Segunda-feira, 5 de outubro de 2026 ■ MPJ · Mais Pelo Jornalismo

Zuenir Ventura, em entrevista exclusiva de 2013, conta como era atuar nos anos de chumbo

"Foi como se retirassem da gente o ar", diz Zuenir Ventura sobre a censura

Zuenir Ventura sorrindo
Jornalista foi preso durante a ditadura e fala sobre a censura (Crédito: Marcelo Tabaco)

Com a morte o jornalista e escritor Zuenir Ventura, um dos nomes mais importantes do jornalismo brasileiro, aos 95 anos, nesta terça-feira, IMPRENSA resgata uma entrevista, de 13 de dezembro de 2013, para lembrar os 45 anos da instauração do Ato Institucional nº 5 (AI-5) e suas consequências para o trabalho da imprensa no período.

A principal medida do chamado "golpe dentro do golpe" foi a instalação da censura prévia às artes e jornalismo, calando qualquer tipo de oposição ao governo militar. Em entrevista exclusiva, Zuenir Ventura conta como era atuar nos anos de chumbo.

 Por Vanessa Gonçalves e Alana Rodrigues*

Zuenir Ventura, em entrevista exclusiva de 2013, conta como era atuar nos anos de chumbo

O golpe civil-militar de 1964 deu uma rasteira na democracia, instaurando no Brasil um período de trevas que duraria 21 anos. Logo no início, os verdugos mostraram a que vieram, excluindo a oposição, independentemente de onde ela partisse.

No entanto, não contavam que estudantes, intelectuais, artistas, jornalistas e profissionais liberais iriam às ruas se opor ao estado de terror. Em 1968, o Brasil e o mundo chacoalharam com a ascensão dos movimentos sociais e culturais. Temendo perder o comando do País, os comandantes militares resolveram dar um golpe dentro golpe, usando como desculpa o discurso do jornalista e deputado Márcio Moreira Alves, que insuflou o povo a não comemorar o 7 de setembro com os soldados.

O escritor inglês Charles Dickens, que havia morrido há quase 100 anos, não imaginava de um texto seu pudesse expressar com tanta clareza o que seria aquela sexta-feira 13 de dezembro de 1968.

"Era o melhor de todos os tempos, era o pior de todos os tempos, era a idade da sabedoria, era a idade do disparate, era a época da fé, era a época da desgraça, era a estação da lua, era a estação da treva, era a primavera da esperança, era o inverno do desespero, tínhamos tudo à nossa frente, em suma, era uma época tão semelhante à atual, que algumas das suas mais espalhafatosas autoridades insistiam em ser aceitas, para o bem ou para o mal,apenas no grau superlativo: deuses ou demônios".

Com a instauração do Ato Institucional no. 5 (AI-5), o Brasil passou a viver "falando de lado e olhando pro chão", temendo que uma falsa denúncia ou uma ideia mal expressada pudesse resultar em prisão, torturas e morte.

Grande parte da mídia, que apoiou o golpe em 31 de março de1964, acabou amordaçada pela censura imposta pelo novo Ato.

 Zuenir Ventura, um dos principais jornalistas do período, revela nessa entrevista à IMPRENSA o que significou o AI-5 para aqueles que tinham como profissão a arte de informar.

IMPRENSA - Onde estava e como ficou sabendo do AI-5? Esperava que o governo militar fosse estreitar tanto a democracia naquela época?

ZUENIR VENTURA - Estava vendo televisão quando o Ato foi anunciado. Recebi logo o telefonema de um amigo empresário, insuspeito, dizendo: “Passo aí agora”. Fui para a casa dele e lá fiquei por muitos dias. Pelo menos nós, que nos opúnhamos ao governo militar, não esperávamos tanto rigor e nem que fosse durar tanto. Os amigos de Costa e Silva dizem que ele esperava e acreditava que o Ato terminaria logo. Ele terminou antes [então presidente em 1968, ele sofreu uma uma trombose cerebral em agosto do ano seguinte, falecendo em dezembro de 69].

IMPRENSA - Na sua opinião, a censura instituída pelo Ato já estava sendo preparada pelos militares ou foi uma consequência deste golpe dentro do golpe?

