O jornalismo do mar revolto
A imprensa mudou nas últimas duas décadas, e vai mudar mais
Ilustração gerada por inteligência artificial
Por Flavio Ferrari*
Fernand Braudel propôs que a história se move em três escalas temporais sobrepostas. Na superfície, os événements - os vendavais, as crises, os fatos do dia - agitam as águas com urgência e dramaticidade. No meio, estão as correntes conjunturais de décadas. No fundo, a longue durée: as estruturas lentas, quase imóveis, da geografia, das mentalidades e das formas de organização social. Os eventos são espuma; as correntes profundas mudam em outro ritmo.
Nas últimas duas décadas e meia, o jornalismo parece ter decidido viver quase exclusivamente na superfície do mar revolto. A internet, as redes sociais e as plataformas digitais trouxeram ganhos reais de velocidade, estética e alcance. Nunca foi tão rápido escrever, ilustrar, publicar e viralizar. Narrativas ágeis, recortes emocionais e formatos curtos tornaram-se o padrão. A estética digital elevou a apresentação e criou a sensação de onipresença e instantaneidade.
A tecnologia também viabilizou o jornalismo de dados mais sofisticado e, em casos excepcionais, grandes investigações colaborativas. Porém, a pressão por agilidade, alimentada por algoritmos que privilegiam o emocional, os modelos de negócio dependentes de tráfego e redações mais enxutas, reduziu drasticamente o tempo para contextualização, investigação e verificação.
O resultado é um jornalismo mais reativo do que explicativo.
Nick Davies, em Flat Earth News (2008), já descrevia esse fenômeno como churnalism: jornalistas convertidos em processadores de material pronto. A velocidade e o volume aumentaram; o tempo dedicado à apuração original e à compreensão estrutural encolheu. A tecnologia mudou radicalmente como se produz e distribui jornalismo. Mudou menos o que se produz em termos de profundidade, verificação e capacidade explicativa.
O jornalismo econômico ilustra bem essa limitação. As explicações para a alta ou baixa da bolsa frequentemente se ajustam ao resultado já conhecido. O mesmo fato, a tensão no Estreito de Ormuz, dado de inflação ou decisão do Fed, serve tanto para justificar a alta quanto a baixa, dependendo do desfecho do dia. Edward Tufte observou que essas narrativas diárias estão entre as inferências causais mais frágeis produzidas pela imprensa.
Fenômeno semelhante ocorre na cobertura de questões sociais, onde a seleção e o enquadramento das matérias limitam frequentemente a compreensão pública sobre as causas e a dimensão real dos fenômenos. Também no jornalismo político, no qual a cobertura tende a girar em torno de personagens, disputas pessoais e escândalos, em detrimento da análise de políticas públicas e dinâmicas institucionais.
Essa dinâmica é reforçada por uma cultura organizacional que valoriza a produção rápida e defensável no curto prazo, em detrimento de reportagens mais demoradas e arriscadas, e pela lógica de financiamento baseada em publicidade, que valoriza engajamento rápido mais do que profundidade. Nesse ambiente, profissionais com maior capacidade de distinguir a espuma das correntes, geralmente os mais experientes, são frequentemente afastados em nome de “modernização”, agilidade ou redução de custos.
A chegada das inteligências artificiais conversacionais, ao reduzir drasticamente o tráfego direto para os sites de notícia (fenômeno do “zero click”), deve forçar uma revisão mais profunda do modelo construído nas últimas décadas.
Desta vez, a mudança pode não se limitar à superfície.◼

*Flavio Ferrari é fundador do hub SocialData, professor de análise estratégica de cenários futuros na ESPM e autor do livro “O Sexto Poder – algoritmos, inteligências artificiais e reputação digital” (2025)





