Campus Party termina neste final de semana e mostra rivalidade entre jornalistas e blogueiros
Campus Party termina neste final de semana e mostra rivalidade entre jornalistas e blogueiros
A Campus Party, maior encontro de comunidades de internet do mundo, realizado no prédio da Bienal do Ibirapuera, na zona sul de São Paulo, entre os dias 11 e 17/02, dá um novo rosto para a já histórica índole juvenil pela mudança. A mistura de energia com rebeldia niilista dos jovens agora tem outra face: não precisa mais das ruas, pois ganhou o mundo todo, nas palmas da mão, com as benesses da tecnologia. A revolução agora se faz à distância. E nem por isso é menos distante.
"A revolução que estamos vivendo não é só tecnológica, é social. Todos estão passando por uma revolução. As pessoas já vivem uma nova forma de relacionamentos pós internet, que são as relações em rede", pontifica Marcelo Branco, diretor geral da Campus Party.
O encontro é caudatário daquela tradição, tão afeita à juventude, de se mudar o mundo com as próprias mãos, e que deixou como legado o histórico ano de 1968 , com movimentos revolucionários que perduram 40 anos depois. Na época, brotaram efervescências inesquecíveis: os protestos estudantis em Paris, os confrontos em Berkeley, na Califórnia (Lá, o então governador Ronald Reagan jogou a polícia contra jovens estudantes, e um deles, Joel Tornabene, colocou uma flor no cano de uma arma apontada para si. Surgiu então o movimento Flower Power e os hippies), os estudos com drogas psicodélicas em Harvard, com o guru Timothy Leary, o Congresso estudantil da UNE, em Ibiúna, SP.
A Campus Party mostra que não há mais atos institucionais como o AI-5, de 13 de dezembro de 68, mas que os novos decretos são proclamados a cada minuto por essa nova categoria: o mundo digital. A revolução hoje se faz através de rede mundial de computadores.
Discussões democráticas
O numerário atesta a nova febre: o prédio da Fundação Bienal de São Paulo recebe três mil campuseiros do mundo todo, mas principalmente da América do Sul e da Espanha. Todos conectados, discutindo internet, astronomia, software livre, games, robótica, música e inclusão digital, em mais de 200 atividades espalhadas por 10 áreas temáticas e sete áreas especiais. Desses, 1,8 mil estão acampados. Pode-se dizer que são os hippies do século XXI, promovendo uma revolução muito mais ampla do que a ocorrida há 40 anos atrás.
Diz o diretor do evento, Marcelo Branco, que ali se "representa tudo; temos os questionamentos de 1968, mas também temos as grandes marcas participando, como a Microsoft e a Telefônica, por exemplo. É a festa de todos, são marcas, portais, veículos de comunicação, governos, movimentos sociais, a internet é um espaço de efervescência de idéias.
A cobertura da imprensa torna inevitável a discussão entre jornalistas e blogueiros. Na quinta-feira, 14, o debate promovido sobre jornalismo e a nova economia digital esquentou os ânimos dos participantes. Pouco antes de começar, blogueiros vestiram-se de dinossauros e inventaram nomes para os jornalistas, do tipo "jornalistossauro". Uma forma divertida de discutir o papel dos blogs para a notícia.
| Fernando Cavalcanti |
| Blogueiro invade espaço da imprensa vestido de dinossauro |
Lúcia Freitas, coordenadora do Campus Blog, comentou a performance: "O blog não é uma mídia, é uma ferramenta para expressar conteúdo, uma forma de expressão, não de notícia. Dizer que eles atrapalham os jornais é um factóide porque o jornalismo já está desvalorizado dentro das redações. A criação de uma rede paralela não muda as dificuldades que os jornalistas já vivem".
A essa opinião soma-se a de Ricardo Mucci, coordenador de novos projetos da Fundação Padre Anchieta. "A mudança do jornalismo já está em curso, vamos celebrar a cultura livre. É um desafio, porque hoje o usuário é o produtor e o consumidor da informação. A notícia através da internet passa a ser um conteúdo vivo, o leitor não é mais passivo. Por isso essa efervecência de blogs".
A linguagem do espectador
Seguindo essa tendência, a Fundação Padre Anchieta resolveu investir na Campus Party como uma espécie de plataforma de relacionamento com o jovem, para, segundo Mucci, "abrir as portas da fundação para o público jovem entrar, e inclusive nos mostrar, com a interatividade, o que eles gostariam de ver e ouvir." Mais de 100 funcionários trabalham diretamente no encontro tecnológico.
A rádio CBN e o portal UOL também estão com estandes fixos na Bienal, com cobertura diária e intensa da Campus Party, que teve sua primeira edição na Espanha em 1997 e está pela primeira vez sendo realizado em outro país. E por que no Brasil? Por ser um dos mais importantes no contexto de comunicação em rede. Apesar de não ter tantas pesquisas em tecnologia, o Brasil é referência nas relações em rede, além de ser respeitado em áreas como arte e criação digital.
É por isso que Anderson Alves, 23 anos, de São Paulo, 8 horas por dia na frente do computador, resolveu participar da Campus Party: "Eu projeto games, e aqui tenho oportunidade de mostrar para pessoas que gostam das mesmas coisas que eu o meu trabalho". Thiago Pereira, 26 anos, de Santa Catarina, 9 horas por dia conectado, concorda: "estou fazendo muitos contatos, é muito bom um evento em que todos falam a mesma língua".
Foto: Fernando Cavalcanti






