Cavalgando a incerteza - a comunicação em meio ao caos
Entre o 'breaking news' e o streaming, como a imprensa e as inteligências artificiais disputam a atenção de um público preso em um looping constante de incertezas
Ilustração gerada por inteligência artificial
Por Flavio Ferrari
Nos países que não participam diretamente dos conflitos bélicos, como o Brasil, a vida segue com relativa “normalidade”, o que significa que as demandas cotidianas são as mesmas, independentemente de nosso estado mental.
Os desafios profissionais, entretanto, são maiores.
Falando especificamente da área de Mídia e Comunicação, a mídia (jornalismo) retroalimenta a percepção do caos, estimula a “viralização” dos temas nas redes sociais (“doomscrolling”) e intensifica o pânico. Influenciadores digitais surfam nessa onda, e informações falsas surgem aos borbotões.
O abalo na confiança é generalizado, o que torna a comunicação mais complexa, principalmente para “anunciantes”, que disputam a atenção e travam a batalha da relevância.
O impacto da incerteza
Longos períodos de incerteza ativam respostas de estresse crônico no cérebro humano, comprometendo o raciocínio lógico e aumentando a vulnerabilidade a transtornos mentais.
E "incerteza" é uma palavra que caracteriza bem a década corrente, em múltiplos aspectos (político, econômico/financeiro, social, jurídico). Como consequência, nossa mente permanece ininterruptamente ativa, produzindo e avaliando cenários, frequentemente catastróficos, sem descanso.
Psicólogos dedicados ao estudo dos transtornos de ansiedade referem-se a esse fenômeno como IU - "Intolerance of Uncertainty". [Você pode ler mais sobre isso em "Rápido e Devagar" (Kahneman), "Preparados para o Risco" (Girerenzer), "Teoria da Perspectiva" (Tversky), ou perguntar para a sua IA preferida].
Os gurus de plantão recomendam cultivar flexibilidade mental, manter o foco no que é controlável e praticar mindfulness e exercícios de reestruturação cognitiva.
Minha sugestão é Cavalgar o Tigre (vide Julius Evola), praticando o que podemos chamar de engajamento lúcido. Aceitar o que não podemos controlar, avaliar os cenários mais prováveis e tomar as decisões compatíveis com essa avaliação, procurando domar o tigre (as forças caóticas e destrutivas da civilização contemporânea) gradativamente, serenando nossa mente.
Bons futuristas não são pessimistas. Seu objetivo é apontar os cenários mais prováveis e os caminhos para obtenção dos melhores resultados em cada um deles.
Trocando a incerteza pela gestão de riscos, o que reduz a ansiedade e melhora a qualidade das decisões. Isso é cavalgar o tigre.
A cavalgada do caos
A mente dos consumidores, cuja sobrevivência se encontra ameaçada pelas incertezas, permanece no “looping” de “Breaking News”, em um círculo vicioso no qual a própria imprensa se vê capturada na luta pela audiência.
Esse gigantesco reality show, de fato, aumentou o consumo do conteúdo jornalístico, principalmente nas plataformas de streaming de vídeo (YouTube e redes sociais), e as inteligências artificiais conversacionais também ganharam o seu quinhão, sendo utilizadas para explicar (autoridade) e sintetizar os acontecimentos (curadoria especializada).
No Brasil, a multiplicidade de assuntos sensacionalistas estende o intervalo de fadiga pela alternância dos assuntos.
E os gestores da comunicação enfrentam um duplo desafio. De um lado, a “paralise” das decisões estratégicas das organizações (esperando que tudo fique menos incerto) e, de outro, a dificuldade de capturar a atenção do consumidor para temas menos estressantes e mais interessantes para as marcas.
Praticar e promover o engajamento lúcido é o caminho mais saudável, menos arriscado e com maior probabilidade de sucesso, também para as marcas.
Enquanto não somos bombardeados, enganados, falsamente acusados e presos (as incertezas e inseguranças), que tal saborear um bom café, tomar banho com o melhor sabonete e saborear uma deliciosa comida caseira (sem alimentos ultraprocessados) em boa companhia, mantendo a sanidade necessária para atuar da melhor forma possível, identificando riscos e oportunidades?
Adquirir esse hábito pode ser útil, principalmente se considerarmos que estamos em um ano eleitoral e as campanhas políticas costumam ser ricas em arautos do apocalipse. ◼

*Flavio Ferrari é fundador do hub SocialData, professor de análise estratégica de cenários futuros na ESPM e autor do livro “O Sexto Poder – algoritmos, inteligências artificiais e reputação digital” (2025).





