Desafios da cidade grande

O professor Antonio Rocha Filho fala sobre os espaços do jornalismo hiperlocal dentro de uma metrópole como São Paulo

Atualizado em 16/07/2026 às 15:07, por Colunista.

Fotografia em preto e branco de uma redação. Em primeiro plano, sobre uma mesa, aparece desfocada a capa de um jornal. Ao fundo, um homem sentado lê um documento com expressão concentrada, apoiando a mão no rosto, diante de divisórias de vidro do ambiente de trabalho.

Toninho na redação de jornal Agora S.Paulo (arquivo pessoal)


Por Juca Guimarães*

A cidade de São Paulo é a maior do Brasil e tem contrastes de todos os tipos, tamanhos, volumes e direções. No começo dos anos 2000, eu era repórter e vivi de perto o desafio do Jornal Agora S.Paulo para fazer a cidadã paulistana ou o cidadão paulistano se sentirem protagonistas na cobertura do jornal.

O Agora S.Paulo foi o jornal popular do Grupo Folha, que tinha uma boa vendagem e prestígio entre os leitores.

Naquela época, conheci o Antonio Rocha Filho, o Toninho, que foi secretário de redação do Agora entre 1999 e 2013. Lembro-me de observar, nas reuniões de pauta, a atenção que era dada para que notícias e reportagens sobre os bairros periféricos e as cidades da região metropolitana estivessem sempre nas edições. Era o conceito de jornalismo hiperlocal aplicado na prática.

Perto de completar 60 anos de idade, 24 deles no Grupo Folha, conversei com o Toninho sobre os tempos de jornal, e também sobre a atual função dele como professor de jornalismo na ESPM - Escola Superior de Propaganda e Marketing.

Segue aqui como foi o papo:

Juca: Qual é o diferencial do Agora SP, na sua opinião, considerando a relação do jornal com as diversas regiões e peculiaridades da cidade?

Toninho - Acredito que o principal diferencial do Agora naquela época era fazer um jornalismo de utilidade pública imediata para regiões da cidade e da região metropolitana que não recebiam a devida atenção do poder público ou das empresas. E que também não tinham cobertura jornalística dos jornais mais tradicionais, voltados para as elites. Então, era comum fazer matérias sobre falta de luz ou problemas em serviços de telefone ou internet, em alguns casos privados, em regiões afastadas da cidade. Uma das coisas mais legais era ter a resposta dos leitores, dizendo que seus problemas tinham sido resolvidos após a intervenção do jornal.


Quais eram os principais desafios do jornal naquela época para cobrir os bairros mais periféricos da capital, que os jornalões não cobriam?
Os princípios editoriais do Agora poderiam ser resumidos em um jornalismo popular de serviços. Procurávamos trazer conteúdo jornalístico de utilidade imediata na vida das pessoas das classes B, C e D, partindo do repertório clássico do jornalismo popular: economia popular, serviços públicos (como educação, saúde, transporte e segurança), esportes (com foco em futebol), noticiário sobre celebridades, música popular e televisão.

Nossa preocupação não era fazer jornal para os moradores dos bairros mais nobres de São Paulo, já bem atendidos por veículos como Folha e Estadão. 
 

O objetivo era ajudar as pessoas de bairros mais afastados, ou mais dependentes de serviços públicos, a terem mais condições de tomar as melhores decisões em seu dia a dia.

Antonio Rocha Filho

Assim, bairros mais populosos dos extremos da cidade, como Itaquera, na zona leste, tinham nossa atenção no dia a dia. Como nosso objetivo era também comercial, pois precisávamos vender jornal, direcionávamos nossos esforços para bairros com maior população e leitores potenciais.

E a cobertura nas 40 cidades da região metropolitana?
O mesmo raciocínio valia para cidades da Grande São Paulo com população maior, caso de Guarulhos, que também recebia nossa atenção.

O Vigilante Agora (sessão diária de reportagens nas ruas, com a fiscalização de serviços públicos) surgiu de uma ideia do Nilson Camargo, diretor de Redação. A gente recebia muita demanda de leitores se queixando de problemas com serviços públicos em transporte de ônibus, escolas, hospitais, telefonia. Então, o espírito do Vigilante era realmente fiscalizar o que funcionava ou não nesses serviços. A cada dia tínhamos uma pauta diferente de serviços públicos, algumas sugeridas por leitores, outras que vinham das nossas reuniões de pauta.

