Cento e cinquenta caminhões se alinham para ir trabalhar nos escombros. Manobras de guerra. Emergências por toda parte.
Os voluntários se alistam.
Os voluntários correm para pegar suas máscaras.
Os voluntários rezam.
Um homem passa sozinho na América..
Um homem já entregou sua força.
Uma mulher chora porque não reconhece a paisagem.
Os homens passam com seu trabalho de ferro, duras correntes.
E nós, não podemos esquecer, não podemos esquecer.
O nosso olhar nunca mais verá a mesma paisagem de Nova York.
11 de setembro de 2001, NY, Neide Duarte
Descobri que o que ainda nos une, passados tantos anos, não é a lembrança dos fatos, mas o sentimento do medo e a sensação de perda. As palavras e as imagens já saturaram o 11 de setembro. O mundo mudou. As redes sociais escancaram as tragédias. Mas o que passou naquela ilha, na hora e nos dias subsequentes ao ataque terrorista, permanece numa região menos racional da mente de quem estava lá, e que certamente não será visível nestas linhas.
O fato é que estava em Nova York com os três jornalistas vencedores do Prêmio Mídia da Paz e seus acompanhantes. Chegamos no dia 10 de setembro e retiramos nossa credencial de jornalista na ONU no mesmo dia.
Neide Duarte já era uma jornalista com carreira consolidada e superpremiada, que, em 2001, tinha um programa na TV Cultura chamado “Caminhos e Parcerias”. Analu (Ana Costa Santos), a quem dedicamos este texto, era coordenadora de produção da TV Cultura. E eu exercia a função de diretora de projetos especiais da Revista IMPRENSA.
Converso online, pela primeira vez, com a jornalista Neide Duarte sobre nossa vivência em Manhattan durante a tragédia do 11 de setembro de 2001:
Neide: – Que loucura, 25 anos. Para a gente foi uma aventura. A gente não tinha estrutura nenhuma; fomos lá para assistir à abertura da Assembleia Geral da ONU, não é?
Alexandra: – Foi uma total inversão de papéis, porque a gente estava lá para discutir a questão da mídia da paz. Haviam várias reuniões marcadas, não sei se você lembra da nossa agenda no New York Times, na Columbia e tudo mais.
Neide relembra que ela e a Analu preferiram se hospedar no San Carlos Hotel, no Eastside, porque lá tinha uma cozinha para fazer o café da manhã e banheiro no quarto.
Neide: – Preferi pagar um pouco mais lá, mas ter essa opção de ter comida. Quando saímos da ONU, com a credencial, passamos no supermercado, naquele Amish Market. Era uma comida maravilhosa, com as coisas que eles plantavam. A gente comprou um monte de coisa e deixou lá. Se a gente não tivesse feito isso, não teria comida. (Refere-se aos acontecimentos pós-11 de setembro).
Mostro a credencial.
Neide: – Nossa, a credencial da ONU! Você guardou! Porque, sem ela, a gente não ia poder fazer nada mesmo.
O que significou a experiência de cobrir um evento daquela magnitude?
Neide: – Foi bárbaro. Pelo lado profissional, foi incrível, né? Foi uma grande oportunidade. Você chegar na hora em que está acontecendo uma coisa dessa, para o repórter, é ouro. Ouro em pó. Tem esse lado terrível e tudo, mas tem o lado falando: ‘nossa, estou nessa cobertura’.
Já, no meu caso, foi a primeira vez que acompanhei uma repórter fazendo seu trabalho. Foi quase que um debut. Meu nível de estresse estava altíssimo. Era eu quem conversava com os guardas armados, pedia informações e sabia o mapa da cidade de cor. Neide filmava e a Analu dava assistência para a Neide e me apoiava.
Alexandra: – Apesar das coisas que estavam acontecendo, lembro de como a Analu era uma pessoa serena, sempre me acalmando.
Neide: – Ela era bem assim. Conseguindo fazer as coisas, parar e mostrar que tinha saída. E eu estava sempre meio desesperada, e ela era ponto de apoio, de pôr as coisas no chão e falava: ‘calma, vamos pensar’.
