250 anos. Parabéns! Quem merece?

Lucas Mendes aponta dois influenciadores essenciais na revolução americana e realça as semelhanças entre o passado e o presente na política dos EUA

Atualizado em 07/07/2026 às 10:07, por Colunista.

O Massacre de Boston representado por Paul Revere (Reprodução/ Biblioteca do Congresso Americano)


Por Lucas Mendes*

A praia deste portal é jornalismo e comunicação, vamos deixar Trump para o final e aproveitar para falar bem de dois influenciadores essenciais na revolução americana e criação dos Estados Unidos. O panfletista Thomas Paine, pelos seus textos e postagens, e o outro, Paul Revere, pelas suas imagens e ações. Os dois sempre foram reconhecidos, mas não estão entre os mais destacados nas festas. 

Podemos classificar Paine e Revere como influenciadores mais ativos no movimento que ainda estava na fase dos protestos. Nenhum dos dois completou os estudos. Paul Revere nem entrou numa escola. Começou como sapateiro analfabeto, aprendeu a ler sozinho, virou dentista e depois ourives. Criou em bronze a imagem do Massacre de Boston, soldados ingleses fuzilando colonos desarmados e pacíficos. Foi impressa e reproduzida nas treze colônias com imensa repercussão. Viajava promovendo a causa e entrou para a história e para a literatura com o poema de Wadsworth Longfellow, Paul Revere's Ride, a "A cavalgada da meia-noite". Ele descobriu quando os ingleses iam atacar e passou a noite galopando pelas cidades, alertando que os invasores estavam a caminho. Chegaram e foram recebidos a tiros. 

Thomas Paine era inglês, estudou até os 13 anos e foi trabalhar com o pai que fazia e vendia “corsets” (espartilhos). Aprendeu sozinho história, política, leis, fez um concurso público e se tornou coletor de impostos. Se arrependeu, escreveu um panfleto criticando as péssimas condições de trabalho, imprimiu e distribuiu até no parlamento. O protesto fracassou, perdeu o emprego, mas tinha feito ótimas conexões e chegou na Filadélfia uma carta de apresentação de Benjamin Franklin. Mudou a vida dele e a história deste país. 

Os Estados Unidos não existiam, eram 12 colônias inglesas. Franklin representava os interesses delas junto à coroa. A Filadélfia era um dos principais focos de resistência à monarquia e Paine criou o panfleto “Common Sense”. E como panfletou. Colava em postes, muros, esquinas e armazéns. Ele foi o principal promotor da ideia de independência quando ainda não era uma das principais reivindicações, raramente aparecia. A ideia de uma Declaração de Independência pegou fogo a partir daí, mas havia resistência. Nova York publicou uma Declaração de Dependência. Durante alguns anos, os colonos tiveram boa convivência com os soldados ingleses, que viam como protetores contra franceses e índios. Sem alojamentos, os militares pagavam aluguéis, conviviam em paz, consumiam, a cidade prosperava.

A história mudou e você sabe onde estamos. O ponto aqui era realçar as semelhanças entre influenciadores e comunicadores de ontem e hoje e terminar com uma pergunta: Qual é a diferença entre eles, além dos algoritmos?

 

Voltamos com Trump e parabéns para os Estados Unidos pelos 250 anos de uma democracia que serviu de modelo para tantos países e agora pode servir de modelo de desconstrução com um presidente que não aprecia democracias, jornalistas nem informação correta.

Lucas Mendes


Esta semana, numa entrevista com um jornalista cordial, Trump não foi capaz de citar um presidente que ele admira. O entrevistador levantou a bola com uma pergunta fácil e previsível: - Entre os 45 presidentes, quem Trump mais admirava? Ele respondeu: “Este país teve péssimos presidentes". 

Uma verdade, para variar. Qual é o pior deles? James Buchanan, que presidiu antes da guerra civil, divide com Trump o último lugar em várias pesquisas, mas no "Presidential Greatness Project de 2024", um levantamento mais específico entre acadêmicos, nele Trump é o campeão dos piores presidentes americanos. ◼

PS: Conexões revolucionárias. Tiradentes tinha 29 anos quando ouviu as notícias da Declaração de Independência americana, em 1776, se entusiasmou com elas e começou a promovê-las. Ele como Paul Revere foram autodidatas, tinham arrancado dentes, foram ourives e fizeram bicos antes das suas conversões revolucionárias. Tiradentes foi preso no ano da Revolução Francesa, 1789, enforcado e esquartejado três anos depois por crime de lesa-majestade. Tinha 45 anos. Paul Revere se tornou empresário e morreu rico aos 83. 
 

*Lucas Mendes é jornalista, fundador e apresentador do programa Manhattan Connection, criado em 1993. Em 2015, foi agraciado com o Prêmio Maria Moors Cabot, o mais antigo prêmio internacional de jornalismo dos Estados Unidos. 
Lucas escreveu a coluna “Manhattan” para a revista IMPRENSA de 1991 a 1994.