“Esse livro veio para oxigenar e trazer poesia para meu cotidiano tão duro, tão árido no jornalismo”, diz Leonencio Nossa
Autor da primeira biografia de Guimarães Rosa, fala sobre a importância do jornalismo para o conhecimento e análise de figuras complexas
Leonencio Nossa na mercearia de Florduardo, pai de Rosa, hoje Museu Casa de Guimarães Rosa, em Cordisburgo (Crédito: Ronaldo Alves)
Há conversas que precisam decantar para depois tomarem seu formato em texto. Leonencio Nossa levou 20 anos para produzir a primeira biografia de João Guimarães Rosa. Um tempo que contrasta com a vida de um jornalista de redação em Brasília, onde a pressão é diária e o tempo é escasso.
“Eu sei o quanto abdiquei da vida para escrever esse livro. Então, mais do que reconhecimento, foi um prazer fazer esse trabalho, porque se você esperar reconhecimento por um trabalho de 20 anos, você está lascado.”
A exaustiva pesquisa de Leonencio abre caminhos dos mais diversos para a adentrar na complexidade do autor de Sagarana e Grandes Sertões: Veredas, obras que completam 80 e 70 anos, respectivamente, e estão sendo comemoradas em diversos eventos, entre eles a Flip de Paraty (RJ) e a Fliparacatu (MG).
A biografia revela a importância da imprensa para a difusão da obra de Guimarães Rosa e reforça a conexão histórica entre os universos jornalísticos e literário. No século 19 e no início do 20, a circulação em jornais era maior que a do mercado editorial de livros. Conta que o Rosa tinha uma relação muito intensa com a imprensa, porque ele sabia que era por meio dela que seria reconhecido. Desde sempre, buscou divulgar seus livros e fazer seu trabalho em jornais.
Apesar da ligação com a imprensa ter permitido que a obra de Rosa alcançasse um público amplo e diverso, a polarização política e a recepção crítica do escritor causaram desafios para a obra e para sua imagem pública durante toda a sua carreira literária.
Leonencio acredita que faltam biografias no Brasil. O mercado americano possui múltiplas biografias do mesmo personagem e o jornalismo brasileiro precisa encarar esta lacuna. “Acho que foi uma contribuição da imprensa, do jornalismo, publicar uma biografia de Guimarães Rosa”. Ressalta que as diferenças entre a biografia jornalística e a romanceada estão na ética e rigor do trabalho do jornalista. “Nós, jornalistas, nunca podemos escolher uma versão, temos que colocar todas as versões que a gente encontrar”. Essa postura garante a credibilidade e o valor histórico ao trabalho, além de mostrar o olhar único e insubstituível do jornalista para a memória histórica.
Confiança do biografado
Na nossa conversa, Leonencio confidencia que a grande dificuldade em escrever uma biografia – lembrando que ele é o autor da biografia do Roberto Marinho – é a de conseguir a confiança do biografado e que isso requer aproximação, tempo e paciência. Indago: “Como assim?” Até então, estávamos falando do rigor jornalístico.
“Parece papo de doido”, concorda, se descontraindo, mas detalha a explicação: “quando você consegue ter o mínimo de conhecimento sobre essa pessoa, sobre o que existiu, o que viveu etc., é o que chamo do biografado se abrir para você. Se abre por meio de pessoas próximas dele, de amigos, de adversários, ou por meio de cartas. Chega um momento na pesquisa em que você percebe que isso é possível. É quando as ações se tornam muito previsíveis. Você vai a um arquivo e, antes de abrir a carta ou uma resposta que ele ia dar a alguém, mentalmente você já sabe qual é a resposta dele. Aí, você está num ambiente tranquilo para fazer essa biografia.”
O assunto surgiu ao comparar duas figuras públicas complexas e controversas, Roberto Marinho e Guimarães Rosa. Com jogo de cintura, o segredo é equilibrar respeito à privacidade com transparência sobre a intenção de publicar fatos, requer também manejo cuidadoso na relação com familiares, amigos e adversários. É necessário ouvir o contraditório, atributo básico do fazer jornalístico.
O Roberto Marinho e o Guimarães Rosa estão na minha linha de personagens que acho mais interessantes, porque, cada um a seu modo, conta uma história de Brasil. E falar de Brasil é o que sempre fiz na vida, desde que entrei na profissão.
Segundo ele, são personagens de muita intensidade, que lhe permitem escrever mais sobre o país, suas contradições e seus paradoxos. Disse ainda que esse é o tipo de personagem que mais o atrai, seja na política, no jornalismo ou na literatura. Cita o jornalista Ruy Castro como uma referência de biógrafo pelo mesmo motivo: sua visão do país. E elogia o estilo da escrita do colega e a graça do trabalho.
Marcas da vida
Como jornalista investigativo, utilizou-se da obra de Guimarães Rosa como fonte para entender marcas da vida real, “mantendo o respeito pela ficção”, ele investiga padrões. “Minha leitura foi muito pragmática e muito focada na busca de histórias com H, ou estórias com E, do autor”. A biografia se baseou em fontes orais e documentais, que, de certa forma, compactuavam com estas descobertas empíricas.
O olhar jornalístico tem dessas coisas. É treinado a desconfiar da escrita, a fazer perguntas nas entrelinhas para entender o que o texto revela sobre o autor. “A gente levou tanto no lombo, tanta porrada na vida, que a gente é diferente”, desabafa em relação ao trabalho do jornalista.