Para quem não conhece, o estilo jornalístico da Neide é muito peculiar. Ela constrói a matéria com as descrições da imagem. É possível associar as narrativas a poemas ou a crônicas em formato de videoreportagem. O olhar dela mostra a sombra, a imagem refletida, invertida, detalhes cheios de significados, sutilezas.
Este é um trecho da matéria “O dia que Nova York perdeu a cor”, exibida pela TV Cultura:
Crédito: Acervo TV Cultura
O que você lembra daquele dia?
Neide: – Lembro que a gente estava em um andar bem alto, encostado na esquina com a 3ª. Avenida. Eram quase 11 da manhã, porque a gente tinha chegado tarde e queria dar uma descansada. Acordamos tarde e não ligamos a televisão. Eu olhei pela janela e vi uma multidão. O que será isso? Olha que multidão que está passando ali, nunca vi isso. A Analu falou: ‘Acho que é assim mesmo, é hora do almoço’. Sabe? Você fica na dúvida. Descemos. Aquela loucura de multidão andando. Eu falei: ‘Não, não é possível’. A gente chegou na livraria Barnes & Noble, na esquina da 54. Fechada. Olhei do outro lado da rua e tinha uma loja de roupas também fechada. Pedi: ‘Analu pergunta para ele. Eu vou até a 5ª Avenida’. Ela perguntou e chegou assim: ‘Olha, ele falou que veio um avião e derrubou as Torres Gêmeas’. Eu falei: ‘Analu, o seu inglês não está bom. Não é possível, imagina, isso não acontece.’ E aí aquela multidão subindo (na direção norte). Eu não sei aonde as pessoas queriam chegar.
Neide continua: – Passou uma mulher brasileira, ouviu a gente conversando e ela falou: ‘Vão para o hotel, estão atacando Nova York’. E aí, a gente conseguiu entender o que realmente tinha acontecido. Mas olha o tempo que você demora. Imagina se fosse hoje.
Neide: – A gente estava na rua, meio perdidas, porque o celular não funcionava. Vimos uma fila no orelhão, na 5ª Avenida. Era só o orelhão que funcionava; parece mentira, né? Eu entrei na fila do orelhão, liguei para o Marquinho, que era o diretor da TV Cultura, e ele disse que ia falar com o Lucas (Mendes), que na época fazia o programa que era exibido na Cultura. Ele falou: ‘Vai no Lucas que ele vai te emprestar uma câmera.’ E aí, talvez eu tenha ligado para o Lucas e acho que falei com você, Alexandra.
E onde eu estava antes de falar com a Neide?
Meu hotel era perto do Empire State. Naquela manhã, sai cedo, fui de metrô até a Union Square, desembarquei na esquina da 14th com University Place e vi todos olhando para o sul da ilha; era a primeira torre pegando fogo. Entrei na loja Circuit City, uma megastore de eletrônicos na época, e comprei uma câmera digital. Estava na loja quando o segundo avião colidiu às 9h03 e o terceiro às 9h37, no Pentágono. Vi pela TV. O pessoal na loja foi entrando em pânico. Mesmo assim, consegui que eles vendessem o equipamento, deu tempo de pagar, colocar as pilhas e sair para fotografar as duas torres em pé. A torre sul desabou às 9h59. Fui andando pela University Place rumo ao desastre, mas logo a norte também ruiu; eram 10h28, segundo informações oficiais.

(crédito: Alexandra Itacarambi)
Sem celular e sem transporte funcionando, e com as lojas fechando, resolvi voltar para o hotel a pé pela avenida Broadway. No caminho, radinhos de pilha davam notícias de outro acidente com avião; todos estavam desnorteados. Mudei a rota e fui para o escritório do Lucas Mendes, na Times Square. De lá, comecei a ligar para o Brasil e para tentar localizar os jornalistas que haviam viajado conosco para saber se estavam seguros.
Com uma câmera na mão
Neide e Analu se encontraram comigo no escritório do Lucas, pegamos a câmera e saímos em direção ao chamado “Ground Zero”.
Neide lembra que neste dia os bares davam bebida e comida de graça, mas só para quem estava cheio de cinzas, que eles percebiam que estava trabalhando. Então, a gente não conseguia comprar uma água. Não estavam vendendo nada.
