Ser correspondente mulher: o mundo ainda nos olha diferente?
Após 15 anos como correspondente internacional em Paris, Sonia Blota analisa que gênero também faz parte da experiência profissional
Sonia Blota em cobertura para Band no Teerã, em 2010 (Reprodução)
Por Sonia Blota*
Lembro de uma viagem ao Irã, em maio de 2010, para acompanhar a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva a Teerã. Eu estava com meu cinegrafista no trajeto entre o aeroporto e o hotel quando percebi que havia um problema: meu passaporte havia desaparecido.
Comecei a conversar com o motorista do táxi, tentando entender o que havia acontecido. Ele simplesmente se recusava a falar comigo. Não respondia às minhas perguntas, não olhava para mim. Dirigia-se exclusivamente ao meu cinegrafista — que, além de tudo, não falava inglês.
Eu tentava explicar que o passaporte era meu, que precisava dele, que precisava entender o que havia acontecido. Nada. Até que fiz uma coisa muito simples: mostrei que quem estava pagando a corrida era eu. A mudança foi imediata.
O motorista finalmente passou a falar comigo. Perguntou o que eu precisava. E, depois de uma situação que parecia insolúvel, meu passaporte apareceu. Nada como uma nota de dólar para fazer um homem descobrir que aquela mulher, que ele até então ignorava, era sua interlocutora.
Foi uma situação pequena, mas que nunca esqueci. Porque ali o machismo não apareceu em um discurso ou em uma grande declaração.
Apareceu em um gesto cotidiano: um homem simplesmente não reconhecia uma mulher como interlocutora até descobrir que ela era quem estava pagando.
Eu também sabia, naquela viagem, que precisava usar o véu. Era uma regra do país e fazia parte da adaptação necessária para quem trabalha em outro contexto cultural. Mas aquela situação me mostrou que as diferenças de gênero podem aparecer para além das regras oficiais: podem estar nos pequenos gestos, na maneira como somos recebidas, ouvidas e reconhecidas.
Para uma correspondente internacional, gênero também faz parte da experiência profissional.
Entre dois mundos
Durante muito tempo, a figura do correspondente internacional esteve associada a um homem. O jornalista que chegava a um país estrangeiro, circulava por guerras, crises políticas, palácios presidenciais e zonas de conflito e, de algum modo, parecia ter sido autorizado a estar ali.
Essa imagem mudou.
Mulheres ocupam hoje espaços cada vez mais importantes no jornalismo internacional. Estão em guerras, crises humanitárias, eleições, negociações diplomáticas e grandes coberturas políticas e econômicas.
Mas ocupar esses espaços não significa que a experiência seja necessariamente a mesma.
Ser correspondente já é, por definição, uma experiência de deslocamento. É viver longe do país de origem, aprender códigos culturais diferentes, construir uma rede de fontes, entender uma sociedade que não é a sua e traduzir essa realidade para um público que está a milhares de quilômetros dali.
É também viver entre dois mundos.
O correspondente precisa compreender o país onde está sem deixar de pensar no público para o qual trabalha. Precisa saber explicar o que é estranho para quem está longe, mas também precisa evitar transformar a realidade estrangeira em uma caricatura para o público de origem.
Quando esse correspondente é uma mulher, outras questões podem entrar em cena.
Segurança. Assédio. Machismo. Aparência. Vestimenta. A maneira como uma jornalista é percebida por suas fontes. A liberdade de circular. O acesso a determinados ambientes.
Em sociedades mais conservadoras, essas questões podem ser particularmente evidentes. Em alguns países, existem espaços predominantemente masculinos nos quais uma jornalista precisa conquistar legitimidade antes mesmo de fazer a primeira pergunta.
Mas há também um paradoxo.
Em determinadas situações, ser mulher pode abrir portas que talvez permanecessem fechadas para um homem. Uma correspondente pode ter acesso a fontes femininas, a determinados ambientes ou a histórias que seriam mais difíceis de alcançar por um jornalista homem.
Por isso, não gosto de tratar a questão do gênero apenas como uma lista de dificuldades. Ser mulher também produz um olhar específico sobre o mundo. E esse olhar pode enriquecer a cobertura.
A autoridade também tem gênero?
Ao longo dos meus quinze anos como correspondente em Paris, percebi que uma das questões mais importantes é a autoridade.
O correspondente precisa construir credibilidade. Precisa convencer fontes, entrevistados e, sobretudo, o público de que conhece o lugar sobre o qual está falando.
Para uma mulher, essa autoridade nem sempre é concedida automaticamente.
Ainda existe uma tendência, em determinados contextos, de avaliar a jornalista por aspectos que nada têm a ver com sua capacidade profissional. A aparência, a idade, a roupa, a voz, a personalidade ou a maneira de se posicionar podem se tornar assuntos mais relevantes do que deveriam.
É uma diferença sutil, mas que muitas mulheres jornalistas reconhecem. E talvez seja justamente essa uma das perguntas mais importantes:
A ‘autoridade’ profissional é percebida da mesma maneira quando quem segura o microfone é uma mulher?
A resposta não é simples porque depende do lugar, da cultura e do contexto.
Uma correspondente brasileira em Paris não vive exatamente os mesmos desafios que uma jornalista trabalhando no Oriente Médio, na Ásia, na África ou em uma região marcada por conflitos.
O gênero se cruza com religião, costumes, legislação, segurança, política e relações sociais.
Em alguns lugares, ser mulher pode significar enfrentar restrições concretas de circulação e acesso. Em outros, o obstáculo aparece na forma de machismo, assédio ou violência.
