Ensaio | Cabe ao jornalismo liderar a esperança?
O Estadão encabeça o primeiro grande evento sobre inovação na cidade de São Paulo, o SP Innovation Week
Painel Da província ao futuro da informação com Erick Bretas, Maria Carolina Gontijo, Carina Guedes de Carvalho e Leonardo Mendes Junior (Foto: Portal IMPRENSA)
De cara, observa-se a demanda reprimida, a quantidade de empresas dispostas a investir em inovação, a aceitação do público e a vontade de networking. Dá para entender por que o SP Innovation Week (SPIW) 2027 já foi anunciada.
O evento, uma correalização do Estadão e da Base Eventos, a mesma empresa criadora e idealizadora do Rio Innovation Week, ocorreu na atual Arena Pacaembu e na Fundação Armando Alvares Penteado (Faap), uma tradicional universidade privada nas proximidades do antigo estádio.
Este ensaio não é uma cobertura de imprensa e, por isso, não tem o formato jornalístico usado nestas ocasiões. Contudo, é o resultado de algumas anotações da minha experiência no evento, onde caminhei sem compromisso, numa “atitude anti-pauta”. Por curiosidade, segui as atrações em que jornalistas estavam participando e, por impulso ou ingenuidade, compartilho alguns insights.
Inovação X novidade
Num evento desta magnitude, pode parecer miudeza definir conceitos, mas a idealização traz toda a diferença entre uma feira de produtos de inovação e um evento de inovação.
Erick Bretas, CEO do Estadão, confirmou que a idealização não estava a cargo do Estadão, que ficou responsável pela parceria estratégica e pela cobertura. Se a curadoria estivesse nas mãos dos jornalistas, qual seria o resultado? Embora se trate de um evento de negócios e marcas, a questão central permanece: afinal, o que entendemos por inovação?
Nas palestras das quais tive a oportunidade de assistir, traziam as ideias de “fazer diferente”, “usar a nova tecnologia” ou “oferecer novos produtos”.
Inovação, de fato, pode ter muitas vertentes, mas traz embutido no seu core a ciência e a arte, uma transformação. Por isso, falamos de tecnologia e criatividade e, mais recentemente, da indústria criativa, da qual o jornalismo está inserido.
Usar uma tecnologia que todo mundo já está usando, ou “fazer diferente”, pode ser uma novidade para sua empresa, mas certamente para o mercado sua empresa ou organização já está atrasada em termos de inovação.
Da mesma forma, reutilizar formatos, como no caso do Fantástico, que levou pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA) para fazer perguntas, pode representar uma novidade relevante. Mas a verdadeira inovação poderia surgir ao incorporar essas pessoas de maneira mais profunda à construção do programa. Isso exige experimentação e coragem. Aliás, a TV brasileira é conhecida por adaptar formatos de sucesso internacionais.
O mesmo ocorre com as cópias das tecnologias estrangeiras, muitas delas circulando pela arena do Pacaembu, produtos que já são predominantes no mercado. Impactante mesmo seria expor o submarino com propulsão nuclear brasileiro da Amazul, empresa pública brasileira vinculada ao Ministério da Defesa, que tinha um stand na feira. É impossível na prática, mas possível na arte.
Trazer um robô da China é inovação? Me pergunto: para quem? E entramos aqui num outro ponto.
Inovação nacional
Jamil Chade foi convocado para o palco Palavra com o tema “A reinvenção do futuro e o redesenho de mundo no século 21”. Diz que tem certeza de que estamos vivendo uma transição, não arrisca, como os chineses que entrevistou recentemente, a elaborar um cronograma para o futuro, mas afirma: “o que eu sei é que é urgente que a gente tenha um projeto de país.”
O que está implícito no debate é a pergunta se queremos continuar a ser fornecedores de commodities para a inovação.
Avalia que há uma ruptura da ordem internacional e, no cenário mundial, o Brasil está no centro do furacão. “Precisamos decidir o que nós seremos no mundo”, reforça. Olhar para a inovação brasileira é abrir espaço para esta discussão.
Faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço
Em uma simulação do quadro “Pode Perguntar?”, do Fantástico, durante a SPIW, a jornalista Sônia Bridi ouviu uma pergunta direta: “Você sempre pensa no meio ambiente?”. Com a objetividade de quem observa o básico, respondeu que sim. E apontou para um exemplo simples: as garrafas plásticas disponíveis no palco, enquanto segurava uma delas ao lado da cadeira.
A cena levantou uma questão inevitável: é aceitável que um evento voltado à inovação ainda deixe de adotar práticas de sustentabilidade já amplamente difundidas?
