“Comportamentos Assimétricos”, por Marcelo Molnar
A intencionalidade, ou as motivações por trás da criação e disseminação de informações, nunca foi tão complexa, multifacetada e, por vezes,
Opinião
Em meus mais de quarenta anos de experiência profissional, testemunhei transformações profundas na maneira como as informações são produzidas, distribuídas, monitoradas e consumidas. A era digital, iniciada pela internet, recentemente marcada pela ascensão das redes sociais e pela democratização do acesso à informação, trouxe consigo desafios inéditos e complexos. Um dos mais intrigantes são os comportamentos assimétricos entre as intencionalidades dos produtores de conteúdo e os preconceitos dos receptores dessa informação.
obscura. Seja impulsionada por agendas políticas, objetivos comerciais ou simplesmente pelo desejo de capturar a atenção em um ambiente saturado de conteúdo, a intencionalidade molda a narrativa de maneiras que nem sempre são transparentes para o público. Paralelamente, a receptividade dessa informação é filtrada através de uma caótica rede de preconceitos cognitivos e culturais, que distorcem a percepção e prejudicam a interpretação dos dados recebidos.
Essa dinâmica não é apenas a luta pela atenção, mas a batalha pelo engajamento e pela confiança do receptor. O triste resultado são as câmaras de eco que limitam a exposição e restringem as perspectivas divergentes. Sem tempo para reflexões profundas, desenvolvemos uma forma adaptável para concordar com a veracidade das informações. Comportamentos Assimétricos surgem quando indivíduos selecionam seletivamente a informação que confirma suas crenças preexistentes, ignorando evidências contrárias.
Encontramos um cenário parecido quando colocamos em oposição o uso frio dos dados versus a sensibilidade e a experiência humana na tomada de decisões. Enquanto os dados podem orientar estratégias e oferecer uma visão geral das tendências, a comunicação eficaz requer uma abordagem que valorize a empatia, a criatividade e as nossas conexões. Entretanto, o que deveria ser complementariedade se torna um confronto. Escolher um ou outro não parece a melhor opção, pois precisamos de mensagens que não apenas informem, mas também inspirem e ressoem em um nível profundamente humano.
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O uso de algoritmos e da inteligência artificial nos ajudam a identificar tendências e padrões onde normalmente não percebemos. No entanto, a habilidade de contar histórias que capturam as nuances das nossas experiências, destacando vozes individuais e contextos sociais, requer uma precisão que vai além da análise dura, e infelizmente, algumas vezes, trapaceada dos números. O verdadeiro valor estará na união destas duas forças.
Outro desafio é o vitimismo. Esse processo, no qual indivíduos ou grupos se identificam ou são identificados como vítimas de injustiças, danos ou sofrimentos, tornou-se um fenômeno contemporâneo, impulsionado pela facilidade e rapidez com que as narrativas pessoais são disseminadas para um público amplo. Por um lado, temos um linchamento cruel e uma cultura do cancelamento. Pelo outro, pessoas evitando a responsabilidade de suas ações e atribuindo fracassos a fatores externos. A vitimização passou a ser uma estratégia para ganhar poder, recursos ou vantagens.
Enfrentamos o desafio de restaurar a normalidade em ambientes cada vez mais polarizados e céticos. Isso exige uma abordagem que vá além das simples análises de dados ou transmissão de informações. É fundamental ter transparência nas motivações por trás do conteúdo produzido e distribuído, seja ele quantitativo ou qualitativo. Entender claramente as intenções e as interpretações, nos permite resgatar a idoneidade perdida e facilita uma recepção mais aberta das informações.
As competições inflamadas por comportamentos assimétricos não são insuperáveis, mas para transpô-las, precisamos de compromissos coletivos com a honestidade e o respeito pela verdade. Devemos olhar a ética na comunicação, imaginando uma bússola moral que nos ajude a navegar por dilemas complexos, equilibrando interesses individuais com os direitos e necessidades dos outros. Em última análise, a qualidade da nossa democracia e a saúde do nosso discurso público dependem disso.
* é formado em Química Industrial, com pós graduação em Marketing e Publicidade. Experiência de 18 anos no mercado da Tecnologia da Informação, atuando nas áreas comercial e marketing. Diretor de conteúdo em diversos projetos de transferência de conhecimento na área da publicidade. Criador do processo ICHM (Índice de Conexão Humana das Marcas) para mensuração do valor das marcas a partir de sua relação emocional com seus consumidores. Coautor do livro "O segredo de Ebbinghaus". Atualmente é Sócio Diretor da Boxnet.





