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Jornalista por acaso

Zuenir Ventura sonhava em ser professor, mas seu desejo foi além. Quase sem querer, transformou-se em um dos jornalistas mais importantes do país e agora tornou-se um imortal

Reprodução de matéria jornalística da Revista IMPRENSA. De um lado o texto da revista e do outro lado a foto de Zuenir Ventura sorrindo, com fundo avermelhado.
Perfil publicado na Revista IMPRENSA, ano 29, ed. 308 - janeiro/fevereiro/2015 (Crédito: Marcelo Tabach)

Em 2015, Zuenir Ventura concedeu uma entrevista exclusiva para a Revista IMPRENSA, publicada na seção “Perfil”. Em homenagem ao grande Zuenir, um dos jornalistas mais respeitados do Brasil, que morreu dia 22/09, aos 95 anos, resgatamos a matéria realizada pelas jornalistas Vanessa Gonçalves e Alana Rodrigues*

Nem sempre os sonhos tornam-se realidade. No caso de Zuenir Ventura, os seus ultrapassaram a barreira do imaginário e atingiram níveis que nem o jovem mineiro, criado no interior do Rio de Janeiro, poderia imaginar. Porém, foram as gratas coincidências da vida, e o bolso vazio, que levaram o estudante de letras neolatinas para uma redação de jornal.

Para ele, cuja única ambição era ser professor ou mesmo escritor, o jornalismo era algo distante. Quando adentrou em 1956 a sede da “Tribuna da Imprensa”, de propriedade de Carlos Lacerda, para trabalhar no arquivo do jornal, imaginava que seu único relacionamento com a profissão seria organizar as pastas que ajudavam no trabalho dos profissionais do local. Como ele mesmo brinca, “se fosse hoje, em tempos de Google, ia morrer de fome”.

Porém, foi a morte de um escritor que fez nascer o jornalista Zuenir. Segundo Ziraldo, o editor do jornal, ninguém menos que Carlos Lacerda precisou achar alguém na redação para fazer o obituário do escritor Albert Camus. O jovem arquivista se dispôs quando alguém disse que o tinha visto lendo um livro do autor. “O Zuenir escreveu um artigo primoroso. Aí correu um boato na imprensa do Rio de Janeiro que o revisor [sic] da Tribuna era um intelectual poderoso”, relembra o criador do Menino Maluquinho.

Assim, de sopetão, Ventura foi transferido para redação e “nunca mais saiu de lá”. Com um texto refinado, passou a ser copydesk, termo chique para nomear um redator de jornal. Aplicado na nova profissão, ganhou uma bolsa de estudos do governo francês para estudar no Centro de Formação de Jornalistas, em Paris. Enquanto estudava, também trabalhou como correspondente do jornal.

Assim como um cometa, “em pouco tempo virou chefe de redação e passou, muito cedo, a fazer parte dos jornalistas mais importantes da história do jornalismo brasileiro do seu tempo”, relembra Ziraldo.

Pirâmide inversa

Como diz um amigo de Zuenir, sua carreira começou como uma pirâmide inversa. Depois de virar redator, acabou sendo chefe de redação e alçando postos de comando. Só lá pelos cinquenta anos de idade foi trabalhar como repórter.

Essa guinada profissional não fez Ventura desistir do sonho de ser professor e, até por isso, acabou influenciando uma geração de jovens que viram no querido “Mestre Zu”, apelido que recebeu dos alunos, alguém em quem deveriam se inspirar, como relembra o jornalista e produtor musical Nelson Motta. “Tive a felicidade de ter o Zuenir como professor na Escola Superior de Desenho Industrial de 1966 a 1968. As aulas dele eram maravilhosas e ele estava ali para ensinar língua portuguesa, mas era muito mais que isso. Os alunos adoravam ele. Ficamos cada vez mais próximos que, de tanto ele falar de jornalismo, fui fazer um estágio no Jornal do Brasil. Acabou que larguei os estudos e virei jornalista”.

Observador, o jornalista que começou a carreira no polêmico “Tribuna da Imprensa”, um jornal declaradamente antigetulista e que sempre se posicionou politicamente, aproveitou aquele ambiente movimentado dos anos 60 para aprender a lidar com as mudanças no governo. Para Zuenir, a isenção era — e ainda é — fundamental para a prática da profissão.  jornalista não tem que vestir camisa nenhuma, nem de partido, nem de ideologia, nem da empresa, ressalta.

Acho que jornalista não tem que vestir camisa nenhuma, nem de partido, nem de ideologia, nem da empresa. A única camisa que ele tem que vestir é a camisa da sua consciência.

