“A universidade, assim como o jornalismo, precisa reter sua independência, e não apenas ser outro braço do império”, diz Karen Hao
Cercada por jornalistas, a autora apresentou seu best-seller “O Império da IA” durante o Esquenta do Congresso da Abraji, na USP
Karen Hao durante sua palestra, mediada pela cientista da computação Nina da Hora e pela jornalista Tatiana Dias (Alexandra Itacarambi/ Portal IMPRENSA)
Após rodar o mundo, a jornalista e engenheira americana Karen Hao veio ao Brasil para lançar seu livro best-seller “O Império da IA” (Editora Rocco). Só em 2026, ela participou de 36 conferências em 15 países, além de viajar para vários estados americanos.
Com o discurso bem afiado e um livro documentado à exaustão, afinal o risco de processo é um dos maiores medos, Karen Hao participou do Esquenta do Congresso da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), no dia 30 de junho, no Centro Cultural Camargo Guarnieri, na USP.
Além do evento que marcou o lançamento do livro em português, concedeu entrevistas exclusivas ao longo da semana para O Globo, Uol, Agência Pública, BBC Brasil, entre outros.
Karen foi a primeira jornalista a fazer o perfil da empresa OpenAI em 2019, quando exercia a função de editora da MIT Technology Review. Atualmente, faz parte do conselho do AI Now, um instituto de pesquisa que questiona e reimagina a trajetória atual do desenvolvimento da IA. É co-criadora da “AI Spotlight Series” do Pulitzer Center, um programa que capacita milhares de jornalistas ao redor do mundo a cobrir o tema da IA, e da “AI Resist List”, um projeto que contesta a narrativa de inevitabilidade do Vale do Silício ao destacar movimentos de base globais que cobram responsabilidade do setor.
A jornalista, uma voz ativa e bem informada, embarcou na missão de conscientizar o mundo sobre as estratégias e as narrativas usadas pelas big techs, em geral, e OpenAI, em específico. Entre os principais tópicos, analisa a estrutura de poder em detrimento da exploração (dados, recursos humanos e naturais), as evidências de uma bolha no mercado financeiro, a narrativa do bem contra o mal e o misticismo que envolve o setor.
Karen expõe com profundidade, e sem entrar no “tecniquês”, como a estrutura de poder foi desenvolvida pelas big techs e como as decisões tomadas dentro da OpenAI moldaram muito do que sabemos hoje sobre inteligência artificial e seu impacto na sociedade.
Nesta nota para o Portal IMPRENSA, vou me ater a alguns pontos estratégicos para o jornalismo: o interesse público, a resistência versus a cooptação e as alternativas.
Interesse público
Karen se formou como engenheira no MIT (Massachusetts Institute of Technology) antes de se tornar jornalista, o que facilitou entender a cultura, a linguagem, os vícios do setor e, principalmente, facilitou seu acesso às fontes. Diz que seu trabalho foi pautado pelo interesse público, e é esse ponto que move a investigação jornalística.
Percebi que o sistema de inovação foi configurado para o desenvolvimento da tecnologia que minava o interesse público.
Seu livro abre com a citação de um professor do MIT, Joseph Weizenbaum, que foi um dos primeiros pesquisadores que fundou a disciplina de IA. Conta que ele possuía uma visão crítica e, em sala de aula, dizia que o importante de entender a tecnologia é para desvendar a magia em torno dela, desvendar o misticismo, explicá-la em linguagem fácil de entender, para que qualquer pessoa possa se engajar e participar democraticamente da governança da tecnologia.
O “antídoto” está no conhecimento e é por isso que o jornalismo e a universidade se tornam tão importantes, não só na conscientização, mas também na busca por alternativas de interesse público. “Quando jogamos luz nos imperadores e na ideologia que está por trás, a gente entende para que essas máquinas servem de verdade.”
Resistência
“A universidade, como um centro de produção de conhecimento, assim como o jornalismo, precisa reter sua independência, e não apenas ser outro braço do império, produzindo conhecimento em torno de um império para perpetuar a sua expansão.”
Acredita que é preciso resistir em relação às parcerias com as big techs. No caso das universidades, mas que também pode servir para as novas iniciativas jornalísticas, explica que o problema das parcerias é que, se os alunos são educados a achar que essas tecnologias são neutras e que eles deveriam, de fato, integrá-las na sua produção de conhecimento, eles ficam dependentes deste sistema.
