“Brasil 70”, da Netflix, emociona sem passar pano para a ditadura

A produção permitiu ao público se emocionar sem culpa

Atualizado em 05/06/2026 às 10:06, por Colunista.

Cena do making of da série

Cena do making of da série "Brasil 70" (reprodução YouTube)


Pedro Venceslau* 

Fiquei ressabiado quando a Netflix anunciou a série “Brasil 70: a saga do tri”. 

Achei a ideia ótima e oportuna, mas pairou um receio: será que a produção vai passar um pano para a relação promíscua entre a melhor seleção de todos os tempos e a ditadura militar? 

Ouvi muitas histórias de presos políticos e militantes que ficaram divididos entre torcer contra ou a favor do time de Pelé e companhia.

Mas como não amar aquele time? 


Aos fatos históricos

O general sanguinário Emílio Garrastazu Médici chegou ao Palácio do Planalto em outubro de 1969, quando a seleção era comandada pelo jornalista comunista João Saldanha. 

A dois meses da Copa, porém, ele foi demitido sumariamente após comandar o time em uma campanha brilhante na fase de classificação. 

“Era difícil tolerar um cara com longa trajetória no Partido Comunista Brasileiro ganhando força, debaixo da bochecha deles”, justificaria Saldanha. 

Com Zagalo à frente, a Seleção foi para o México assediada pelo regime. Pelé, o ídolo, cedeu e aceitou ser garoto-propaganda da ditadura. 

Os treinamentos foram comandados por uma comissão técnica fardada, liderada pelo preparador físico Cláudio Coutinho, que era capitão do Exército.

Uma matéria da BBC, de 2020, lembra ainda que o chefe da delegação era o brigadeiro reformado Jerônimo Bastos, diretor de esportes da CBD (Confederação Brasileira de Desportos**), e que ele nomeou o major Roberto Câmara Lima Ypiranga de Guaranys como encarregado da segurança. 

Esse foi apontado pela Comissão Nacional da Verdade como um dos torturadores do regime militar e homem de confiança do presidente Médici, a quem reportava diretamente sobre o dia a dia da seleção. 


À série

Foi muito bom constatar que a Netflix não passou pano para a ditadura e nos permitiu sentir emoção sem culpa.

Produzida em parceria com a O2 Filmes, traz cenas originais e recriação digital de partidas históricas, mixando com as gravações encenadas. O set de filmagem foi cercado por chroma key e a edição alternou cortes rápidos com slow motion e muita tecnologia digital.

A minissérie, com cinco episódios, mistura cenas bem coreografadas de jogadas com os bastidores da instrumentalização do time pela ditadura. E revela como Pelé aceitou cumprir esse papel, apesar dos protestos dos colegas. 

‘Brasil 70’ cumpre o papel de conectar a torcida com a Copa e ajuda a mostrar às novas gerações o risco de misturar futebol e política.

Pedro Venceslau


**Confederação Brasileira de Desportos: Era a entidade máxima que administrava o futebol brasileiro, além de outros esportes, antes da criação da atual CBF
 


*Pedro Venceslau foi diretor de redação de IMPRENSA e, hoje, é analista da CNN Brasil.