Zuenir Ventura

Com essa visão e sem rabo-preso, passou por veículos como “Diário Carioca”, “Correio da Manhã”, “Jornal do Brasil”, “Revista Visão”, “O Cruzeiro”, “IstoÉ”, “Veja” e “Época”. Na maioria desses veículos, comandava as sucursais do Rio de Janeiro, o que o obrigava a ficar sempre atento ao que acontecia por perto.

Para não esquecer

Por viver com a antena ligada, em março de 1968 viu da janela da revista “Visão”, cuja redação ficava na Av. Rio Branco, palco dos inúmeros confrontos entre agentes da repressão e estudantes, um dos fatos marcantes durante o regime militar: o assassinato do secundarista Édson Luís.

Testemunha ocular do fato que tornaria 1968 no “ano que não terminou”, o jornalista acabou aderindo às manifestações contra a morte do jovem, que levaram cem mil pessoas às ruas do Rio de Janeiro. Nos idos de maio, ele foi passar as férias em Paris e, talvez por faro jornalístico ou por mera coincidência, acabou acompanhando de perto o movimento estudantil que incendiaria o mundo, influenciando a cena cultural, política e ideológica.

Não bastasse tudo isso, Zuenir Ventura ainda viveria uma experiência sui generis. Justo ele que não “vestia” a camisa da política. “Naquela época, de muita paranoia, a repressão achava que eu era ligado ao Partido Comunista, algo que nunca aconteceu. Eu tinha amigos do partido, ajudei a dar fuga a pessoas e abriguei na minha casa o Francisco Julião — líder das Ligas Camponesas. Mas na minha ficha no DOPS, que tive acesso anos depois, eles achavam que eu era uma figura perigosa. Era evidente que eu era contra a ditadura, como professor, participei das passeatas. E aí eu fui preso. Houve um inquérito policial e depois viram que eu não tinha nenhuma importância política”.

No entanto, o “Mestre Zu” tirou algumas “vantagens” dos três meses em que dividiu cela com pessoas influentes como Hélio Pellegrino, Ziraldo, Gerardo Mello Mourão e Osvaldo Peralva.

“Dei sorte que fiquei preso com o Hélio Pellegrino, um grande psicanalista, uma figura maravilhosa, e acabei fazendo terapia informalmente com ele”, relembra aos risos.

Volta à literatura

Como tudo na vida de Ventura aconteceu por acaso, o início da carreira como escritor — e seu retorno para seu ponto de partida, a literatura — não poderia ser diferente. Praticamente “obrigado” a escrever um livro sobre os 20 anos do ano da instituição do Ato 5, aceitou a missão e colocou no papel muitas das cenas que tinha visto ou participado ora como jornalista, ora como cidadão indignado com a ditadura. Nascia “1968: o ano que não terminou”, um best-seller que está quase na 50ª edição e que inspirou o seriado “Anos Rebeldes”, da Rede Globo.

“Eu não tinha nenhuma expectativa de sucesso do livro, mas acabou que virou um sucesso. Tanto eu não acreditava nisso, que cheguei a fazer uma aposta com dois colegas do Jornal do Brasil: se o livro passasse da primeira edição, eu pagaria uma garrafa de whisky e um jantar para os dois por cada edição. Nunca paguei essa aposta”, diverte-se.

Se o primeiro livro de Zuenir teve êxito, o título do segundo acabou se transformando num termo que define a violência entre policiais e traficantes da “Cidade Maravilhosa”, mostrando como o jornalista conseguia descrever em poucas palavras o que nem é sempre possível decifrar.

Em “Cidade Partida”, o autor descrevia suas experiências nos nove meses em que frequentou a favela de Vigário Geral, apresentando um retrato das causas da violência no Rio. Aclamada pela crítica, a obra ganhou o Prêmio Jabuti de Reportagem.

Opção pela vida

Se a vida literária ia bem, a vida à caça de notícias em campo só aconteceu em 1989, quando tornou-se repórter especial do Jornal do Brasil. Na época, foi enviado ao Acre para fazer uma série de reportagens sobre o assassinato do líder seringueiro Chico Mendes. “Foi uma experiência muito radical pra mim. Só conhecia o Chico Mendes de ouvir falar, só depois de morto”, lembra.

A atuação do “foca” com as reportagens sobre o seringueiro rendeu a Ventura nada menos que os Prêmios Esso de Jornalismo e Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Quinze anos depois, quando retornou à região para apurar mais dados para a produção de um livro baseado na série premiada, viveu uma das experiências “mais importantes do ponto de vista emocional e existencial”, como ele mesmo define.

