Cavalgando a incerteza - a comunicação em meio ao caos

Entre o 'breaking news' e o streaming, como a imprensa e as inteligências artificiais disputam a atenção de um público preso em um looping constante de incertezas

Atualizado em 10/03/2026 às 11:03, por Colunista.

Ilustração gerada por inteligência artificial com uma mulher sorridente, vestindo terno escuro, sentada sobre uma estátua dourada de tigre enquanto segura um celular erguido como se estivesse tirando uma selfie. Ao fundo há um cenário caótico com fogo, fumaça, destroços, veículos danificados e um avião no céu, sugerindo uma situação de desastre ou guerra.

Ilustração gerada por inteligência artificial

Por Flavio Ferrari

Nos países que não participam diretamente dos conflitos bélicos, como o Brasil, a vida segue com relativa “normalidade”, o que significa que as demandas cotidianas são as mesmas, independentemente de nosso estado mental.

Os desafios profissionais, entretanto, são maiores.

Falando especificamente da área de Mídia e Comunicação, a mídia (jornalismo) retroalimenta a percepção do caos, estimula a “viralização” dos temas nas redes sociais (“doomscrolling”) e intensifica o pânico. Influenciadores digitais surfam nessa onda, e informações falsas surgem aos borbotões. 

O abalo na confiança é generalizado, o que torna a comunicação mais complexa, principalmente para “anunciantes”, que disputam a atenção e travam a batalha da relevância.

O impacto da incerteza

Longos períodos de incerteza ativam respostas de estresse crônico no cérebro humano, comprometendo o raciocínio lógico e aumentando a vulnerabilidade a transtornos mentais.

E "incerteza" é uma palavra que caracteriza bem a década corrente, em múltiplos aspectos (político, econômico/financeiro, social, jurídico). Como consequência, nossa mente permanece ininterruptamente ativa, produzindo e avaliando cenários, frequentemente catastróficos, sem descanso.

Psicólogos dedicados ao estudo dos transtornos de ansiedade referem-se a esse fenômeno como IU - "Intolerance of Uncertainty". [Você pode ler mais sobre isso em "Rápido e Devagar" (Kahneman), "Preparados para o Risco" (Girerenzer), "Teoria da Perspectiva" (Tversky), ou perguntar para a sua IA preferida].

Os gurus de plantão recomendam cultivar flexibilidade mental, manter o foco no que é controlável e praticar mindfulness e exercícios de reestruturação cognitiva.

Minha sugestão é Cavalgar o Tigre (vide Julius Evola), praticando o que podemos chamar de engajamento lúcido. Aceitar o que não podemos controlar, avaliar os cenários mais prováveis e tomar as decisões compatíveis com essa avaliação, procurando domar o tigre (as forças caóticas e destrutivas da civilização contemporânea) gradativamente, serenando nossa mente. 

Bons futuristas não são pessimistas. Seu objetivo é apontar os cenários mais prováveis e os caminhos para obtenção dos melhores resultados em cada um deles. 
 

Trocando a incerteza pela gestão de riscos, o que reduz a ansiedade e melhora a qualidade das decisões. Isso é cavalgar o tigre.

A cavalgada do caos

A mente dos consumidores, cuja sobrevivência se encontra ameaçada pelas incertezas, permanece no “looping” de “Breaking News”, em um círculo vicioso no qual a própria imprensa se vê capturada na luta pela audiência. 

Esse gigantesco reality show, de fato, aumentou o consumo do conteúdo jornalístico, principalmente nas plataformas de streaming de vídeo (YouTube e redes sociais), e as inteligências artificiais conversacionais também ganharam o seu quinhão, sendo utilizadas para explicar (autoridade) e sintetizar os acontecimentos (curadoria especializada). 

No Brasil, a multiplicidade de assuntos sensacionalistas estende o intervalo de fadiga pela alternância dos assuntos.

E os gestores da comunicação enfrentam um duplo desafio. De um lado, a “paralise” das decisões estratégicas das organizações (esperando que tudo fique menos incerto) e, de outro, a dificuldade de capturar a atenção do consumidor para temas menos estressantes e mais interessantes para as marcas.

Praticar e promover o engajamento lúcido é o caminho mais saudável, menos arriscado e com maior probabilidade de sucesso, também para as marcas.

Enquanto não somos bombardeados, enganados, falsamente acusados e presos (as incertezas e inseguranças), que tal saborear um bom café, tomar banho com o melhor sabonete e saborear uma deliciosa comida caseira (sem alimentos ultraprocessados) em boa companhia, mantendo a sanidade necessária para atuar da melhor forma possível, identificando riscos e oportunidades?

Adquirir esse hábito pode ser útil, principalmente se considerarmos que estamos em um ano eleitoral e as campanhas políticas costumam ser ricas em arautos do apocalipse. ◼
 

*Flavio Ferrari é fundador do hub SocialData, professor de análise estratégica de cenários futuros na ESPM e autor do livro “O Sexto Poder – algoritmos, inteligências artificiais e reputação digital” (2025).