Neide: – E a gente foi andando, vários postos montados, só a pé que a gente podia ir. Você lembra? Várias tendas, não tinha nenhuma pessoa. Aí que a gente começou a entender que não tinham vítimas; todos tinham morrido. Não havia feridos. Aquele monte de tenda, médico, enfermeiro, não sei o quê, vazios. Não tinha ferido. E foi muito forte. Os Estados Unidos foram tão horríveis com tantos países..., mas naquele momento não eram os Estados Unidos, eram aquelas pessoas que estavam naqueles prédios. Então, acho que todos nós sentimos aquela dor.
Na nossa conversa, tive algumas constatações. Nós duas não nos lembrávamos de muitos detalhes. Quer dizer, cada uma lembrava de um detalhe diferente, mas eu achava que, pelo impacto daquela experiência, tinha bloqueado a minha memória. Saber que compartilhávamos aquela memória ‘falha’ e o mesmo sentimento de dor, após um quarto de século, foi um certo alívio. Existe uma certa cumplicidade em quem viveu o medo daqueles dias que sucederam a tragédia.
Plano B
Havia um risco eminente de novos ataques. Ninguém sabia o que poderia acontecer. O espaço aéreo da cidade ficou fechado. Barricadas impenetráveis foram montadas nas saídas da Ponte do Brooklyn, Ponte de Manhattan e Ponte de Williamsburg, além das entradas do Túnel Holland. Nenhum carro civil entrava em Manhattan por essas rotas.
Dentro da ilha, as ruas foram cercadas por postos de controle com grades de metal azuis da polícia (as tradicionais NYPD barricades) e blocos de concreto bloqueando cruzamentos vitais na 14th Street (e depois na Canal Street e Chambers Street) com a Broadway, West Side Highway, 7th Avenue, 2nd Avenue e todas as outras vias que seguiam em direção ao sul.
Neide: – Não podia sair, não deixavam a gente sair. Estava fechado. Isso deu uma agonia.
Alexandra: – Sim, todo dia eu ligava para saber se podíamos ir para o aeroporto, eles falavam: ‘não, não’.
Neide: – Nossa, eu fiquei pensando que qualquer coisa a gente aluga um carro, vamos descendo, passamos para o México e lá a gente pega avião. Juro que cheguei a pensar.
Alexandra: – Você tinha esse plano B?
Neide: – Tinha, eu não falei nada, porque deu uma certa aflição, né? Eu fiquei aflita de me sentir presa ali. Ninguém entra, ninguém sai. Você não ficou um pouco assim?
Alexandra: – Eu dormia com as minhas coisas, vestida, de sapato e com meus documentos principais na cintura. A TV ficava ligada e tinha os endereços de amigos de fora de Manhattan num papel.
Neide: – Você estava pensando em pegar aquelas pontes?
Alexandra: – Se eu precisasse sair de Manhattan, sim. Eu precisava ir para algum lugar. Então, eu tinha endereços de amigos fora de Manhattan caso precisasse sair. O que eu ia fazer?
As matérias da TV Cultura
Filmamos entre os dias 11 e 14; nos outros não lembro, acho que perambulamos pela cidade, que começou a voltar a funcionar gradualmente depois do dia 15. As duas filmagens foram situações pesadas. A gente sabia que milhares de pessoas tinham acabado de morrer incineradas. E a gente não sabia o que ainda poderia acontecer.
Alexandra: – Lembro que, no primeiro dia, havia umas montanhas de roupa; aquilo me impressionou. Eles chamavam de ‘loads’ e ficavam nas esquinas. Eram roupas, sapatos, que eles iam pegando nos escombros, nas ruas, para os caminhões passarem e levarem. Você chegou a filmar?
Neide: – Não. Eu lembro que filmei uma moça quando a gente estava no último pedaço que eles deixaram a imprensa chegar, que era Soho, antes da Canal Street. Ela veio e pôs uma bandeira dos Estados Unidos. E sabe, naquele momento tinha uma coisa muito forte de patriotismo, mas tudo parecia que fazia sentido, que estava certo, que era assim mesmo.
As duas matérias foram editadas no estúdio do Lucas Mendes e foram enviadas no “slot” do satélite, que era como se fazia naquela época. Neide conta que ficou com as fitinhas em miniDV, mas que não sabe onde estão.
