Documentário “Amora” mostra como São Paulo destrói sua memória

Filme de Ana Petta expõe com delicadeza a brutalidade do mercado imobiliário

Atualizado em 20/08/2026 às 19:08, por Colunista.

Mulher sentada diante de uma parede verde, escrevendo com giz a frase “Essa casa tem 87 anos, tem história, tem memória, tem amor”.

Cena do longa-metragem "Amora" (Reprodução)


Pedro Venceslau*

São Paulo é uma cidade majoritariamente feia e cinza porque cresceu de forma rápida e desordenada.

Com apoio da classe política, o mercado imobiliário opera de forma agressiva, devastadora e tem pressa. Muita pressa. 

É disso que se trata o documentário “Amora”, de Ana Petta, conhecida pelo seu trabalho em “Quando Falta o Ar” (2022), vencedor do prêmio de melhor documentário brasileiro do festival É Tudo Verdade, em 2022.

O filme encantou críticos e festivais ao escancarar a destruição da memória afetiva da cidade a partir de uma perspectiva intimista e peculiar

Tudo começou quando a cineasta e atriz foi informada de que a vila centenária onde ela morava com os filhos Pedro, de 4 anos, e Maria, de 10, seria demolida para dar lugar a um prédio. 

A partir da sentença, Ana começou a registrar a despedida e o luto pelo fim daquele lugar de memórias e afetos, a princípio como uma experiência familiar. 

Enquanto as máquinas avançavam ao redor, Pedro se insurge contra a depredação do seu mundo com pinturas, brincadeiras e palavras de ordem. 

A cineasta percebeu então a força daquela experiência familiar e decidiu transformá-la em um filme. 

A casa foi a última a ser derrubada. 

O trator encontrou o muro verde azulado da sala com uma mensagem que resume o espírito de resistência do longa: “Essa casa tem 87 anos. Tem história, tem alma, tem memória e tem amor”;

“Amora” ainda está percorrendo o circuito de festivais e deve estrear nos cinemas em novembro. ◼
 


*Pedro Venceslau foi diretor de redação de IMPRENSA e, hoje, é analista da CNN Brasil.