“Eu trouxe do Acre a principal testemunha do caso. Um menino de 13, 14 anos, que estava ameaçado. Eu tive que trazer o menino para minha casa até os 18 anos, sob a minha tutela. Foi uma das experiências mais importantes do ponto de vista emocional e existencial, porque na faculdade eu ensinava que o repórter tem de ficar distante do fato, não podia se envolver com a notícia. Mas eu acabei não só me envolvendo, como trazendo a notícia para dentro de casa." 

Fiquei diante de um dilema: ou ia relatar a morte deste menino ou evitá-la. Eu preferi evitá-la.'

Zuenir Ventura

A tal da imortalidade

Em 1998, o susto com um câncer de bexiga foi superado com o lançamento do livro “Inveja – Mal secreto”. Porém, faltava a Zuenir a aventura pelos romances. Assim, em 2012, o escritor publicou “Sagrada Família”, sua primeira obra do gênero.

Com prazer, como ele mesmo diz, pôde deixar de lado a incansável responsabilidade do jornalista com a apuração para mergulhar no mundo da ficção. “A diferença é que eu podia mentir à vontade. Ali quanto mais você mente, melhor”, afirma.

Depois de uma carreira e uma vida repletas de experiências, só faltava a Zuenir uma coisa: a imortalidade. Ele, que sempre desconversou sobre a possibilidade de candidatar-se a uma cadeira na Associação Brasileira de Literatura (ABL), se rendeu aos convites dos amigos e entrou na disputa pela vaga deixada pelo também escritor Ariano Suassuna, morto em julho de 2014.

“Eu gosto muito de novidade. O jornalismo dá muito isso pra gente, né? A notícia tem de ser sempre uma novidade. Fiquei muito honrado em ter sido eleito, mas é a primeira vez que eu sou eleito a alguma coisa. Fiquei tão comovido que, na comemoração da eleição, tive uma baixa de pressão e dei um certo susto. Até brinquei que meu medo era desmoralizar a imortalidade”, revela sorrindo.

Ziraldo se desmancha em elogios ao falar sobre a nomeação do amigo na ABL. “Ele se tornou um dos principais intelectuais do Brasil, o que justificou o convite, praticamente um convite, uma coisa rara na academia, para ser acadêmico. O Zuenir nunca se adiantou para se oferecer. Ele nunca quis ir para a ABL. Os amigos que incentivaram. Vamos curtir a emoção juntos. Espero não desmaiar junto com ele na hora de colocar o fardão”, diz aos risos.

“Eu gosto muito de novidade. O jornalismo dá muito isso pra gente, né? A notícia tem de ser sempre uma novidade. Fiquei muito honrado em ter sido eleito, mas é a primeira vez que eu sou eleito a alguma coisa. Fiquei tão comovido que, na comemoração da eleição, tive uma baixa de pressão e dei um certo susto. Até brinquei que meu medo era desmoralizar a imortalidade”

Ao mestre, com carinho

Admirado pelos colegas escritores e jornalistas, os amigos revelam que Zuenir também é um mestre na rotina diária e lida com bom humor com as intempéries do tempo.

Atualmente, ao lado de Ziraldo e de Luis Fernando Verissimo escreve uma peça sobre a terceira idade, onde pretendem mostrar que a velhice não precisa ter aquela visão apocalíptica e que pode ser encarada com muito bom humor.

Verissimo, de quem é amigo desde 1990, revela que Ventura é uma pessoa de fácil trato fora da redação. Tanta é a admiração, que o jornalista acha que “o termo ‘afável’ foi inventado para descrever o Zuenir”.

A amizade levada à distância, um mora do Rio de Janeiro e o outro em Porto Alegre, é incapaz de prejudicar o entrosamento de ambos, até no humor. “Fizemos algumas palestras juntos e o Zuenir sempre começa dizendo que entre nós já rolou de tudo, só não rolou sexo. Aí eu digo: ‘ainda’”, conta Verissimo.

Para Nelson Motta, o encanto que Ventura tem pela vida torna-o “um farol, sempre iluminando a cena com clareza, rigor, generosidade, reproduzindo em seu trabalho o ser humano que é”. Por essas e outras é que Zuenir precisa exercitar bem sua “imortalidade”. Afinal, quem seria louco de viver sem seus textos?! ◼

*Perfil publicado na Revista IMPRENSA, ano 29, ed. 308 - janeiro/fevereiro/2015

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