60 MINUTOS: HORA MARCADA PARA MORRER?
Referência do telejornalismo americano, o "60 Minutes" vive uma crise sem precedentes e expõe tensões envolvendo Trump, a venda da emissora e mudanças no comando do jornalismo
Scott Pelley no jornal 60 Minutes (Reprodução YouTube)
Por Lucas Mendes*
Os demolidores da liberdade de imprensa bateram de novo na porta do mais antigo, respeitado e visto jornal da televisão americana, o “60 Minutes”. Desta vez, foram mal recebidos. O programa já tinha sofrido duas decapitações, uma no comando do jornalismo da rede e a outra no comando do programa “60 Minutes”, que a imprensa americana chama de "venerável".
As mutilações começaram quando o bilionário amigo do presidente, dono da Paramount Global que é dona da CBS, decidiu comprar outra gigante de comunicações e entretenimento, a Skydance. Isto exigia aprovação do presidente, que aproveitou para reforçar sua disposição de acabar com opiniões independentes. Processou a CBS por 20 bilhões de dólares pela edição de uma entrevista da candidata Kamala Harris no “60 Minutes”.
Os maiores advogados disseram que o número era absurdo e o processo era frouxo, sem a menor chance de ganhar na justiça.
O dono e o filho, David e Larry Ellison, amigos do presidente, queriam evitar briga. Preferiram comprar a paz com o presidente, doando 16 milhões de dólares para sua biblioteca presidencial. Funcionou.
A fusão foi aprovada ano passado e começaram demissões. Dos sete principais correspondentes ficaram quatro, Anderson Cooper já tinha saído antes. Scott Pelley, o principal jornalista, botou a boca no mundo, uma raridade na vetusta CBS. Contou que recebeu sugestões para abrandar a matéria sobre os conflitos em Minneapolis entre os manifestantes e agentes do ICE. Queriam que enfatizasse a agressividade dos manifestantes e dissesse que a motorista morta a tiros teria tentado atropelar o policial. Scott Pelley disse que não era o que as imagens mostravam. A direção segurou a matéria como forma de pressão e só liberam 19 minutos antes do programa entrar no ar.
A nova diretora-chefe Bari Weiss provocou mais quatro demissões e saídas de correspondentes veteranos. O novo editor executivo do programa, Nick Bilton, documentarista e especialista em tecnologia com currículo modesto em jornalismo, agravou a crise quando convocou uma reunião com o time do “60 Minutes”.
Aos 15 minutos, foi interrompido pelo correspondente Scott Pelley e acusado de estar assassinando o programa. Enumerava os crimes editoriais quando foi cortado pelo chefe, que convocou todos para um lanche e deixou a sala.
Scott Pelley foi aplaudido pelo time e demitido na mesma noite. Depois de receber garantias que não haveria mais interferência editorial. Três veteranos decidiram ficar porque não querem que o programa morra.
E agora? Até quando e em quais mídias o jornalismo vai resistir ao trumpismo?
‘60 Minutes’ foi a primeira revista eletrônica do jornalismo. Está fazendo 62 anos e ainda na liderança de audiência, com mais de 9 milhões de telespectadores ao vivo no domingo à noite.
O “60 Minutes” teve um crescimento de 9 por cento na audiência ano passado e na última temporada ficou entre os 5 programas de maior audiência em todas categorias não só jornalismo.
Dos telejornais de rede, só o da ABC dá 7 milhões; a Fox, 4 milhões; NBC e MSNBC, mais liberais, estão entre 2 e 4 milhões. Até as décadas anteriores à mídia digital, davam audiências entre 30 e 40 milhões.
Na televisão, o jornalismo foi a maior vítima, mas a imprensa também não foi poupada. Ficaram sobreviventes relevantes e prósperos. Os maiores líderes são o New York Times, que passou de jornal para plataforma digital, com 11 milhões de assinaturas pagas e uma redação com mais de 1.700 jornalistas. Acabaram de subir o preço da assinatura. Wall Street Journal, Financial Times e The Economist também têm maior audiência e mais leitores nas plataformas digitais.
Entre as revistas, The New Yorker, The Atlantic (uma ressurreição) e Foreign Affairs cresceram em influência. Washington Post, Los Angeles Times e Chicago Tribune perderam terreno, mas resistem.
Os grandes derrotados que dominaram o século 20 foram Time e Newsweek, ainda vivos, e Life, que sobrevive como arquivo fotográfico e algumas edições comemorativas e conteúdo digital.
O maior fenômeno editorial do século 20 foi Reader’s Digest, com 20 milhões de assinantes e 70 milhões de leitores no mundo, em 20 línguas.
Ainda resiste com 1,6 milhão em circulação e 10 milhões no mundo, podendo ser considerada uma sobrevivente. ◼

*Lucas Mendes é jornalista, fundador e apresentador do programa Manhattan Connection, criado em 1993. Em 2015, foi agraciado com o Prêmio Maria Moors Cabot, o mais antigo prêmio internacional de jornalismo dos Estados Unidos.
Lucas escreveu a coluna “Manhattan” para a revista IMPRENSA de 1991 a 1994.





