Fábrica de Chapéu sobrevive através da diversificação - Por Fabiana Franzolin / PUC Campinas

Fábrica de Chapéu sobrevive através da diversificação - Por Fabiana Franzolin / PUC Campinas

Atualizado em 20/04/2005 às 09:04, por Por Fabiana Franzolin e  estudante do curso de jornalismo da PUC Campinas.

Por Para quem pensa que não se usam mais chapéus, a Fábrica Vicente Cury & Cia prova o contrário. Localizada em Campinas, os chapéus Cury tornaram-se os mais famosos do Brasil. E a história na mente. O diretor da empresa, Sérgio Cury Zákia, conta como começou essa tradição. "Há um vinte anos atrás, veio um cliente dos Estados Unidos aqui, que sabia que ia ser filmado o Indiana Jones. Ele achava que conseguiria vender muitos chapéus e não venceria fazer as carapuças, que é a primeira e mais difícil etapa da fabricação, a junção dos pêlos soltos. Daí, o americano encomendou cerca de 8 mil carapuças e nós fizemos. Só que o acabamento, que vai a marca dentro do chapéu, não foi a gente", explica.

Esta história fez com que muitos campineiros acreditassem que o próprio chapéu do Indiana Jones tivesse sido feito pela fábrica. Zákia conta que por interesse financeiro e de vendas a empresa falou que tinha produzido o chapéu. Quando o filme foi lançado na mídia, muitos foram fabricados e por causa dessa repercussão, até hoje vende-se este tipo de chapéu.

Uma das razões da empresa conseguir se manter até hoje é a diversidade. Todos os tipos de chapéus são fabricados, femininos, masculinos, de pêlo, de lã, boinas, pequenos, grandes, etc. "Meu pai que veio do Líbano e comandava isso daqui, tinha uma boa visão sobre as máquinas. Ele acreditava que todos os tipos de chapéus deveriam ser fabricados, mesmo quando não existia forma. Uma vez ele recebeu um pedido do Mato Grosso de um chapéu com 84 cm, para se ter uma idéia o maior que existia era o de 64 cm, que já era considerado grande. Isso não foi problema, ele dizia que nós tínhamos que fazer a forma, porque o nosso trabalho era fabricar chapéus; senão aonde o cliente iria comprar, numa loja de sapato? O meu pai fez a chapéu especial e mandou pra lá. Depois ficamos sabendo que era para um anão que tinha problemas, mas também nunca mais pediu", relata Zákia.

A partir desse princípio da família Cury, nenhum pedido deixou de ser feito. Até mesmo a extravagância da rainha dos baixinhos foi atendida. Zákia conta que Xuxa queria um chapéu bem diferente, que não existia nem molde. Ele se lembrou das palavras de seu pai. "O chapéu era totalmente diferente, tinha um lado mais alto, outro mais baixo. Mesmo assim a gente fez. Ela falou que compraria em torno de 30, mas acabou levando só dois", esclarece.

Atualmente é possível ver vários modelos de chapéus fabricados pela Fábrica Vicente Cury na novela América, exibida pela emissora Globo. "Todo chapéu que a Globo pede, a gente faz com o mesmo sacrifício. Eles compram e pagam direitinho. Então, toda novela que aparece chapéu, não sendo de palha, são todos nossos", explica Zákia. Para esta novela foram feitos em torno de 300 chapéus, só para os artistas. Porém, a marca América também será feita em escala comercial, com vários chapéus para os consumidores. A Globo compra já com sua marca embutida no chapéu e vende como se ela tivesse feito.

História - A história da família Cury começou em 1919 quando Vicente Cury montou uma oficina de reformas de chapéus para seu filho, Miguel Vicente Cury, trabalhar em Mogi Mirim. Um ano depois Vicente expandiu o negócio com uma fábrica de chapéus desativada, em Campinas. No mesmo ano iniciou-se uma produção familiar, em pequena quantidade. Zákia explica como funcionava. "Era uma residência na Visconde do Rio Branco. Minha mãe que era irmã do Miguel fazia os chapéus. Quando terminava de fazer alguns, parava a produção para vende-los nas ruas. O outro irmão, Joaquim, que tinha essa habilidade cuidava de trazer o dinheiro para comprar mais matéria-prima.E foi assim que começou. Foi crescendo aos poucos, como era naquele tempo".

