Sinais da depauperação do trabalho do jornalista avançam em redações, agências e sindicatos

Capitalismo informacional submeteu o setor tradicional de comunicações ao poder das big techs, avalia a professora Roseli Figaro

Atualizado em 21/03/2026 às 09:03, por Redação.

Ilustração mostra uma linha de gráfico em forte queda, representada por uma seta vermelha descendente. Sobre ela, dois jornalistas — um homem e uma mulher — descem com dificuldade, em postura de cansaço e instabilidade. Ao redor, papéis e objetos se espalham, enquanto a seta termina em destroços no chão, sugerindo colapso e perda. O fundo é escuro e urbano, reforçando a sensação de crise no jornalismo.

Ilustração gerada por inteligência artificial

Que o jornalismo vem perdendo empregos formais nas redações, desde o advento das redes sociais e da dominação das big techs, não é novidade. As pesquisas ao longo da última década apontam uma queda brusca, que segue ladeira abaixo.  

Em pesquisa publicada nesta semana no Drive&Poder 360, baseada em dados da RAIS (Relação Anual de Informações Sociais), o número de jornalistas com carteira de trabalho assinada caiu 31%. Se em 2014 eram 42.605 jornalistas celetistas, em 2025, os profissionais em cargos de redações passaram para 29.306.

As maiores quedas em números de vagas formais foram nas categorias de revisor de texto (menos 3.018 vagas), jornalistas (menos 2.395 vagas) e editores (menos 2.350 vagas), revela a pesquisa.

Até nos sindicatos

A Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) está com uma pesquisa para mapear o perfil e as condições de trabalho de jornalistas que trabalham em entidades sindicais de todo o país. Muitos jornalistas que trabalham nestas associações estão em regime das “euquipes”, ou seja, sozinhos exercem múltiplas funções, e muitas vezes não são remunerados como manda a lei.

Mapear esse perfil é a única forma de exigir que as entidades sindicais pratiquem, ‘dentro de casa’, os mesmos direitos que defendem para a sua categoria.

Márcia Quintanilha, diretora da Secretaria de Mobilização dos Jornalistas em Assessoria de Comunicação da FENAJ

Precarização para todo lado

Esse movimento de pejotização e precarização de vagas de emprego impacta diretamente a qualidade e quantidade do jornalismo produzido pela indústria da mídia, não só no Brasil como no mundo, um sinal preocupante para o interesse público. 

Enquanto as empresas de jornalismo testam modelos de negócios e tentam se modernizar, sem apoio financeiro da sociedade, as agências de comunicação, publicidade e assessorias, que absorvem boa parte dos profissionais de imprensa, também adotam o regime de pejotização em larga escala. 

Segundo o Guia de Agências 2025/2026, o primeiro levantamento do tipo realizado pela aceleradora de negócios B.done, o regime de contratação PJ já é maioria nas agências brasileiras. 58% da força de trabalho é PJ, apontando para um modelo flexível, porém frágil na retenção e cultura organizacional.

Capitalismo informacional

Um processo de reconfiguração do mundo do trabalho, liderado pelas grandes empresas de tecnologia, junta-se a esse histórico de precarização. Segundo a professora da USP, Roseli Figaro, em debate promovido pela Fenaj no ano passado, o capitalismo informacional não apenas reformulou o trabalho, como também subordinou as empresas tradicionais do mercado de comunicações a essas grandes corporações tecnológicas.

"As big techs controlam a produção e o fluxo informacional do mundo. Não apenas o fluxo dos usuários comuns, que querem se falar, mas elas controlam as ferramentas que proporcionam o trabalho em diferentes áreas profissionais, sobretudo, o trabalho dos profissionais da comunicação", apontou a professora especialista em comunicação e trabalho da USP. 

Em evento comemorativo de 15 anos da Agência Pública, Eugênio Bucci diz que "o jornalismo está sendo asfixiado". Segundo o site da Pública, Eugênio explica que se o jornalismo não funciona bem, por ser um serviço da democracia, a própria democracia acaba se enfraquecendo neste processo. ◼