Opinião: “Uniforme Bege”, por Heródoto Barbeiro
O presidente estava sob fogo cruzado da imprensa e dos jornalistas antes mesmo de completar os famosos Cem Dias de governo
A virada que deu na política externa brasileira motivou ataques da oposição e principalmente da mídia. Estava sob fogo cruzado da imprensa e dos jornalistas antes mesmo de completar os famosos Cem Dias de governo. Contudo dizia, que, assim como nos Estados Unidos, o responsável pela política externa é o presidente, o ministro do exterior é apenas um executor da vontade do chefe de governo. Aproximar ou não da China? Integrar ou não o bloco dos emergentes, ou terceiro mundo e desafiar as potências? Para o presidente era tudo claro como água, era seguir em frente com a caravana e deixar os cães ladrarem. Aos poucos perdeu popularidade e ficou isolado no Palácio do Planalto. Muitos dos que o apoiaram e pegaram carona na sua popularidade começaram a abandonar o governo. Como se chama mesmo aquele bichinho que é o primeiro a abandonar o navio?? Iniciou um desengorduramento da máquina federal, e gente influente perdeu emprego e a boquinha com a tal austeridade elogiada pelo Fundo Monetário Internacional.
A grande oposição de dentro do governo vinha do funcionalismo público fortemente afetado com as medidas governamentais. É verdade que o presidente se deixava fotografar sem gravata – uma falta de compostura com o ritual do cargo. Aprofundou o canal de comunicação para falar diretamente ao povo, com seu estilo inconfundível, e sem a intermediação da mídia. Esta o expunha ao ridículo com charges e reportagem sobre a proibição das corridas de cavalo, rinhas de brigas de galo, biquíni nas praias cariocas e até o uso de lança perfume no carnaval. Aí Rita Lee.... Só faltava exigir que os funcionários federais vestissem uniforme para serem identificados pelos que usavam os serviços públicos. Baixou um decreto no Diário Oficial que não só instituía o uniforme, como dava as diretrizes da moda: além dos moldes, cor bege e tecido nacional. A mídia apelidou o uniforme de pijânio. Jânio Quadros não percebeu que as bases de apoio popular sofriam séria erosão em tão poucos meses de governo. Os embates com o Congresso Nacional eram cada vez mais intensos. Os cortes nos subsídios no trigo e no petróleo elevaram drasticamente os preços do pãozinho e da gasolina. Quais as chances de um governo com este perfil sobreviver por muito tempo?
* é editor-chefe e âncora do Jornal da Record News em multiplataforma.
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