Como era a organização e o planejamento do jornal, na sua gestão, para cobrir as 39 cidades da região metropolitana? 
Como cidade-sede do jornal, São Paulo tinha prioridade. Serviços fornecidos pela prefeitura e pelo governo do estado eram, em princípio, prioridade na cobertura jornalística. O foco era nas regiões mais afastadas do centro, partindo do princípio de que eram mais carentes e tinham menos atenção das autoridades. Em um primeiro momento, conseguíamos fazer isso também para as maiores cidades da região metropolitana: Guarulhos, Osasco, região do ABC. E, claro, quando tinha notícia mais forte em outras cidades ainda mais afastadas, como Franco da Rocha, por exemplo. Aí dependia muito da pauta do dia. A prioridade era sempre dar destaque ao que pesava no bolso no dia a dia das pessoas.

Com o tempo e o enxugamento do número de jornalistas na redação, com sucessivos cortes de pessoal que afetaram os jornais de uma maneira geral, esse trabalho ficou um pouco mais restrito. Mas ainda assim os bairros de periferia tinham prioridade em relação aos bairros centrais.

Como você vê hoje o jornalismo hiperlocal?
Dentro dos grandes veículos de comunicação, o jornalismo hiperlocal perdeu espaço. No início dos anos 1990, a Folha, por exemplo, tinha o projeto de cadernos regionais, que traziam noticiário diário de cidades menores do interior do estado de São Paulo, e circulavam em áreas específicas. Com os cortes de investimentos, o projeto deixou de existir alguns anos depois. Mais recentemente, em 2022, o Estadão lançou um projeto chamado Expresso Bairros que não vingou. Hoje, entre os grandes jornais brasileiros, apenas O Globo mantém espaço fixo voltado para jornalismo hiperlocal, com a seção Bairros.

O jornalismo hiperlocal existe para cumprir um papel fundamental de dar destaque em meios jornalísticos profissionais para o noticiário de regiões que não são cobertas pelos grandes veículos de comunicação, que estão mais voltados para as questões macro de política e economia, por exemplo.

Antonio Rocha Filho


Infelizmente, nos últimos anos, o que se viu foi um constante fechamento de jornais regionais e locais, o que leva a um deserto de notícias em várias regiões do país, como bem mostrado pelo Atlas da Notícia, levantamento anual feito pelo pessoal do Projor.

Na contramão dessa tendência, estão alguns veículos regionais e hiperlocais independentes, voltados para as populações das periferias, que ganharam espaço no mundo digital nos últimos anos, o que é ótimo. Entre eles, eu posso citar a Agência Mural de Jornalismo das Periferias (talvez o projeto mais bem-sucedido entre eles), o Periferia em Movimento e o Nós, Mulheres da Periferia. Tive a oportunidade de participar de uma mesa de debates no ano passado na ESPM com representantes desses três veículos independentes. Na oportunidade, eles apresentaram suas estratégias de negócios para serem sustentáveis financeiramente, o que inclui negociar com marcas e anunciantes. É a prova de que, de alguma forma, é viável fazer jornalismo hiperlocal hoje.

Como você orienta os seus alunos de jornalismo sobre o nicho de mercado do jornalismo hiperlocal, como ganhar destaque e relevância nele atualmente?
Olha, a nossa orientação na faculdade, de uma maneira geral, é fazer os alunos verem desde o início do curso que o jornalismo hoje não é mais como antigamente, no tempo em que comecei na profissão, em que só tínhamos jornal, revista, rádio e TV para trabalhar.

O cenário da comunicação digital e das redes sociais permite que novos negócios de jornalismo sejam criados sem as amarras de grandes empresas. Porém, é preciso ter noção de negócios, empreendedorismo, financiamento. Nesse sentido, há disciplinas no curso de jornalismo voltadas para o empreendedorismo e a criação de novos negócios, que podem incluir também projetos de jornalismo hiperlocal.

Os alunos são incentivados também, claro, desde o início do curso, a trabalhar em projetos voltados para o bem da sociedade, que no final das contas é o papel primordial do jornalismo.

Na formação, eles também aprendem técnicas para ganhar relevância nas redes e produzir conteúdo voltado para engajamento. Então têm os instrumentos para bolar canais legais voltados para diferentes públicos, entre eles para o jornalismo hiperlocal, voltado para comunidades e regiões específicas.◼
 

*Juca Guimarães, paulistano, é jornalista desde 1996, atua como repórter, roteirista e documentarista. Trabalhou na Folha de S.Paulo, Estado de S.Paulo, Rede Globo, Alma Preta Jornalismo, Ponte Jornalismo, entre outros.