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Trump, cabeça e coração

Lucas Mendes aborda como a confiança pessoal e a demonstração de fidelidade a Trump se tornaram critérios para ocupar posições de poder

Imagem com a capa do livro sobre Donald Trump à esquerda, “American Scoundrel”, de Roy Cohn’s, com a fotografia de um homem sentado. E à direita, foto da assessora de Trump, Natalie Harp, uma mulher meia-idade, loira, com blusa vermelha com colarinho e sorrindo.
Capa do recente livro sobre o presidente Trump e a assessora Natalie Harp (Reprodução/ The White house Public Domain/ Wikicommons)

Por Lucas Mendes*

Dois novos livros em três meses contam quem fez e conquistou a cabeça do presidente. O mais recente conta como o advogado Roy Cohn ensinou o jovem Donald Trump, nos anos 70, quando foi processado em Nova York tentando alugar seu primeiro prédio que não admitia negros. Cohn ensinou as regras para lidar com o sistema judiciário: negue sempre, jamais admita culpa de nada, se perder no tribunal, cante vitória e acuse a promotoria de mentir e fabricar provas. O título longo pode ser resumido em “Roy Cohn, Canalha Americano” (“American Scoundrel: Roy Cohn's Dark Journey from Joe McCarthy to Donald Trump”).

O canalha Roy Cohn advogou para os canalhas muito mais poderosos do que ele. Ficou famoso na defesa do senador McCarthy, caçador de comunistas e esquerdistas, e mais ainda pela defesa dos principais líderes da máfia nas décadas de 70 e 80. Todos, inclusive Roy Cohn, foram para a prisão. Trump foi condenado, mas continua solto e mais ativo do que nunca. 

Antes de “Canalha Americano”, no livro “Regime Change: Inside the Imperial Presidency of Donald Trump”, Maggie Haberman e Jonathan Swan contam como os principais assessores de Trump são escolhidos pela devoção ao presidente. Lealdade incondicional é essencial.

Natalie Harp apareceu em ‘Regime Change’ como a ‘Impressora Humana’, porque a assistente com maior acesso ao presidente carrega uma impressora para imprimir as boas notícias que saem sobre ele. 

Lucas Mendes


São poucas e infrequentes nas mídias não conservadoras, e ela virou o foco dos jornais de televisão um mês depois da publicação do livro, quando foi uma das poucas convidadas pelo presidente a viajar com ele num voo secreto, saindo de Ancara, na Turquia, num avião militar para uma base americana na Inglaterra. Só ela, o secretário da Guerra, Pete Hegseth, mais dois assessores e agentes do Serviço Secreto estavam nesse avião. Os outros secretários, assessores, jornalistas e o resto da comitiva voaram no avião que seria o alvo do atentado. Depois, foi revelado que Natalie tinha sido escolhida pelo próprio presidente para viajar no grupo.

O episódio mereceu destaque, mas explodiu na mídia quando o senador Jon Ossoff, da Geórgia, comentou que “o presidente não gosta de trabalhar. O negócio dele é viajar com a Natalie no palácio voador, presente do emir do Catar.”

A explosão de Trump, quando uma jornalista repetiu o comentário, foi tão furiosa que o nome dele começou a circular como candidato a presidente para 2028. Ele sabe onde cutucar o presidente.

A curiosidade sobre a vida da assessora revelou que ela controla tudo o que entra e sai na mídia digital sobre o presidente, que tem 13 milhões de seguidores na mídia social. Natalie trabalha com ele noite e dia, sugere e cria imagens como as de Obama e Michelle como macacos na selva, Trump como Jesus, Trump general, Trump chutando a placa Lake Ontario e dançando o YMCA ao lado foi a mais recente. Este mês a dupla bateu um recorde com 1. 015 postagens, média de 32 por dia.

Natalie nunca fez jornalismo, mas trabalhou como apresentadora numa estação de ultradireita. Tem 35 anos, é atraente e articulada. Pintou no cenário quando postou que tinha sido curada de um câncer nos ossos graças a uma lei aprovada pelo presidente Trump, que autoriza o uso de certas drogas em casos especiais. Daí ela deu um salto para a convenção republicana, onde repetiu a história; de lá, saltou para o Salão Oval e outros mais fechados e se tornou a mais íntima assessora do presidente.

O jornal Washington Post investigou. Se, de fato, fez o tratamento e foi curada, foi antes de o presidente assinar a lei, e o jornal não encontrou nenhuma prova do câncer nem da cura nas clínicas e hospitais.

Ela já escreveu que ele é a pessoa mais importante da vida dela, e ele disse que se sente amado por ela como se fosse da própria família. “Todos os outros assessores me abandonariam por dinheiro. Natalie jamais me deixaria.” ◼

Trump, cabeça e coração

*Lucas Mendes é jornalista, fundador e apresentador do programa Manhattan Connection, criado em 1993. Em 2015, foi agraciado com o Prêmio Maria Moors Cabot, o mais antigo prêmio internacional de jornalismo dos Estados Unidos. 

Lucas escreveu a coluna “Manhattan” para a revista IMPRENSA de 1991 a 1994.

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