações diante da capacidade limitada de apuração das redações tradicionais.
Ressaltamos a importância de os jornalistas entenderem o funcionamento dos algoritmos e aprenderem a utilizar as IAs para acelerar e ampliar o alcance do jornalismo investigativo, ressalvando que o julgamento ético e contextual seguiria sendo uma prerrogativa humana.
Também alertamos sobre o risco de reprodução de vieses e a responsabilidade da imprensa, um alerta que permeou os demais painéis do evento que deixou a grande provocação: o jornalismo precisa se adaptar para aproveitar melhor a tecnologia sem perder profundidade.
Quase sete anos se passaram desde que o Portal IMPRENSA promoveu essa conversa profilática, repleta de ideias portadoras de futuro.
Transição exponencial
De lá para cá, o poder algorítmico cresceu exponencialmente, transformando-se no que ousei chamar de “sexto poder”, e as inteligências artificiais conversacionais (LLMs) estão se transformando nas maiores formadoras de opinião, em escala global, filtrando, interpretando e consolidando tudo o que é disponibilizado no ambiente digital.
A imprensa e a mídia especializada são consideradas validadoras externas e têm forte peso para a credibilidade e construção de consenso, o que multiplica sua responsabilidade editorial.
As organizações, cientes desse poder, revisam suas estratégias de mídia e passam a recorrer, cada vez mais, às agências de comunicação corporativa para divulgação institucional, de forma a consolidar sua reputação digital de forma antecipativa, visando “influenciar” as respostas das IAs, que são fundamentalmente leitoras digitais.
E os leitores, por comodidade, já começam a recorrer aos chatbots de IA para saber o que está se passando, segundo indicam os estudos da Reuters e da Authoritas.
Essa transição impacta de forma significativa o modelo tradicional de negócio da imprensa, com potencial para reduzir as receitas de assinaturas e publicidade.
A oportunidade surge da relevância da imprensa como fonte para as IAs, o que pode gerar, mediante pressão, novas fontes de monetização, como o licenciamento do conteúdo (para as IAs) e alternativas para a participação das marcas capturáveis pelas IAs, por meio de conteúdo interno.
Apesar de propósitos bastante distintos, veículos jornalísticos e marcas estão diante de um mesmo desafio: como capturar a atenção das inteligências artificiais e aumentar a probabilidade de que suas respostas sejam “corretas” e contribuam positivamente para seus negócios.
Esse pode ser o tema para um próximo encontro a ser promovido pelo Portal IMPRENSA. ◼

*Flavio Ferrari é fundador do hub SocialData, professor de análise estratégica de cenários futuros na ESPM e autor do livro “O Sexto Poder – algoritmos, inteligências artificiais e reputação digital” (2025)