Então, o império atinge o objetivo, ou seja, eles introduzem a geração de conhecimento para ser extensões do que o império quer.
Na sua visão, o objetivo da educação é criar pessoas que propõem mudanças na sociedade, que têm capacidade de livre-arbítrio, que entendem a forma que o mundo está e que podem projetar a forma que o mundo deveria ser.
“Eu acho que precisamos reforçar que, se a educação está mudando muito lentamente para a tecnologia, nós devemos ver como educar pessoas para mudar a velocidade da tecnologia.” Como? Não há uma única resposta, o caminho é coletivo, precisa envolver a universidade, estudantes, professores, parentes, membros da comunidade, para pensar possibilidades sobre como reinventar as instituições da tecnologia.
É necessário cobrar responsabilidade do setor para também frear o seu avanço. “Não se trata apenas de levantar a voz, mas de desacelerar a indústria de tecnologia. O que vimos no último ano foi realmente notável: uma enorme mobilização de base floresceu em todo o mundo justamente para isso, especialmente no que diz respeito aos protestos contra os data centers. Nos EUA, no ano passado, protestos contra os data centers travaram projetos do setor avaliados em cerca de 150 bilhões de dólares. Isso freou ativamente a indústria e tornou-se uma grande preocupação para o setor de tecnologia.”
Cooptação
O modus operandi é o mesmo do colonialismo, e isso está bem documentado no livro. Explica no evento da Abraji que estas empresas insistem em financiar organizações sociais, instituições de ensino ou outros tipos de entidades, como o jornalismo, porque reconhecem estar envolvidas em um modelo de desenvolvimento de IA baseado em uma lógica de exploração e extração de curto prazo. É uma maneira de obter a permissão e capturar cada instituição.
Não é à toa que as associações de imprensa, no Brasil e no mundo, estão sendo financiadas pelas big techs, não só para realizar seus eventos, mas para manter seus custos fixos.
“Obviamente, eles também entendem que sua estratégia surge em um momento em que todos esses diferentes setores estão realmente sofrendo financeiramente. Há, portanto, enormes dificuldades na indústria de mídia, em certos segmentos da sociedade e também nas instituições públicas. Assim, a quantia que eles destinam a essas instituições para cooptá-las é irrisória; ela sequer reflete o valor real do trabalho ou dos ativos que estão sendo adquiridos.”
Segundo a autora, que respondeu aos questionamentos dos jornalistas presentes no auditório da USP, a forma de resistir, além de evitar as parcerias, é continuar investigando essas empresas e desvendando o império. É continuar mostrando as falhas ideológicas, as práticas financeiras essenciais e a destruição ambiental que sustenta as atividades desses impérios. “Em segundo lugar, acho que eles precisam resistir à cooptação, abandonando esses modelos de código fechado, nos quais, a cada uso, você fornece dados e sua propriedade intelectual.”
É importante ressaltar que a jornalista não é contra a tecnologia, o jornalismo pode se beneficiar da IA, sem se associar a essas empresas. Ela acha que precisamos, como indústria, investir em desenvolvimento de soluções de IA vindo de jornalistas e para jornalistas.
Alternativas
Durante o “esquenta” da Abraji, listou várias iniciativas, algumas abordadas no seu livro e outras em sua lista de resistência. “Há uma investigação do The New York Times, vencedora do Prêmio Pulitzer, que utilizou modelos de visão computacional para determinar quantas bombas de 2 mil libras foram lançadas sobre Gaza. Eles ensinaram seus próprios modelos para detectar isso”, conta.
Cita também o projeto de uma organização chamada Te Hiku Media na Nova Zelândia, que ilustra que é possível realizar um desenvolvimento ético de IA. Trata-se de um projeto de aprendizado linguístico, para preservar e ensinar a língua nativa, por meio de um processo colaborativo, incluindo o consenso, a participação e a soberania da comunidade.
Para Karen, há um processo de amadurecimento que ainda precisa acontecer. Precisamos de mais alternativas que não sejam cooptadas pelas big techs, mas também de mais organizações que auditem os diferentes sistemas de IA para garantir que sejam desenvolvidos de forma ética e sustentável, da mesma maneira que já fazemos com outros setores da indústria.
“Lembrem-se de que a IA não é inevitável. Todos nós temos o poder de mudar a trajetória do desenvolvimento da IA, e cada um de vocês tem um papel a desempenhar no fortalecimento do nosso futuro coletivo,” finaliza. ◼





