História do fotojornalista Brent Renaud inspira curta indicado ao Oscar

“Armed Only with a Camera” destaca a importância do jornalismo e os horrores da guerra ao homenagear jornalistas assassinados

Atualizado em 12/03/2026 às 11:03, por Redação.

Pessoa sentada na traseira de um veículo em área rural, usando boné, óculos e colete com a palavra ‘PRESS’, segurando uma câmera fotográfica. Ao fundo há vegetação baixa e solo avermelhado.

Fotojornalista americano Brent Renaud (divulgação)


Por Leandro Haberli*

A imagem de um corpo em um caixão, especialmente quando a morte teve uma causa violenta, é compreensivelmente inquietante. Além de desnudar a inevitabilidade do fim e desenterrar de nossos recônditos a consciência da finitude, ela lembra que a vida pode ser interrompida de forma abrupta. Talvez por isso, fazer fotos e vídeos dessa situação siga sendo um tabu — mesmo num tempo em que as imagens são soberanas. Mas o jornalista Brent Renaud, especializado em documentar conflitos armados pelo mundo, tinha uma espécie de acordo tácito com seu irmão dois anos mais novo, Craig, que se dedicava ao mesmo ofício: caso um dos dois morresse numa das coberturas, o sobrevivente deveria documentar exatamente o que acontecera, com direito a imagens detalhadas do corpo. 

É justamente essa uma das cenas mais marcantes de “Armed Only with a Camera - Life and Death of Brent Renaud”, que levou três anos e meio para ser produzido, concorre na categoria de melhor documentário de curta-metragem no Oscar 2026 e está disponível no serviço de streaming da HBO.

Brent foi assassinado com um tiro no pescoço, aos 50 anos, na Ucrânia, em março de 2022, cerca de um mês após o início do conflito. A morte, considerada a primeira de um profissional de imprensa dos EUA na guerra daquele país, ocorreu em Irpin, nos arredores de Kiev. Ao receber a notícia trágica da voz do também jornalista americano Juan Arredondo, que estava com Brent no momento em que militares russos atingiram o carro que os transportava, o irmão Craig sabia que tinha que ir até a Ucrânia, filmar o corpo de Brent e trazê-lo de volta para o Arkansas, onde vive a família Renaud. 

Após ser levado para a Polônia numa van, o caixão foi colocado num avião da Delta Airlines. O pequeno veículo usado para o embarque da urna funerária na aeronave estampava as frases: “All give some. Some give all.”

Na cerimônia de despedida, um militar do Arkansas que serviu no Iraque fez um discurso emocionado, lembrando que Brent e Craig acompanharam durante semanas um batalhão americano em incursões no Oriente Médio. Numa delas, devidamente documentada pelos irmãos jornalistas, dois soldados do Arkansas morreram. 

Em dado momento, o militar afirma que Brent tombou pela América. Em tempos de ultranacionalismo, a afirmação a princípio soa perturbadora. Mas não deixa de fazer sentido: assim como tantos jornalistas que cobrem conflitos armados, Brent queria mostrar as atrocidades da guerra. Denunciava as ações militares dos EUA, mesmo sendo americano, porque entendia que a verdade não se dobra a patriotismos canhestros. Nem às ameaças belicistas de líderes que tratam a guerra como instrumento de afirmação geopolítica, como faz Donald Trump em sua retórica recorrente. 

Um morador de Chicago, ativista pelo fim da violência nos subúrbios da cidade, também fez um discurso tocante.

Ele ressaltou que o trabalho de Brent e Craig foi essencial para desestimular a cultura de violência e expor a dura realidade que afeta aqueles territórios, onde os irmãos cobriram de perto a onda de assassinatos entre jovens negros, mostrando não apenas as estatísticas, mas o impacto humano da violência cotidiana.


Tributo

Bem costurada, a edição do filme mescla cenas feitas após a morte de Brent com trechos das várias matérias que ele e seu irmão realizaram ao longo de mais de 20 anos, incluindo a cobertura de terríveis crises humanitárias, como o terremoto no Haiti, a fuga de cidadãos do México e de países da América Central para os EUA e o maior atentado terrorista da história da Somália. 

Em todas as reportagens, o lado humano das vítimas ganha protagonismo. Uma mãe segura a calça jeans esburacada e ensanguentada que o filho vestia quando morreu em uma explosão. Outra lamenta aos prantos que o pênis de seu filho mais novo precisou ser amputado como consequência de um atentado. Nas montanhas do Afeganistão, moradores de um vilarejo bradam aos berros que um helicóptero americano os alvejou na noite anterior, sob a falsa alegação de que o local abrigava terroristas. Em Honduras, dois irmãos, adolescentes e órfãos, vão às lágrimas ao contar que estão ameaçados de morte por gangues. E que não lhes resta outra alternativa a não ser tentar imigrar ilegalmente para os EUA. Enfim, são muitos os dramas humanos que Brent trabalhou duro para tornar públicos.

A personalidade reservada do documentarista, diagnosticado com autismo apenas na vida adulta, é outro aspecto marcante de sua vida. Ele dizia que se sentia mais em paz em meio a tiros, bombas e o caos de zonas de conflito do que em eventos sociais badalados. Teve de frequentá-los especialmente em 2019, quando foi selecionado como fellow da Nieman Foundation for Journalism, em Harvard. 

O documentário também denuncia que a morte de Brent faz parte de um cenário cada vez mais perigoso para jornalistas em todo o mundo. Nos últimos anos, houve um aumento significativo no assassinato de profissionais da imprensa, tornando a atividade uma das mais arriscadas do planeta. 

Um dos casos mostrados no curta é o da repórter da Al Jazeera Shireen Abu Akleh, morta em maio de 2022. Portanto, poucas semanas após a morte de Brent. Com mais de duas décadas de cobertura do conflito Israel-Palestina, Shireen foi assassinada com um tiro na cabeça enquanto realizava uma reportagem em Jenin, na Cisjordânia ocupada. Ela usava colete à prova de balas identificado com a palavra “PRESS” e capacete no momento do disparo. Investigações conduzidas por veículos internacionais e organizações de direitos humanos apontaram que o tiro partiu de forças israelenses. 

Assim como o assassinato de Brent, a morte de Shireen renovou o debate sobre a segurança de jornalistas em zonas de conflito.

O filme também mostra imagens referentes à violência no México, onde diversos jornalistas têm sido assassinados, muitos por reportagens sobre o crescente poder dos cartéis de drogas dentro das instituições do país. 

A obra, nesse sentido, provoca uma reflexão sobre o valor do jornalismo, não apenas o de guerra: ele confronta o espectador com imagens fortes, para não fecharmos os olhos para o sofrimento alheio. A decisão de Craig de filmar o corpo do irmão transforma a obra em algo quase ritualístico, lembrando que o documentarista não apenas registra a morte, mas também a humanidade e o sacrifício de quem se coloca na linha de frente para contar a história.

“Armed Only with a Camera” é um registro sobre coragem, ética e a complexidade das guerras e crises humanitárias. O curta não apenas documenta a vida e morte de Brent, mas também lembra que a informação tem um preço alto: muitas vezes, a própria vida. ◼


*Leandro Haberli é jornalista. Escreveu durante 6 anos para o Portal e a Revista Imprensa sobre os bastidores do jornalismo e as transformações da indústria de notícias. Também cobre negócios, inovação e ciência.