Documentário “Amora” mostra como São Paulo destrói sua memória
Filme de Ana Petta expõe com delicadeza a brutalidade do mercado imobiliário
Cena do longa-metragem "Amora" (Reprodução)
Pedro Venceslau*
São Paulo é uma cidade majoritariamente feia e cinza porque cresceu de forma rápida e desordenada.
Com apoio da classe política, o mercado imobiliário opera de forma agressiva, devastadora e tem pressa. Muita pressa.
É disso que se trata o documentário “Amora”, de Ana Petta, conhecida pelo seu trabalho em “Quando Falta o Ar” (2022), vencedor do prêmio de melhor documentário brasileiro do festival É Tudo Verdade, em 2022.
O filme encantou críticos e festivais ao escancarar a destruição da memória afetiva da cidade a partir de uma perspectiva intimista e peculiar.
Tudo começou quando a cineasta e atriz foi informada de que a vila centenária onde ela morava com os filhos Pedro, de 4 anos, e Maria, de 10, seria demolida para dar lugar a um prédio.
A partir da sentença, Ana começou a registrar a despedida e o luto pelo fim daquele lugar de memórias e afetos, a princípio como uma experiência familiar.
Enquanto as máquinas avançavam ao redor, Pedro se insurge contra a depredação do seu mundo com pinturas, brincadeiras e palavras de ordem.
A cineasta percebeu então a força daquela experiência familiar e decidiu transformá-la em um filme.
A casa foi a última a ser derrubada.
O trator encontrou o muro verde azulado da sala com uma mensagem que resume o espírito de resistência do longa: “Essa casa tem 87 anos. Tem história, tem alma, tem memória e tem amor”;
“Amora” ainda está percorrendo o circuito de festivais e deve estrear nos cinemas em novembro. ◼

*Pedro Venceslau foi diretor de redação de IMPRENSA e, hoje, é analista da CNN Brasil.





