A lua e o eclipse da imprensa

Lucas Mendes discorre sobre o contraste entre o brilho das estrelas do jornalismo americano e o declínio do setor

Atualizado em 13/04/2026 às 18:04, por Colunista.

Fotografia em preto e branco de homem de meia idade em um estúdio da década de 1950, vestindo terno e segurando um cigarro. Ele posa em frente a monitores que exibem sua própria imagem, cercado por painéis de controle e uma câmera de TV pesada. A iluminação é dramática e contrastada, transmitindo uma atmosfera séria e histórica.

O renomado jornalista e radialista Ed Murrow em estúdio de televisão (Corbis Historical/ CBS)


Por Lucas Mendes*

Quando Apolo 11 desceu na lua em 1969, 30 milhões de americanos assistiram pela rede CBS. A missão Artemis esta semana teve audiência entre 2 e 4 milhões. Explicam a imensa queda pela fragmentação da mídia. Só o YouTube da NASA tinha 4 milhões.

Eu cobri todas as missões da NASA, da Apolo 8 à tragédia do Ônibus Espacial. Assistia ao lançamento do cabo Kennedy na Flórida e saía para a NASA no Texas. Não sinto saudades da NASA, mas sinto das fontes de um jornalismo brilhante em fase minguante, talvez em extinção, em especial da CBS.

Foi lá que Ed Murrow promoveu e praticou um jornalismo pioneiro nas TVs que, além de informar, confrontava governo e poderosos. As denúncias dele desmontaram o macartismo e as perseguições. 

Depois dele veio Walter Cronkite, campeão de credibilidade durante uma geração. Quando criticou a guerra do Vietnã, o presidente Johnson comentou: "se perdi Cronkite, a guerra está perdida". Numa entrevista na casa dele, perguntei se o Vietnã tinha sido o momento mais difícil da carreira. Cronkite disse que foi o de anunciar a morte de John Kennedy. Ele engasgou, lacrimejou e anunciou…. Ancorou durante 19 anos. 

Depois dele, o repórter Dan Rather confrontou Nixon no Watergate e tornou-se o mais longevo dos âncoras, 24 anos. O outro artilheiro do time era Mike Wallace, um dos criadores do 60 Minutes, o mais influente programa de jornalismo durante quase 40 anos. O programa ainda existe, mas com prestígio em queda. A da CBS mal chega a 4 milhões, ABC tem 8 milhões e NBC 6,5.

60 Minutes foi responsável pelo Manhattan Connection. A diretora do GNT, Leticia Muhana, queria começar no canal a cabo uma versão brasileira. Quando ela me deu o orçamento, eu disse que seria possível fazer, no máximo, um segmento de 13 minutos e olhe lá. Sugeri um programa de bancada com o Paulo Francis e mais dois ou três jornalistas. Foi aprovado em minutos, durou 27 anos só na Globo e continua vivo na quinta ou sexta reencarnação. Mistérios do espiritismo no jornalismo. 

Estes jornalistas que citei batiam firme, foram modelos e referências em universidades e redações, mas um dos meus favoritos não batia. Contava histórias sem violência, crimes milionários nem poderosos.

Lucas Mendes

Charles Kuralt se apaixonou pelo jornalismo quando era adolescente e entregava jornais de porta em porta numa cidade pequena. O primeiro emprego foi em uma rádio onde contava histórias de 2 minutos e foi descoberto pela CBS, onde criou um programa simples, barato e extraordinário chamado "On the Road". Ele viajava num trailer pelo país só com um cinegrafista. Contava histórias gratificantes em pequenas cidades sobre desconhecidos, árvores, bichos ou fatos que comoviam o país pela simplicidade e originalidade. Poder e dinheiro não tinham a menor relevância.

Eu fiquei com inveja e pedi ao Alberico Sousa Cruz, chefe do jornalismo na Globo, para me levar para o Brasil e colocar num trailer e sair do Oiapoque ao Chuí, com um cinegrafista para tomar o pulso do país, antes da nossa primeira eleição depois da ditadura: Collor x Lula. O chefe gostou tanto que criou o projeto “Brasil de Carona”, mas convocou o Pedro Bial, que se saiu muito bem. Ele é craque. 

Este jornalismo de grandes redes nos Estados Unidos ou no Brasil depende de audiência massiva, simultânea e publicidade concentrada. É um modelo ameaçado de extinção. Nunca tivemos tantas informações disponíveis e tão pouco confiáceis, nem com inteligência artificial. ◼
 

Lucas Mendes é jornalista, fundador e apresentador do programa Manhattan Connection, criado em 1993. Em 2015, foi agraciado com o Prêmio Maria Moors Cabot, o mais antigo prêmio internacional de jornalismo dos Estados Unidos. 
Lucas escreveu a coluna “Manhattan” para a revista IMPRENSA de 1991 a 1994.