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Perto dos 40, ‘Bom Dia, Vietnã’ emula jornalismo hiperlocal

Ao retratar o drama humano e criticar os bastidores da guerra, o filme reafirma a missão do jornalismo de dar voz ao povo e cultivar o senso crítico

O ator Robin Williams, interpretando um locutor de rádio, grita em um microfone vintage com uma expressão de entusiasmo. Ele usa fones de ouvido grandes de cor cinza e uma camisa social branca de mangas curtas. No fundo, há equipamentos de rádio como mesas de som e gravadores de rolo de fita, em um estúdio de rádio.
O ator Robin Williams interpreta um locutor de rádio (Crédito: Divulgação)

Eu vivo intensamente o jornalismo há muitas décadas. Amo a minha profissão e o poder transformador dela. Sempre tento refletir sobre quais foram os momentos marcantes da minha vida que me levaram para o jornalismo.

O filme “Bom Dia, Vietnã”, de 1987, com o magistral ator Robin Williams interpretando um radialista que vai comandar um programa de rádio, durante a guerra, para animar os jovens soldados longe de casa, é uma referência que eu entendo como muito potente na minha escolha de profissão. O comunicador precisa entender a sua audiência e se conectar a ela, buscando sempre a qualidade e a excelência do conteúdo. 

O jornalismo hiperlocal só faz sentido se o jornalista tiver total consciência e empatia com o território e as diversas comunidades presentes.

Juca Guimarães

Precisa saber intensificar e trazer respostas para as necessidades humanas, falando a linguagem e compreendendo os códigos hiperlocais.

O filme, que está perto de completar 40 anos, mostra com muita precisão um modelo de comunicação que atualmente faz toda a diferença no jornalismo hiperlocal. É o futuro das estratégias de engajamento e fortalecimento de credibilidade dos veículos de comunicação, seja lá qual for a plataforma.

Dirigido por Barry Levinson (vencedor do Oscar de melhor diretor com “Rain Man”, em 1988), “Bom Dia, Vietnã” não é estritamente um filme sobre jornalismo hiperlocal, porém emula, no seu discurso antiguerra, características significativas das responsabilidades do jornalista. A principal é a da “perspectiva com a visão do outro”. É ela que faz o jornalismo hiperlocal ser tão especial nos dias de hoje. O filme destrincha o drama vivido pela população de Saigon por conta da ocupação militar dos americanos, ao mesmo tempo que critica a hierarquia do exército e o propósito da guerra. 

Trabalhando em diversos veículos de comunicação em São Paulo, desde 1997, eu acompanhei de perto situações na cidade que tinham esse mesmo contexto de guerra. Problemas estruturais enfrentados pela população só podem ser devidamente retratados pela imprensa se forem consideradas e contextualizadas todas as questões de divisão social e política da cidade. O jornalismo tem essa obrigação de desenvolver também o senso crítico com empatia e a escuta do povo.

Pelo seu papel no filme “Bom Dia, Vietnã”, Robin Williams recebeu sua primeira indicação ao Oscar e por pouco não levou a estatueta para casa. O filme, disponível no streaming da Disney+, é inspirado na história real do radialista Adrian Cronauer, que chegou a ajudar no roteiro da obra, relembrando parte das suas histórias como DJ em uma rádio militar em Saigon em 1965 e 1966. Cronauer era sargento da Força Aérea americana e morreu em 2018, aos 79 anos de idade. ◼

Perto dos 40, ‘Bom Dia, Vietnã’ emula jornalismo hiperlocal

*Juca Guimarães, paulistano, é jornalista desde 1996, atua como repórter, roteirista e documentarista. Trabalhou na Folha de S.Paulo, Estado de S.Paulo, Rede Globo, Alma Preta Jornalismo, Ponte Jornalismo, entre outros.

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