A fábrica ficou por um curto período neste local, depois mudou-se para Avenida Senador Saraiva e posteriormente para o atual local, na rua Barão Geral de Rezende. Ao longo dos anos foi adquirindo estabilidade financeira e com isso conseguiu aprimorar a qualidade, através de maquinarias mais modernas, aperfeiçoamento na técnica de fabricação, além de funcionários especializados (muitas vezes europeus e norte-americanos, pois a maioria das máquinas era importada).

Esforço - Zákia afirma que o sucesso do negócio deve-se principalmente ao amor ao trabalho. "Meu pai sempre dizia que a gente não podia deixar a fábrica na mão de encarregados, dependendo dos outros. A família tem que ficar sempre a frente dos negócios, além de ser chapeleiro. É preciso fazer chapéu sozinho, sem auxilio de ninguém", explica.

Desde o início da empresa, sempre a família participou da produção. "Meu pai entendia muito de mecânica. Eu lembro até hoje, quando começamos a mexer nesta fábrica, eu tinha 10 anos, meu pai veio ver as máquinas. Tinha seis, mas uma estava parada. Ninguém soube explicar porque. Então ele arrumou e sempre manteve todas funcionando em ótimo estado, fazendo a manutenção necessária", afirma Zákia.

Através desse empenho em manter tudo em ordem, a empresa também conquistou os funcionários. Célio Gomes Ventosa é o funcionário mais antigo. Ele começou a trabalhar em 1941, quando tinha 13 anos. "Se não contar o tempo que eu fiquei fora da empresa dá 64 anos de casa, mas fiquei um tempo fora", conta Ventosa.

Processo - O primeiro passo para a produção de um bom chapéu é a remoção dos resíduos dos pêlos, através da lavagem e de produtos químicos. Depois, ocorre a mistura e os pêlos são colocados em uma máquina que os transforma num "algodão" extremamente fino, macio e branco. O funcionário encarregado do setor de acabamentos, Célio Antonio (42 anos na fábrica), explica que o chapéu é feito basicamente dos pêlos ou da lã (matérias-primas) e de vapor. "Depois do pêlo purificado, colocamos ele numa outra máquina em forma de um cone bem grande, para receber vapor e juntar os pêlos de forma uniforme. E é basicamente esse o processo, vai passando por máquinas para ir unindo os pêlos e depois seca o chapéu para ficar firme", explica.

A carapuça grande que se forma a partir do cone passa pêlo processo de feltragem e depois para uma máquina multi-cilindro, para ir diminuindo gradativamente de tamanho. Depois, inicia-se outras etapas como o tingimento e a enformação, até que se possa concluir o trabalho com o forro, enfeites, etc.

Empresa - Atualmente a Fábrica Vicente Cury & Cia possui 220 funcionários encarregados da produção mensal de 40 mil chapéus. Dentre esse número de chapéus existem os que são exportados para vários países como para os Estados Unidos da América, Bolívia, Uruguai, México, entre outros. "Só para Bolívia exportamos cerca de 60 mil por ano. Lá as mulheres usam um chapéu estranho, que quase não cabe na cabeça", conta Zákia.

Zákia também revela que sua empresa é a única na produção de chapéus de pêlos no Brasil. "No país existe cerca de 30 fábricas de chapéus, mas todas utilizam lã como matéria-prima", afirma.

Serviços - Um chapéu de lã custa em torno de R$ 40 a R$ 70. Porém, existem chapéus mais sofisticados, como o de pêlo de coelho selvagem, que chega a custar R$ 200. Para adquiri-los basta visitar a loja que está localizada na rua Barão Geraldo de Rezende, 142, no Guanabara. O telefone de contato é o (19) 3232-1122.