Ao esmiuçar a vida e a obra de Guimarães Rosa, identificou-se com o homem da escrita. Ficou de certa forma aliviado, por exemplo, quando mesmo Guimarães Rosa teve seu livro rejeitado.
A primeira biografia de Rosa traz outra marca do autor, que já era bem conhecida pela imprensa da época, o ato incessante de anotar e de observar as pessoas, os bichos e a natureza. Ficar com o caderninho grudado é uma prática muito característica de repórter.
Outro ponto fundamental é o planejamento, o rigor de uma pesquisa, ainda que uma pesquisa para ficção. É a dedicação a uma história, não apenas ao seu conteúdo, mas à sua forma, algo que muitas vezes o jornalismo deixa passar.
Duas editoras
Leonencio Nossa foi bastante discreto ao longo destes 20 anos. Poucas pessoas sabiam do projeto antes do seu lançamento. Por mais que não pareça para o público em geral, uma das características dos jornalistas é a de se mover em silêncio. “Como vou me aproximar do meu personagem? Daqui a pouco tem personagem que não vai gostar, se afasta de você, acaba o relacionamento”, brinca.
Conta que o processo envolveu duas casas editoriais irmãs, que já haviam publicado seus livros antes e que tinham boas relações entre si: a Nova Fronteira e a Topbooks. Pode contar com pessoas muito capacitadas e editores experientes para tocarem o projeto nesses últimos anos.
Considera que este envolvimento duplo foi crucial, pois o trabalho editorial envolveu cartas, textos e documentos que demandaram atenção minuciosa para manter a fidelidade histórica. Além disso, exigiu análise de múltiplas versões da obra de Rosa e atualização às normas linguísticas.
Vida na escrita
“Esse livro, na verdade, veio para oxigenar e trazer poesia para meu cotidiano tão duro, tão árido no jornalismo, que nos últimos anos tem sido muito tóxico”, diz.
Após 22 anos no jornalismo diário, Leonencio deixou o hard news. Sua última atuação foi na liderança de um grupo de investigação do Estadão com pautas relevantes, como o orçamento secreto e as vacinas.
“Nós estamos falando de uma profissão que está enfrentando mudanças nas plataformas, não apenas da comunicação, mas da economia. Isso agravou muito o quadro profissional e também a saúde mental de todos nós. Então, especialmente nos últimos anos, no período da pandemia, em que eu também chefiava um grupo de investigação envolvendo o poder público, esse livro foi uma forma de me oxigenar, de me alimentar. Mostrar a luz ali no fim do túnel, que era bem longo naquele período todo.”
Acredita que os jornalistas têm essa responsabilidade de continuar certas histórias, que o próprio formato do ofício não permite. “Escrever esse livro foi uma forma de deliberar o ofício, a minha profissão como repórter.”
Existe uma semelhança entre este cotidiano do jornalista e do biografado. A vida de Guimarães Rosa também teve a pesquisa literária como alívio do cotidiano. Depois do Itamaraty, o contraturno de Rosa era voltado para a escrita rigorosa e criativa, um tempo em que contrastava com a rotina agitada da embaixada.
“Sem dúvida, o Itamaraty era o sustento dele. Teve momentos em que ele não suportava aquele ambiente de trabalho, isso é fato. Ele também não suportava a vida social, essas coisas todas, e o livro era uma forma de ele estar presente no mundo. E não é escapismo. é uma forma de estar presente no mundo, mas do seu jeito, nas suas condições.”

O canto das palavras
O desejo do biógrafo é que mais pessoas possam se encantar com a obra de Rosa, por mais difícil que pareça. “Vai valer a pena ter publicado esse livro se ele for incentivo a novos leitores, porque os leitores do Rosa sempre tiveram acesso ao interior dele, sabem de fato o que Rosa pensava, porque a verdade não está só na não-ficção, no jornalismo, mas também está na ficção.”
“A partir do momento em que trago o perfil e a contribuição do jornalismo, de um profissional que vem do jornalismo diário, para esse debate sobre a obra, estou, de certa forma, difundindo essa visão de mundo do escritor que é universal, que vai continuar. Não morre nunca, porque soube manusear muito bem os instrumentos da literatura e da ficção. Ele trabalhou para essa imortalidade também”. Em 1967, em seu discurso na Academia Brasileira de Letras, Rosa fincou um dos seus aforismos: “as pessoas não morrem, ficam encantadas”.
A obra de Rosa, contudo, ainda é encarada como um desafio de leitura. Existe uma aura que afasta o leitor comum. “O problema é que as pessoas querem ler e entender a obra do Rosa e, às vezes, é mais fácil ouvir a obra do Rosa. O significado das coisas não está nas palavras, mas está nessa musicalidade”, ensina.
A fala oral que Rosa tanto perseguia está no canto das palavras escritas. A sonoridade da comunicação define de onde viemos, resgata sentimentos que, por vezes, nem tínhamos consciência.
Por isso que digo, as pessoas têm que ler em voz alta como se estivessem ouvindo uma música de uma língua com a qual não é familiar, mas vai perceber do que fala a música. Assim é a obra dele. E essa musicalidade é muito Brasil.
Atualmente, Leonencio está com uma agenda ativa de participações em eventos literários e culturais para ampliar a divulgação da biografia e o contato com o público. Ele participa da Flip de Paraty, da Feira do Livro de Guaxupé (FliG) e eventos em Salvador, Vitória e Rio de Janeiro.
“Isso eu aprendi com o Guimarães Rosa: não basta botar a criança no mundo, você tem que lutar por ela, por muito tempo. Ele fazia isso com os livros dele.”◼