ZN- Havia dentro do governo militar a disputa entre duas correntes: a “linha dura”, que agia para endurecer ainda mais o regime, e a turma do Costa e Silva, mais liberal, digamos. Venceu a primeira.

IMPRENSA - Qual foi o impacto do AI-5 para o trabalho na imprensa? Como isso interferiu diretamente no seu trabalho?

ZN- Foi como se retirassem da gente o ar. Para quem escreve, a liberdade é o ar que respiramos. Não por acaso, essa época é chamada de “anos do sufoco”. Como trabalhava numa revista especializada, de economia, sofri muito menos do que os colegas de veículos mais visados, como jornais, revistas semanais e noticiário de TV.

IMPRENSA - Você foi preso em 1968 acusado de atividades subversivas. Qual foi o real motivo de sua detenção?

ZN - Sempre achei que jornalista não deve ter partido político. Portanto, nunca fui filiado a qualquer um deles. Mas, como professor universitário e jornalista, participava de assembleias e passeatas contra a ditadura. Era o mínimo que qualquer cidadão mais ou menos consciente tinha como dever cívico. E era o suficiente para ser preso. Muitos anos depois, quando consultei minha ficha no Dops, um dos organismos da repressão, pude ver que eles achavam que eu era o cara encarregado pelo Partido Comunista de controlar a imprensa, imagina.

IMPRENSA - Como era fazer jornalismo sob a sombra da censura? Como driblava a tesoura dos censores?

ZN - No começo, os censores eram mal preparados e, sob vários aspectos, ridículos. Eram capazes de apreender livros sobre o cubismo, achando que eram sobre Cuba. Mas com o tempo e a prática, se aprimoraram, tornando difícil driblá-los. Os textos daquela época estavam cheios de eufemismos, circunlóquios, metáforas, condicionais. Foi tão eficaz que até a palavra “censura” praticamente desapareceu da imprensa. É difícil encontrá-la nos jornais da época.

IMPRENSA - Na sua opinião, qual a influência mais negativa da censurados anos 60 e 70 nos dias de hoje?

ZN - O efeito imediato mais nocivo da censura foi a autocensura. A ditadura conseguiu fazer com que durante muito tempo nós fôssemos nosso próprios censores. Acho que os remanescentes daqueles tempos ainda sofrem de vez em quando as sequelas do trauma.

IMPRENSA - Apesar de vivermos em tempos democráticos, a imprensa tem sido cada vez mais tolhida pela censura de ações judiciais. Acha que isso é um reflexo do passado ou uma nova forma de calar a mídia?

ZN - Vamos combinar que todos os governos têm como sonho declarado ou inconfessável controlar a imprensa para tê-la a seu favor. Alguns fazem isso de maneira explícita e outros, disfarçadamente, sem assumir. Hoje, a forma mais insidiosa de exercer a censura talvez seja mesmo por meio da Justiça, porque parece legal e legítima. Que o diga Roberto Carlos.

IMPRENSA - Em seu livro "1968 - o ano que não terminou", o senhor fala da ebulição daquele ano no Brasil e no mundo. Acha que 1968 já terminou? Quando e como foi isso?

O ano de 1968 foi tão carregado de simbolismos e exemplos que sua herança – a bendita e a maldita – continuam povoando nosso imaginário.

Zuenir Ventura


ZN- Tanto que só se faz essa pergunta em relação a ele e não a outros anos. Os movimentos de liberação que surgiram ou se consolidaram naquela época – o feminismo, o movimento gay, o negro, o ecológico – continuam como exemplo de legado positivo. Já as drogas... Acreditava-se, então, que elas iam ampliar o nosso horizonte mental. Hoje, elas são instrumento de morte. Também se pode dizer o mesmo da política de combate inaugurada pelo governo Nixon, a “Drug's war”, tão nociva quando o que pretende combater.

Mas se você quiser uma resposta rápida para a pergunta, eu diria que 1968 terminou como exemplo e continua como lição.

Zuenir Ventura


 ◼

*Com supervisão de Vanessa Gonçalves

Leia também