A segunda matéria, “O império se transforma”, foi exibida no dia 17/09. Este trecho foi cedido pelo acervo da TV Cultura:
Crédito: Acervo TV Cultura
Você já passou por outras situações extremas?
Neide: – Não. Em São Paulo, eu passei por algumas coisas, mas eu nunca fiquei assim, assustada, sabe? Eu estou com o meu produtor e ele vê que o outro está armado e vai atirar. Mas, enfim, eu nunca me assustei. Não na proporção que tomou aquilo. Nossa! Não tinha palavras.
Neide continua: – Aquilo me lembrou essa coisa que aconteceu agora no Nepal. Era uma proporção que explode e vem uma montanha, uma nuvem de fumaça, de sei lá o quê. E aquela fumaça que ficou a semana inteira em que a gente ficou lá. Aquela fumaça preta saindo e aquele cheiro na ilha inteira. Era o cheiro de um monte de pessoas e de coisas queimando. Imagina o que tinha, não parava de queimar.
Alexandra: – E depois o pessoal começou a acender velas, também ficou com outro cheiro misturado, aquilo dava uma sensação muito ruim.
Neide: – Foi lá na Union Square esse dia das velas. Eles cantaram, fizeram discursos e tal. Eu lembro que eu via umas cenas assim, umas pessoas se abraçando. Sabe quando você vê que alguém perdeu alguém? Isso era tão dolorido; o tempo inteiro a gente via essas cenas. As pessoas paradas na esquina, olhando para nada, assim. E cada vez que eu via essa cena, eu lembrava da música do Bob Dylan, que aí eu acabei usando na matéria. Porque tinha tudo a ver.
Neide: – Normalmente a gente, que é jornalista, tudo bem, você tem uma comoção ali, você está vendo aquilo, está sentindo alguma coisa. Mas nunca senti tanto como naquele momento.
Quebrou
Neide: – Eu sempre gostei muito de Nova York. Sempre achei uma cidade incrível, de me sentir muito bem. Naquele momento, quebrou uma coisa. Eu falei isso para a Lúcia (Guimarães). Ela que morou a vida inteira em Nova York, praticamente. Ela falou: ‘Não, imagina, Nova York é uma coisa que se refaz’. Repliquei: ‘Não sei, quem sou eu diante de você, que conhece tanto a cidade? Mas para mim, quebrou alguma coisa, porque eu me sentia ali, meio em casa, uma coisa gostosa. Eu comecei a ir lá em 88. E aquilo, para mim, quebrou ali.
Mais uma coisa em comum. Eu tive a mesma sensação de ruptura, porque era isso; eu morava lá entre 1994 e 1999 e me sentia em casa. Conto que, após 2001, fui visitar a cidade em 2019, com minha família. Fui à praça do Memorial 9/11, mas não entrei no museu.
Documentos relatam que só o câncer foi responsável por 5.892 mortes entre pessoas expostas à poeira e à fumaça tóxica do dia da tragédia.
Alexandra: – O museu estava cheio. A gente chegou lá, viu aquela água escorrendo, achei emocionante o que fizeram. O barulho das águas. A imensidão do buraco.
Neide: – Eu fui em 2012 e acho que em 2014. Mas agora, com o Trump, eu quero passar longe dos Estados Unidos. Você viu o porquê dos carvalhos? Aquilo ficou lindo. Me arrepiou.
Seguimos nossa conversa falando de perdas - a Analu faleceu há quatro meses - e de arte.
Neide: – Eu não sei quem fala uma coisa assim, que o contrário de guerra não é a paz, é a arte. Porque a arte é uma criação humana em busca do belo, do que é sublime. E isso falta tanto no nosso mundo; o sublime falta demais. É criar possibilidades da imaginação para alcançar outros. E longe da violência. ◼

(crédito: Daniel Itacarambi)
*A citação que inspirou essa linha de pensamento, segundo a IA, pertence a Jonathan Larson, criador do musical Rent, que escreveu: "O contrário de guerra não é a paz, é a criação" (1996).
** Nosso agradecimento ao Acervo da TV Cultura pela localização do material e por ceder gentilmente os trechos para este relato sobre os bastidores.