Mesmo em sociedades consideradas mais igualitárias, a desigualdade pode assumir formas menos visíveis: na distribuição de posições de poder, na remuneração, na exposição pública ou na cobrança sobre a vida pessoal.
Por isso, talvez a pergunta mais interessante não seja simplesmente se ficou mais fácil ser correspondente mulher. A pergunta é: o que mudou — e o que permaneceu?
O mundo digital
Nos últimos quinze anos, o jornalismo também mudou radicalmente.
Quando comecei a trabalhar como correspondente, a televisão e o rádio ainda concentravam grande parte da relação entre jornalista e público. Hoje, o correspondente trabalha em um ambiente multiplataforma: televisão, rádio, sites, vídeos, podcasts e redes sociais.
O correspondente deixou de ser apenas a pessoa que aparece na reportagem. Muitas vezes, tornou-se também uma presença pública. Essa transformação trouxe autonomia, proximidade e visibilidade. Mas trouxe também novos problemas.
A jornalista passou a receber diretamente a reação do público. E a crítica ao trabalho, naturalmente, faz parte da profissão. Ataques à aparência, comentários sexualizados, ameaças e julgamentos sobre a vida pessoal são outra coisa.
A violência digital contra mulheres jornalistas tornou-se um problema internacional reconhecido. A UNESCO tem chamado atenção para o crescimento desse tipo de violência e para seus efeitos sobre a segurança e a liberdade de expressão das profissionais.
O ambiente digital criou, portanto, uma contradição.
Ao mesmo tempo em que oferece às mulheres uma voz mais independente e uma relação direta com o público, também amplia a exposição a ataques que muitas vezes têm um componente claramente sexista.
O jornalista virou celebridade?
Existe ainda outra transformação que me interessa particularmente.
No Brasil, o correspondente internacional muitas vezes ocupa um lugar que ultrapassa a função jornalística. Ele pode se transformar em uma espécie de personalidade pública.
O rosto passa a ser tão reconhecido quanto o veículo para o qual trabalha.
As redes sociais aceleraram esse processo. O público acompanha o jornalista não apenas durante a reportagem, mas também fora dela. Conhece seus hábitos, seus deslocamentos, seus gostos e, às vezes, sua vida pessoal.
Isso é especialmente interessante para pensar a experiência das mulheres.
Quando a jornalista se torna uma figura pública, onde termina a autoridade profissional e começa a exposição pessoal?
Até que ponto a visibilidade fortalece o trabalho jornalístico? E quando ela passa a alimentar uma cultura de celebridade?
São questões novas para uma profissão que durante muito tempo valorizou justamente a ideia de que o jornalista deveria desaparecer atrás da notícia.
O que mudou?
Depois de quinze anos vivendo e trabalhando em Paris, percebo uma mudança importante de consciência.
Hoje se fala mais sobre segurança, assédio, desigualdade e representatividade. Há uma presença maior de mulheres em posições de destaque no jornalismo internacional. Mulheres estão em lugares onde, décadas atrás, sua presença seria muito menos comum.
Isso é uma conquista.
Mas ainda existe uma distância entre estar presente e ter o mesmo reconhecimento. E talvez seja esse o ponto central.
O jornalismo internacional precisa de mulheres não apenas porque é importante ter mulheres nos lugares onde as notícias acontecem. Precisa delas porque diferentes experiências produzem diferentes perguntas, fontes e maneiras de interpretar uma realidade.
Uma correspondente não é apenas uma mulher ocupando o lugar de um homem. Ela é uma jornalista que traz consigo uma experiência, uma cultura e uma maneira particular de observar o mundo.
E essa experiência pode fazer diferença naquilo que ela escolhe perguntar, nas fontes que consegue alcançar e nas histórias que consegue contar.
E o futuro?
O correspondente internacional também está diante de outra grande transformação.
Se hoje é possível acompanhar uma crise em tempo real pelo celular, entrevistar uma fonte por videoconferência e produzir conteúdo a milhares de quilômetros de distância, ainda precisamos de jornalistas vivendo no lugar onde a notícia acontece?
Eu acredito que sim.
Porque estar lá continua sendo diferente de assistir de longe.
Conhecer o território, compreender seus códigos, falar a língua, construir relações, reconhecer nuances e saber o que uma determinada sociedade considera importante são recursos que não se encontram necessariamente em uma tela.
Talvez o correspondente do futuro seja justamente um profissional híbrido: alguém capaz de combinar a presença física no terreno com as ferramentas digitais, a apuração tradicional com as redes sociais, a televisão e o rádio com novas plataformas.
E, nesse futuro, a questão não deveria mais ser se uma mulher pode ser correspondente. Isso já deveria estar superado. A pergunta é outra.
Em que condições ela consegue chegar, permanecer, exercer autoridade, circular com segurança, ser reconhecida pelo seu trabalho e construir sua própria voz?
Depois de quinze anos em Paris, talvez essa seja uma das maiores transformações que percebo.
Já não quero saber apenas se uma mulher consegue chegar ao posto de correspondente.
Quero saber se o mundo está finalmente preparado para ouvi-la.
Porque aquela viagem ao Irã me ensinou uma coisa que continua atual: às vezes, antes de conseguir contar uma história, uma mulher ainda precisa provar que é ela quem deve ser ouvida. ◼

*Sonia Blota é repórter, apresentadora e correspondente internacional da Rede Bandeirantes na França. Sonia também é madrinha do Troféu Mulher IMPRENSA.