Embora a programação incluísse debates sobre o tema, faltou transformar o discurso em prática. Medidas como redução de plástico, coleta seletiva, uso de energia renovável e a comunicação clara dessas iniciativas ao público deveriam fazer parte da experiência do evento.
O que o humano pode fazer por você?
A apresentação do maestro João Carlos Martins é simbólica e de grande inspiração para entendermos a diferença entre o dizer e o fazer. Realmente sabemos o que um maestro faz pela música que ouvimos? No concerto “pocket” da Orquestra Bachiana Filarmônica SESI-SP, a música regida pelo robô-maestro é sensivelmente diferente da música regida pelo maestro humano. João Carlos Martins, aos 86 anos, com suas mãos tecnológicas, demonstra coragem e esperança. Não precisa explicar, basta fazer.
A valorização do humano foi tema transversal. Mas raramente nos colocamos no lugar do outro para saber das dificuldades de realizar uma profissão. Nesse processo de transição homem-máquina, sentiremos as perdas, mas as ausências podem ser normalizadas com o tempo.
No caso do jornalismo, o diretor de redação do G1, Renato Franzini, que participou da palestra “IA, verdade e confiança”, defende que o jornalismo precisa se aproximar do público ao comunicar na própria notícia como ela foi feita e checada. “O público acha que a notícia cai na redação e que nosso trabalho é simplesmente divulgar a notícia. As pessoas não percebem os processos (jornalísticos), a apuração.” Ou seja, talvez a valorização do jornalista pelo público dependa da compreensão dos bastidores, das mazelas e da legislação que orienta a profissão que, ao menos até agora, segue sendo humana.
Ausência
Ao sair desta palestra, fui fisgada por uma artista interdisciplinar que estava divulgando sua instalação numa área remota da Faap. Solange Fabião colabora com a equipe do professor Marcelo Gleiser, cientista renomado e um dos curadores do evento. Descobri que havia uma área pouco frequentada com experimentos artísticos e tecnológicos no evento.
A obra da Solange, “No Reply Zone”, é uma instalação desconfortável, num lugar sem internet, que pretende ser uma zona de comunicação humana e de reflexão, entre sons e silêncio, excesso de informação e isolamento digital. O que me levou a imaginar algo como: o que aconteceria se todos os jornalistas do mundo deixassem de trabalhar por um dia? É hipotético, claro, assim como o antológico "Ensaio sobre a Cegueira", de José Saramago.
Informação, educação e esperança
No jornalismo, muito se discute sobre a educação midiática e o combate à desinformação. Porém, pouco se fala sobre a esperança ou a ausência dela. São palavras-chave usadas no último livro de Jamil Chade, com o prefixo referente à falta, ou ainda à manipulação da sociedade - desinformação, “falha” de educação e desesperança.
Inovação e esperança, contudo, são irmãs siamesas. Não há inovação sem esperança. Esperança no sentido do experimento, da ciência e de tudo que está envolvido nesta arte de inovar.
Anfitrião
O Estadão fez sua palestra didática para o mercado, como se fosse apenas mais uma palestra. Erick Bretas, CEO do Estadão, apresentou, na presença de Francisco Mesquita Neto, as transformações do Estadão, com ênfase nas mudanças tecnológicas ao longo dos 151 anos, reforçando a relevância e o sentido de independência editorial.
Leonardo Mendes Junior, diretor de redação, falou sobre a reformulação do time de colunistas, chamado internamente de Colunistas 3.0, em que, além de autoridade sobre o conteúdo, a produção é voltada ao digital e necessariamente com vídeo. Também é desejada a construção de comunidades em volta da personalidade.
Coube à diretora executiva de Estratégias Digitais e Mercado Leitor, Carina Guedes de Carvalho, revelar o novo site do Estadão, que será lançado em junho. A plataforma propõe uma nova experiência, por meio do uso da tecnologia para consumo em áudio ou texto, exploração estruturada e baseada em dados. O projeto inclui uma versão voltada para a geração Z, feita em parceria com o Google, é uma vertical que traz uma multiplicidade de formatos, todos praticamente gerados por IA dos conteúdos do Estadão, entregues como “snack contents”, ou seja, aperitivos.
Resta agora, passado o susto e a euforia, tirar proveito do prato principal, o SP Innovation Week. Além de representar um reposicionamento estratégico da marca do tradicional e centenário Estadão e abrir uma nova fonte de receita para a empresa, o evento traz a esperança e o potencial de fomentar o ecossistema jornalístico no Brasil. ◼





