Fatos, postagens, repostagens ou dólares?

Lucas Mendes traz números presentes nas narrativas da política americana

Atualizado em 06/08/2026 às 10:08, por Colunista.

Três pessoas estão sentadas em uma bancada de estúdio durante um programa de entrevistas. À esquerda, uma mulher de blazer vermelho conversa com um homem de terno escuro e gravata azul, enquanto um apresentador de cabelos grisalhos gesticula durante a fala. Ao fundo, há um grande painel com um mapa iluminado em tons de azul.

Maggie Haberman e Jonathan Swan participaram de vários programas de TV para divulgar o livro "Regime Change" (Reproduçao The Daily Show)


Lucas Mendes*

Depois do cochilo, no começo da entrevista no Salão Oval, Trump perguntou aos jornalistas o que eles achavam dos 425 bilhões de cliques que ele teve no TikTok. O número se referia a todos os tipos de postagens e seguidores. Número altíssimo, nenhum presidente teve nada parecido. E daí? Ganha eleições? 

Trump está com a aprovação mais baixa da história, sempre abaixo de 40% de aprovação. Nas pesquisas das cinco mídias, os trumpistas perdem em duas e ganham três em número de audiência. 

Na mídia digital, que pode ser a decisiva, os números dos influenciadores trumpistas despencaram. Segundo o NYT, o campeão deles, Benny Johnson, caiu de 30 milhões de seguidores para 18 milhões. Outros três dos maiores influenciadores MAGAs passaram a criticar Trump por causa da guerra no Irã e do caso Epstein. Megyn Kelly, Tucker Carlson e Candace Owens perderam seguidores, depois recuperaram, mas continuam conservadores. 

Pelos cálculos de outras mídias e da IA do GPT, o cenário dá vantagem de audiência aos trumpistas na TV a cabo (+55% a 45%), nos podcasts políticos (75% a 25% Trump) e na mídia digital (55% a 45% Trump). Na TV aberta e no rádio, Trump perde pelo mesmo placar, 80% a 20% em ambos, mas os republicanos postam e gastam muito mais em repostagens e gastam milhões para ocupar e saturar o tempo de comerciais nas televisões. O partido dos republicanos está com 128 milhões de dólares nos cofres, o trilionário Musk está chegando com seus bilhões, enquanto o partido democrata está com um déficit de 2 milhões para a campanha.
 

Best-seller

Textos cheios de números chateiam, sempre. Que os economistas perdoem minha ignorância e vocês me perdoem mais um número, que também é necessário e extraordinário. O livro "Regime Change", de Maggie Haberman e Jonathan Swan, ambos do NYT, é sobre o segundo mandato de Trump e as acusações de abuso de poder e corrupção. Vendeu 500 mil exemplares em um mês e pode bater um milhão até o fim do ano. Só um livro sobre presidentes americanos vendeu tão depressa. Foi sobre o segundo presidente, John Adams, modelo de honestidade, fez um bom governo, mas perdeu quando houve um racha no partido. Ele governou há 225 anos, o livro é de 2001.
 

(Divulgação)

A jornalista Maggie Haberman, que cobre a Casa Branca para o Times, é filha de um conhecido e influente jornalista e correspondente internacional do Times, Clyde Haberman. Maggie não queria ser jornalista porque via como a profissão consumia a vida familiar. Queria escrever ficção, estudou escrita criativa, tentou conseguir empregos em revistas, fracassou e foi bartender num clube de jazz de Manhattan, o Cleopatra's Needle. Trocou por um emprego administrativo na redação — era copy kid — do New York Post, onde descobriu que gostava mesmo era de jornalismo. 

O jornal já era conservador, Maggie começou cobrindo política e bastidores da cidade. Graças à mãe, executiva de uma agência de publicidade, conheceu Donald Trump como empresário, celebridade e cliente da agência da mãe. Poucos conhecem a trajetória do Trump como ela.  Este é o segundo livro sobre Trump, o outro foi "Confidence Man", também critico, que ele classifica como lixo ou de terceira categoria, mas muitas vezes atendeu chamadas e deu entrevistas. 

O parceiro dela, Jonathan Swan, começou na imprensa australiana e ficou conhecido pelos furos e ganhou projeção nacional na primeira administração de Trump. Foi contratado pelo Times e entrou para a tribo dos imigrantes. O saldo desta eleição de setembro favoreceu os republicanos, porém o que importa mais: os fatos, as postagens, as repostagens, a publicidade ou os bilhões de dólares? ◼
 

*Lucas Mendes é jornalista, fundador e apresentador do programa Manhattan Connection, criado em 1993. Em 2015, foi agraciado com o Prêmio Maria Moors Cabot, o mais antigo prêmio internacional de jornalismo dos Estados Unidos. 
Lucas escreveu a coluna “Manhattan” para a revista IMPRENSA de 1991 a 1994.