Espaços e territórios são formados, na concepção do geógrafo Milton Santos (1926-2001), por sistemas de objetos e ações. Por esses elementos e componentes, um determinado espaço ou território ganha identidade, é facilmente (re)conhecido. Jornais em papel podem ser considerados como um objeto desses sistemas. Quantos de nós, em viagens, não trazemos na bagagem um periódico que, em boa medida, é a representação, a lembrança, do lugar para onde fomos?
Pois o território formado pela República, no Centro de São Paulo, conta desde o início do inverno deste ano com uma publicação em papel que tem tudo para se constituir em mais um elemento a marcar esse bairro. Se o Copan, o Edifício Louvre, as estações de metrô das linhas vermelha e amarela, comércios de imigrantes africanos, a Biblioteca Mário de Andrade e a Galeria Metrópole são ícones da região, agora o jornal dessa mesma galeria nasce para também marcar a paisagem local.
O periódico leva o nome do espaço de onde emerge e o qual representa: Galeria Metrópole. De acordo com o editorial do número 1, o jornal impresso terá periodicidade trimestral, “acompanhando as estações do ano”. Segundo o mesmo texto, a Galeria Metrópole experimenta uma fase de abertura de estabelecimentos, promoção de eventos e de aumento de público. “Dessa forma, nada mais natural do que a criação de um veículo de comunicação próprio”, sublinha.
Mas, por que em papel? O editorial se antecipa à pergunta: “Se, por um lado, parece que a vida de todo mundo está sendo dragada pelo mundo digital e algorítmico, há também um movimento contrário de pessoas que desejam aproveitar a vida fora das telas, andar pelas ruas, olhar as vitrines e bater papo pessoalmente”.
A edição de estreia do jornal Galeria Metrópole corresponde ao inverno de 2026. A segunda, de primavera, começou a ser distribuída dias antes do início da estação, afirma a esta coluna o editor-chefe do periódico, Alexandre Dias Ramos.
A tiragem é de 5 mil exemplares, informa o editor. A circulação, explica, vai para além dos estabelecimentos da galeria. Há distribuição na banca de jornal República, em hotéis do entorno e até em pontos em outros bairros, como o Cine Belas Artes (Consolação) e pontos nos Jardins e em Pinheiros. “E tem as pessoas que veem o jornal, pegam ‘um bolinho’ para distribuir em seus locais”, conta Ramos. “Há essa circulação ‘orgânica’”, define.
Alexandre Dias Ramos tem larga experiência no mercado editorial. Já manteve editora universitária e, após migrar em 2013 para o Canadá, fundou lá o Jornal de Toronto, ainda em atividade, com presença no online (jornaldetoronto.ca), mas forte no impresso. No retorno ao Brasil e à sua cidade de origem, São Paulo, decidiu apostar no jornalismo em papel. Com o Galeria Metrópole, de maneira ainda mais radical.
De cara, decidimos que não teríamos um site do jornal. Só perfil no Instagram (@jornalgaleriametropole), mas apenas institucional, para as pessoas irem vendo aos poucos cada página do jornal, sempre de modo a que tenham vontade de ir pegar o jornal. Então, ir visitar a Galeria Metrópole e buscar o jornal em papel . Essa é a ideia.
O jornal Galeria Metrópole tem formato pouco menor que o berliner. A primeira edição contou com doze páginas. Noticiário institucional, entrevista, história, fotografias e ilustrações, receita, horóscopo e dicas de leitura, de moda, design e gastronomia se destacam.
Alguns textos têm tradução para o inglês – afinal, a galeria e outros pontos da República estão na rota de caminhadas e passeios turísticos de São Paulo. Aliás, além do bom momento vivido pela Galeria Metrópole, o bairro como um todo está em evidência. Um ranking da revista internacional Time Out aponta a República entre os 40 bairros mais legais do mundo – ocupa a 25ª posição. Laranjeiras, no Rio de Janeiro, é o outro brasileiro na lista (17ª colocação). ◼

* Wagner de Alcântara Aragão, jornalista e professor. Tem doutorado em Comunicação (UFPR, 2025), mestrado em Estudos de Linguagens (UTFPR, 2018) e especialização em Ensino da Língua Portuguesa e Literatura (UTFPR, 2008). É graduado em Comunicação Social/ Jornalismo (UniSantos, 2000) e em Geografia (Unibem, 2004).


