Explosão de dúvidas
Lucas Mendes resume as principais perguntas da imprensa americana relacionadas a nova fase da guerra contra o Irã
Capa da revista New Yorker (divulgação)
Por Lucas Mendes
A primeira pergunta explodiu com a primeira bomba e elas não querem parar:
- Por que o ataque neste momento?
- Qual é o objetivo?
- Quem:
a) autorizou?
b) aconselhou?
c) está ganhando com a guerra?
d) sabia do ataque?
- Qual é o problema?
Respostas demais:
Trump 1: Para eliminar o perigo nuclear que ameaça os Estados Unidos.
As dúvidas: não tinha sido obliterado?
Trump 2 - Para conter e eliminar mísseis que ameaçam os vizinhos e as bases americanas.
Trump 3 - Não foi para eliminar a liderança.
Secretário de Defesa, Hegseth: Não foi para eliminar a liderança, mas ela foi eliminada.
Repórter: Então, errou no objetivo e ganhou um bônus?
Trump 4 - Agora o povo precisa ir para as ruas e assumir a liderança.
Mais perguntas:
Até quando?
Trump 1- Uma semana ou 2;
Trump 2- de 2 a 4 semanas;
Trump 3 - um mês talvez mais.
Diário de respostas
Dia 4 - A resposta mais repercutida no quarto dia de guerra foi a do secretário de Estado Marco Rubio, reforçada pelo presidente da Câmara, jogando a culpa em Israel:
- Atacamos porque soubemos que Israel ia atacar e o Irã ia revidar em cima dos Estados Unidos. Tínhamos de atacar, senão seríamos acusados no congresso e processados.
Nos programas de humor à noite, duas piadas garantiam gargalhadas:
1) Quem pergunta pelos arquivos Epstein?
2) A “Missão cumprida” e o" Situation Room" que Trump criou em Mar-a-Lago, ao lado do Salão de festas, cercado de cortinas, também viraram deboche.
Dia 5
- Quem está ganhando, além de Israel?
- Quem fez a cabeça do presidente Trump?
NYT: Foi Netanyahu;
Washington Post: O príncipe saudita Mohammad bin Salman está cada dia mais próximo de Trump.
(Uma ironia: no maior atentado terrorista até hoje neste país, que matou mais de 3 mil pessoas e derrubou as torres do Trade Center, quinze dos terroristas eram sauditas e hoje, graças ao Trump, o país é um dos maiores aliados americanos).
Pergunta leve 1: Seis pessoas ganharam 1,2 milhões de dólares, porque apostaram e acertaram na mosca o horário da invasão. Quem vazou para os apostadores?
Um comentarista na TV especula se foram os militares que carregaram os mísseis nos aviões.
Pergunta leve 2: Trump gosta tanto dos militares porque nem ele nem os 4 filhos serviram o exército? Baron, está na idade de servir.
Resposta do comentarista: A mãe não deixa o filho servir. Trump escapou dos vietcongues com um atestado que tinha esporões nos pés, embora tenha passado cinco anos numa academia militar. O pai de Trump achava que ele poderia ser corrigido pelos militares, não foi bem assim. As informações sobre as notas e comportamento dele nos anos na academia foram obliteradas ou estão escondidas.
Dia 6 - As bolsas e os índices de aprovação do Trump despencam. Petróleo sobe 9% e o barril já tinha passado de US$ 119,00. Com o bloqueio do estreito de Ormuz, é difícil prever a quanto vai chegar.
Maior bombardeio do Irã desde o início da guerra, que responde com ataques em cidades com bases americanas.
Dia 7 - Líder do Irã pede desculpas pelos bombardeios e diz que o país quer viver em paz.
Trump exige rendição incondicional. Israel ainda aparece nos comentários como o maior beneficiado pela guerra. E a Revista Time informa que a Rússia vai se dar bem com a guerra.
Até agora, os números oficiais de mortos são:
Iranianos: 1.500
Libaneses: 400
Israelenses: 11
Americanos: 6
Outros?
Custo da guerra:
EUA: US$ 3.7 bilhões, nas primeiras 100 horas, e US$ 900 milhões, por dia.
Israel: US$ 3 bilhões, por semana.
Novo ataque iraniano
Um míssil atinge centro de Israel com um morto e feridos graves.
Quais são as previsões para o final?
O escritor iraniano Reza Aslan, exilado nos Estados Unidos, acha que o governo iraniano deve sair do regime da teocracia e entrar num regime militar governado pelo Corpo Islâmico da Guarda Revolucionária, sem entrar em colapso. A Guarda tem poderes extraordinários e operações em construção, energia, segurança, telecomunicações e finanças. Para Aslan, mais provável será uma troca de togas islâmicas por fardas militares no comando.
O veterano e influente colunista Martin Wolf, do Financial Times, diz que a operação Epic Fury oferece uma cínica, mas ótima oportunidade de concluir com sucesso esta operação que começou com extraordinária e eficiente precisão militar e agora parece caótica.
- Como? A solução venezuelana de um acordo de paz em troca de petróleo com os novos líderes. Os americanos manteriam prestígio e poder. Para os EUA, um novo Irã não teria aiatolá repressor nem democracia que incomodasse os vizinhos. E compartilharia o petróleo com o Trump.
Conclui com a pergunta:
- Pelo menos para o Trump, o que há de ruim nesta proposta? ◼

Lucas Mendes é jornalista, fundador e apresentador do programa Manhattan Connection, criado em 1993. Em 2015, foi agraciado com o Prêmio Maria Moors Cabot, o mais antigo prêmio internacional de jornalismo dos Estados Unidos.
Lucas escreveu a coluna “Manhattan” para a revista IMPRENSA de 1991 a 1994.





